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Os monstros de pedra nos telhados das igrejas são uma solução engenhosa para problema histórico de engenharia: o que são e para que servem

Elas parecem monstros, mas nasceram como uma solução engenhosa para resolver um problema do cotidiano

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 4 de junho de 2026 às 19:19

As gárgulas permeiam o imaginário fantástico medieval, já tendo se tornado monstros em filmes, séries e RPG
As gárgulas permeiam o imaginário fantástico medieval, já tendo se tornado monstros em filmes, séries e RPG Crédito: Sipal Photography / Pexels

Do alto de igrejas e castelos, não é incomum encontrar as famosas gárgulas de pedra, com bocas abertas, asas e expressões ameaçadoras. Porém, antes de virarem monstros da cultura pop, essas estátuas tinham uma função bastante prática: jogar a água da chuva para longe das paredes.

Um ponto de atenção é que, na arquitetura, uma gárgula é uma espécie de bica esculpida. Ela é a ponta de um sistema de canais que conduz a água acumulada acima das edificações para o mais longe possível. Dessa forma, evitando que se criem reservatórios de água parada.

No Brasil, apesar de raras, essas esculturas aparecem principalmente em prédios neogóticos e ecléticos, que reinterpretaram formas europeias em igrejas, palacetes e construções urbanas por Wilfredor / Wikimedia Commons

A palavra “gárgula” tem relação com a ideia de garganta e gargarejo. A origem é associada ao francês gargouille, termo ligado ao som da água passando por um canal estreito. A própria imagem da criatura “cuspindo” chuva reforçou essa ligação entre pedra, garganta e água.

Gárgulas, grotescas e quimeras

Um detalhe importante para as pessoas que observam: nem toda criatura assustadora no alto de um prédio é, tecnicamente, uma gárgula. Para receber esse nome, a escultura precisa ter função hidráulica, ou seja, servir como escoadouro de água.

Quando a figura é apenas decorativa, o termo mais correto costuma ser grotesco. Já uma criatura híbrida, formada por partes de diferentes animais ou seres fantásticos, pode ser chamada de quimera. Na linguagem popular, porém, quase tudo acabou sendo tratado como gárgula.

Comparação entre uma gárgula, à esquerda, e um grotesco, à esquerda
Comparação entre uma gárgula, à esquerda, e um grotesco, à esquerda Crédito: Ermell / Jawed Karim / Wikimedia Commons

Essa confusão acontece até em monumentos famosos. Muitas das criaturas mais conhecidas da Catedral de Notre-Dame de Paris são, na verdade, quimeras adicionadas no século 19 durante a restauração associada a Eugène Viollet-le-Duc, enquanto as gárgulas reais eram as peças usadas para escoar água.

Origem das estátuas

Embora sejam muito associadas ao período medieval, as gárgulas têm raízes mais antigas. A Britannica aponta que o termo chegou a ser usado para bicas em forma de leão em estruturas clássicas, como cornijas antigas e escoadouros de terracota.

A diferença é que a arquitetura gótica começou a utilizar esse instrumento com propósito visual. Em igrejas góticas, as gárgulas passaram a aparecer como dragões, demônios, animais deformados e seres híbridos. Dessa forma, além de servir como escoamento, as figuras contribuíam com uma sensação de vigilância.

Vistas do chão, essas criaturas pareciam observar a cidade. Em muitos casos, eram interpretadas como figuras capazes de afastar o mal ou lembrar os fiéis dos perigos do pecado. A imagem do monstro do lado de fora da igreja também podia sugerir que o mal ficava excluído do espaço sagrado.

As gárgulas mais famosas do mundo

O exemplo mais conhecido está em Notre-Dame de Paris. A catedral ficou mundialmente associada a criaturas de pedra, especialmente depois da restauração do século 19 e da influência cultural de “O Corcunda de Notre-Dame”.

Outro caso impressionante é o Duomo de Milão, na Itália. O complexo informa ter mais de 3.400 estátuas, 96 gigantes, centenas de elementos escultóricos e cerca de 150 gárgulas, formando uma espécie de floresta de mármore no alto da catedral.

Nos Estados Unidos, a Catedral Nacional de Washington ficou famosa por incorporar uma figura de Darth Vader entre seus grotescos
Nos Estados Unidos, a Catedral Nacional de Washington ficou famosa por incorporar uma figura de Darth Vader entre seus grotescos Crédito: Cyraxote / Wikimedia Commons

E no Brasil?

No Brasil, as gárgulas aparecem sobretudo em edifícios ecléticos, neogóticos ou inspirados em estilos europeus. Um dos exemplos mais interessantes é o Castelinho Francês, no Flamengo (RJ) também conhecido como Casa dos Morcegos.

Construído no início do século 20, o imóvel tem esculturas de dragões e gárgulas no alto da fachada. Essas peças ainda funcionam como escoadouros de água da chuva, servindo ao propósito original da peça, mesmo com o avanço dos sistemas de escoamento.

Castelinho Francês
Castelinho Francês Crédito: Cleube Evangelista / Reprodução / YouTube

A Catedral da Sé, em São Paulo, é uma construção neogótica localizada no coração da capital, que possui seu próprio acervo de esculturas. O templo tem elementos da fauna brasileira, como tatu, garça, lagarto e tucano, incorporados à decoração. Porém, a maioria dessas esculturas não são gárgulas, ou mesmo grotescos no estrito senso.

Outras sobreviventes do estilo neogótico no país são a Catedral de Petrópolis e a Catedral Basílica de Curitiba.

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Igreja Católica Igreja História Neogótica Marquise Curiosidades