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Por que Van Gogh odiava ‘A noite estrelada’, uma de suas obras mais famosas, estimada em mais de R$ 500 milhões hoje

O pintor chamou ‘A noite estrelada’ de fracasso, mesmo sem imaginar que ela se tornaria uma das imagens mais conhecidas da arte

  • Foto do(a) author(a) Helena Merencio
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Helena Merencio

  • Agência Correio

Publicado em 12 de maio de 2026 às 12:17

Na prática, o quadro mostra menos uma noite vista como fotografia e mais uma noite reconstruída pela cabeça de Van Gogh
Na prática, o quadro mostra menos uma noite vista como fotografia e mais uma noite reconstruída pela cabeça de Van Gogh Crédito: Vincent Van Gogh/Wikimedia Commons

Vincent van Gogh estava longe de qualquer ideia de consagração quando chegou ao sanatório de Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, no sul da França, em 8 de maio de 1889.

Depois de crises nervosas e do episódio em que mutilou parte da própria orelha, em Arles, o pintor passou a viver sob supervisão médica, cercado por limites que também mudariam sua forma de trabalhar.

Van Gogh costumava pintar a partir daquilo que observava diretamente. No sanatório, entretanto, esse método precisou se adaptar às restrições do tratamento por Vincent Van Gogh/Wikimedia Commons

Poucas semanas depois, naquele mesmo lugar, nasceu uma das imagens mais famosas da arte ocidental. “A noite estrelada”, hoje guardada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, foi pintada em junho de 1889 e teve como ponto de partida a vista da janela do quarto de Van Gogh no asilo de Saint-Rémy.

O próprio museu descreve a obra como uma pintura que nasce da observação, mas também se afasta dela.

A cena, porém, não foi feita como uma cópia fiel do que estava diante de seus olhos. Embora ocupasse um quarto no segundo andar, Van Gogh não podia pintar ali. Por isso, trabalhava a partir de observações, esboços e memória, finalizando as telas no ateliê que tinha no térreo.

O céu que ele viu

Durante a internação, Van Gogh observava o céu pela janela com grades do quarto. Em uma carta ao irmão Theo, escrita entre o fim de maio e o início de junho de 1889, ele mencionou a “estrela da manhã”.

Broche relicário (1855, Bapst, Paul-Alfred) por Reprodução

A edição das cartas do artista identifica essa estrela como Vênus, que aparecia no céu antes do amanhecer naquele período.

Esse detalhe ajuda a entender por que a pintura carrega algo de real, mas não se prende ao real. O MoMA também aponta que a esfera dourada entre as camadas do céu pode ser Vênus, conhecida justamente como estrela da manhã.

Mesmo assim, a obra não era um registro documental da paisagem. O vilarejo que aparece abaixo dos redemoinhos azuis, por exemplo, não correspondia ao que Van Gogh via da janela.

Segundo o MoMA, aquela pequena vila não se parece com Saint-Rémy e tem inspiração na Holanda natal do pintor.

Entre a janela e a imaginação

Van Gogh costumava pintar a partir daquilo que observava diretamente. No sanatório, entretanto, esse método precisou se adaptar às restrições do tratamento.

O historiador Richard Thomson explica que o artista fazia esboços a partir do que podia ver e, depois, no ateliê do térreo, transformava esse material em pintura.

Antes da versão final de “A noite estrelada”, ele realizou ao menos 21 variações da vista de sua janela. Esse processo ajuda a explicar por que a tela combina observação astronômica, lembrança de estudos anteriores e escolhas simbólicas.

Na prática, o quadro mostra menos uma noite vista como fotografia e mais uma noite reconstruída pela cabeça de Van Gogh.

A lua, as estrelas, o cipreste, as colinas e o vilarejo formam uma paisagem emocional, feita com movimento, contraste e cor

Carta do ‘novo fracasso’

Justamente essa mistura entre realidade e imaginação incomodava Van Gogh. A Britannica registra que, por preferir trabalhar a partir da observação, ele acabou considerando “A noite estrelada” um fracasso. A mesma análise lembra que Theo também avaliou que a obra favorecia mais o estilo do que a substância.

O incômodo aparece com força em uma carta enviada ao pintor Émile Bernard, em 20 de novembro de 1889, quando Van Gogh ainda estava em Saint-Rémy.

No texto preservado pela Morgan Library, ele escreveu que havia voltado a fazer “estrelas grandes demais”, chamou aquilo de “novo revés” e disse que já estava farto disso.

A frase revela uma contradição curiosa. Aquilo que hoje torna a tela tão reconhecível, o céu turbulento, as estrelas ampliadas e o movimento quase vivo da pintura, parecia ao próprio Van Gogh uma concessão perigosa à imaginação.

A obra que ele não viu vencer

Naquele período, Van Gogh atravessava ansiedade, isolamento e dúvidas profundas sobre o próprio trabalho.

A limitação de não poder pintar no quarto, somada à desconfiança que tinha de composições muito imaginativas, colocou o artista entre dois impulsos: registrar o mundo como via e transformar esse mundo pela cor e pelo movimento.

Foi dessa tensão que saiu “A noite estrelada”. Van Gogh tentou transmitir emoções intensas por meio do céu, das formas e dos tons, mas não se convenceu do resultado. Para ele, a experiência tinha falhado.

O tempo tratou de inverter completamente essa leitura. A pintura que o artista viu com frustração se tornou uma das imagens mais conhecidas da história da arte, comprada pelo MoMA em 1941 e hoje preservada como uma das obras mais reconhecidas do acervo do museu.

Van Gogh, morto no ano seguinte à internação em Saint-Rémy, não chegou a conhecer a fama que aquele “fracasso” alcançaria.

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Curiosidades