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Helena Merencio
Agência Correio
Publicado em 12 de maio de 2026 às 14:00
Peleliu poderia parecer apenas mais uma ilha exuberante do Pacífico. A chuva acende os tons de verde, os corais preservados aparecem perto da costa e as trilhas passam por figueiras, samambaias e pedras cinzas. >
Só que a paisagem logo esbarra na guerra. Em um campo aberto, um tanque anfíbio japonês enferrujado permanece tomado por plantas. A cena ajuda a explicar por que turistas dos Estados Unidos, Canadá, Taiwan, Coreia do Sul e Japão viajam até esse ponto remoto de Palau.>
Mais do que um destino tropical, Peleliu guarda a memória de uma das batalhas mais sangrentas e menos lembradas da Segunda Guerra Mundial no Pacífico.>
ilha peleliu
Em setembro de 1944, tropas americanas chegaram a Peleliu com uma missão aparentemente simples: tomar a ilha e destruir a base aérea japonesa instalada ali.>
Depois de dias de bombardeio, os soldados encontraram o local quase vazio. A resistência japonesa, no entanto, estava escondida em redes profundas de cavernas que o reconhecimento aéreo não havia detectado.>
Muitas dessas cavernas tinham sido fortificadas e abastecidas com comida, água e munição. Quando os ataques começaram, os japoneses foram para o subsolo. A operação que deveria durar poucos dias se transformou em um cerco de meses.>
Joe Whelan, autor de “Bitter Peleliu”, define o episódio como um horror. Para ele, a batalha não precisava ter sido travada e provavelmente deveria ter sido evitada.>
Segundo Whelan, o almirante William Halsey Jr. recomendou que a ilha fosse ignorada. A frota de invasão, porém, já estava a caminho, e a decisão foi vencida pelo almirante Chester Nimitz, comandante das operações no Pacífico.>
O custo humano foi enorme. Cerca de 14 mil japoneses e 10 mil americanos morreram durante o cerco. Nem todos foram atingidos por bombas ou tiros. O calor podia passar de 37 ºC, e soldados morreram por insolação e desidratação. Outros adoeceram após beber água contaminada.>
No fim, os principais comandantes japoneses morreram por seppuku, ritual de suicídio. A maioria dos historiadores considera 24 de novembro de 1944 como o fim da batalha, data da morte do coronel Kunio Nakagawa.>
Hoje, guias levam visitantes para cavernas usadas no combate. Em alguns pontos, pedras xintoístas com inscrições em japonês homenageiam locais onde soldados morreram.>
Marcas americanas também permanecem. Nomes como White Beach e Bloody Nose Ridge continuam em uso, enquanto ruínas da antiga base japonesa seguem expostas ao tempo.>
Moradores ainda encontram relíquias da guerra durante as caminhadas. A regra local não oficial é deixar esses objetos perto das placas que indicam pontos importantes da batalha, para que historiadores e curadores possam recolhê-los depois.>
Peleliu fica na Micronésia, a cerca de 800 quilômetros a leste das Filipinas, e integra Palau, país independente desde 1994. Antes disso, a região foi controlada pelo Japão, pela Espanha, pela Alemanha e pelos Estados Unidos.>
A guerra também alterou a paisagem. Segundo Shingo Iitaka, professor de história da Universidade de Kochi, tratores e equipamentos americanos nivelaram o terreno, expuseram o subsolo branco e mudaram a topografia da ilha.>
Para Iitaka, relatos sobre a batalha costumam privilegiar americanos e japoneses, deixando em segundo plano os palauanos, verdadeiros donos daquele território.>
Ainda hoje, grupos japoneses chegam a Peleliu para homenagear soldados mortos ou tentar repatriar os ossos que permaneceram na ilha. Nos últimos anos, gamers também passaram a visitar o local por causa de “Call of Duty: World at War”, lançado em 2008.>
Antes da guerra e da colonização, Peleliu tinha aldeias organizadas por anciãos de clãs, que tomavam decisões em construções chamadas “bai”. Poucas sobreviveram.>
Em Peleliu, o coral preservado divide espaço com cavernas, tanques e ruínas. Mesmo cercada por mar azul, a ilha lembra que nem toda paisagem bonita consegue esconder o que aconteceu sobre ela.>