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Os vagalumes estão sumindo das noites, e ameaça silenciosa preocupa cientistas

Conhecidos pelo brilho noturno, os vagalumes dependem de ambientes úmidos e escuros, cada vez mais alterados pela ação humana

  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Agência Correio

Publicado em 4 de junho de 2026 às 08:08

Pontos de luz na paisagem noturna ajudam a explicar por que o sumiço dos vagalumes mexe tanto com a memória afetiva
Pontos de luz na paisagem noturna ajudam a explicar por que o sumiço dos vagalumes mexe tanto com a memória afetiva Crédito: MicheleIlluzzi/Wikimedia Commons

Ainda existe gente que lembra exatamente onde viu um vagalume pela última vez. Pode ter sido no quintal depois da chuva, na beira de uma estrada escura, perto de um rio ou no fundo de uma casa com mato por perto.

Pequenos pontos verdes acendendo e apagando no ar, como se a noite tivesse vida própria. Hoje, em muitos lugares, esse brilho aparece cada vez menos. Ter uma impressão de que os vagalumes estão sumindo deixou de ser apenas memória afetiva.

Pesquisadores em diferentes partes do mundo vêm observando declínios populacionais em diversas espécies, um sinal de alerta para insetos que dependem de ambientes úmidos, escuros e pouco alterados para completar seu ciclo de vida.

Por trás dos lampejos silenciosos existe um grupo muito mais complexo do que a imagem romântica sugere. Os vagalumes pertencem, em grande parte, à família Lampyridae, formada por besouros conhecidos pela bioluminescência, processo químico que permite a produção de luz.

Essa luz, porém, é só uma parte da história: muitos passam a maior parte da vida escondidos no solo, em troncos, folhiços e áreas úmidas, longe dos olhos humanos.

Rastros de luz de vagalumes mostram como a comunicação desses insetos depende da escuridão natural por Simon Speich/Wikimedia Commons

A linguagem da luz

Para esses insetos, brilhar também é se comunicar. Os flashes ajudam no reconhecimento entre indivíduos da mesma espécie, podem assustar predadores e, em alguns casos, servem como orientação no ambiente.

Cada espécie possui seu próprio padrão luminoso, com diferenças de cor, brilho, intensidade, duração e frequência. Em muitas delas, machos voam emitindo sequências específicas, enquanto fêmeas respondem de forma discreta a partir da vegetação ou do solo.

Com a iluminação artificial de cidades, estradas, condomínios e áreas rurais, esse diálogo fica mais difícil. A luz excessiva reduz o contraste natural da noite e prejudica o sucesso reprodutivo das espécies bioluminescentes.

Vida escondida

Boa parte da existência dos vagalumes acontece em silêncio. Como passam por metamorfose completa, eles atravessam as fases de ovo, larva, pupa e adulto, usando habitats diferentes ao longo do ciclo.

Durante meses, as larvas podem permanecer em microambientes úmidos e escuros, como:

  • solo;
  • troncos em decomposição;
  • folhiço de florestas;
  • margens de rios;
  • áreas úmidas.

Nesses locais, alimentam-se de pequenos invertebrados. Já na fase adulta, muitas espécies ocupam a vegetação e o ambiente aéreo.

Nem todos brilham

Apesar da imagem mais conhecida, nem todo vagalume produz luz quando adulto. Muitas espécies são diurnas, vivem escondidas entre folhas, troncos e vegetação e usam feromônios para encontrar parceiros.

Essa diferença mostra que o grupo é muito mais variado do que parece. Há espécies luminosas e não luminosas, com modos de vida, histórias evolutivas e formas de comunicação distintas.

Em países megadiversos, como o Brasil, grande parte dessa diversidade ainda permanece pouco conhecida. Algumas espécies podem desaparecer antes mesmo de serem oficialmente descritas pela ciência.

Ameaças silenciosas

Entre os principais riscos, a poluição luminosa chama atenção, mas não age sozinha.

Desmatamento, urbanização, pesticidas, mudanças climáticas, contaminação química e alterações de temperatura, umidade e vegetação também pressionam esses insetos.

Dependentes de ambientes muito específicos, os vagalumes sofrem quando esses espaços são degradados. O desaparecimento costuma acontecer sem alarde: primeiro some da paisagem, depois vira lembrança.

Pesquisa no Brasil

Chamado “Sistemática de Lucidotini”, um projeto apoiado pela Faperj estuda a linhagem mais diversa e menos conhecida de vagalumes do planeta. A pesquisa tem parceria com cientistas da University of Georgia e com Luiz Felipe Lima da Silveira, brasileiro atualmente professor na Western Carolina University.

O grupo Lucidotini reúne espécies que brilham e outras que não produzem luz. Nos últimos anos, pesquisadores descobriram e descreveram espécies e gêneros dessa linhagem, especialmente em regiões tropicais, como Uanauna angaporan, Zoiudo rosae e Saguassu grossi.

Ao investigar essas espécies, o trabalho busca entender como surgiram ou se perderam características como a bioluminescência, os modos de comunicação e as adaptações a diferentes ambientes ao longo de milhões de anos.

Essas informações ajudam a identificar áreas prioritárias para preservação, reconhecer espécies ameaçadas e orientar estratégias de manejo ambiental.

Mais do que a perda de pontos luminosos na noite, o sumiço dos vagalumes revela ambientes naturais cada vez mais pressionados.

Tags:

Ciência Natureza Curiosidades