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Helena Merencio
Agência Correio
Publicado em 14 de maio de 2026 às 01:00
O café ocupa um lugar tão automático na rotina brasileira que muitas vezes aparece sem convite. Está no começo da manhã, acompanha pausas no trabalho e costuma fechar o almoço como se fosse parte natural da refeição. >
Esse hábito é tão forte que, segundo a ABIC, a bebida está presente em 98% dos lares do país. >
Em 2025, mesmo com queda de 2,31% no consumo, os brasileiros consumiram 21,409 milhões de sacas, mantendo o Brasil como o segundo maior consumidor de café do mundo.>
Essa presença cotidiana ajuda a explicar por que um detalhe sobre o horário da xícara chama atenção. O café não precisa ser tratado como vilão, mas pode interferir na absorção de nutrientes importantes quando é consumido logo após as refeições. Dentre os afetados no organismo se encontram principalmente minerais como ferro, cálcio, zinco, magnésio e fósforo.>
Na prática, a diferença pode estar menos na quantidade e mais no momento em que a bebida entra no dia.>
café
A discussão passa por um conceito conhecido na nutrição como biodisponibilidade. Ele indica quanto de um nutriente realmente consegue ser absorvido e utilizado pelo organismo depois da alimentação.>
Isso significa que comer alimentos ricos em vitaminas e minerais não garante, sozinho, que o corpo vá aproveitar tudo da melhor forma. O que acompanha a refeição, ou aparece logo depois dela, também pode influenciar esse processo.>
A Pesquisa FAPESP explica que a cafeína e os taninos presentes no café podem se combinar com minerais e reduzir a absorção de ferro. >
Por isso, a recomendação citada pela revista é evitar a bebida imediatamente após comer e esperar uma ou duas horas antes da próxima xícara.>
O alerta não elimina o café da rotina. Ele apenas desloca a bebida para um horário em que a chance de atrapalhar o aproveitamento dos nutrientes seja menor.>
Um estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition mostrou esse efeito de forma direta. Na pesquisa, uma xícara de café reduziu em 39% a absorção de ferro de uma refeição com hambúrguer. Com chá, a queda chegou a 64%.>
Por conta disso, esse dado chama atenção; uma vez que se aproxima de uma cena comum, já que pessoa termina o almoço, aceita um café em seguida e nem sempre imagina que aquele gesto pode interferir no aproveitamento de parte do ferro consumido poucos minutos antes.>
Para a pesquisa, a nutricionista Denise Tavares Giannini, da Uerj, afirmou que pessoas mais vulneráveis tendem a desenvolver anemia principalmente quando consomem grandes quantidades de café logo após as refeições.>
O ferro costuma concentrar a maior parte da preocupação, mas não é o único nutriente citado nos estudos. >
A Pesquisa FAPESP também menciona um trabalho publicado na revista Nutrients, em 2021, que relaciona o consumo de café depois das refeições a uma menor absorção de cálcio, zinco, magnésio e fósforo.>
Esse ponto muda a forma de olhar para o café que fecha o almoço. A bebida pode chegar justamente quando o organismo ainda está tentando aproveitar minerais importantes presentes no prato.>
Mesmo assim, a orientação não é cortar o hábito. Para quem toma café todos os dias, o ajuste mais simples é afastar a xícara das refeições principais, sobretudo quando almoço ou jantar concentram alimentos ricos nesses nutrientes.>
Se o café pode atrapalhar parte do processo, algumas combinações fazem o caminho contrário. Alimentos ricos em vitamina C, como frutas cítricas e vegetais de folhas verde-escuras, ajudam o organismo a absorver melhor o ferro.>
Segundo a Pesquisa FAPESP, uma única laranja pode aumentar esse aproveitamento de três a seis vezes.>
Mostrando, assim, que a qualidade de uma refeição não depende apenas dos alimentos isolados, mas também das combinações feitas no prato.>
Por isso, uma refeição rica em ferro pode ser mais bem aproveitada quando vem acompanhada de uma fonte de vitamina C. Já o café, nesse contexto, tende a fazer mais sentido depois de um intervalo.>
Outro ponto importante é que a cafeína não aparece apenas no café. O estudo aponta que mais de 60 plantas contêm a substância. Entre elas guaraná, cacau, chá preto, chá verde e erva-mate.>
Ela também pode estar presente em chicletes, medicamentos e bebidas energéticas. Para quem consome diferentes fontes ao longo do dia, o cuidado não envolve apenas a quantidade total de cafeína, mas também o horário em que ela aparece.>
Perto das refeições, a lógica é simples: dar ao corpo tempo para iniciar a absorção dos minerais antes da próxima dose de cafeína.>
O café segue sendo parte importante da rotina brasileira. A própria ABIC estima que o consumo médio chegou a cerca de 1.400 xícaras por pessoa no período entre novembro de 2024 e outubro de 2025.>
Esse número ajuda a dimensionar o impacto de pequenos ajustes. Para muita gente, o café não aparece apenas uma vez ao dia. Ele acompanha diferentes momentos da rotina e, por isso, o horário pode fazer diferença.>
A recomendação mais prática não é abandonar a bebida. Quando a refeição for importante para a ingestão de ferro, cálcio e outros minerais, vale deixar o café para uma ou duas horas depois. O hábito continua, mas deixa de disputar espaço com o prato.>