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Torre de Pisa e Casas Dançantes: por que prédios tortos não caem? O segredo está no solo e nas águas subterrâneas

De Pisa às casas de Amsterdã, solos moles, fundações antigas e água explicam por que algumas construções inclinam sem desabar

  • Foto do(a) author(a) Helena Merencio
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Helena Merencio

  • Agência Correio

Publicado em 17 de maio de 2026 às 11:11

Casas inclinadas em Amsterdã mostram como fundações antigas e solo instável podem mudar a aparência de uma cidade ao longo do tempo
Casas inclinadas em Amsterdã mostram como fundações antigas e solo instável podem mudar a aparência de uma cidade ao longo do tempo Crédito: Jorge Franganillo/Wikimedia Commons

Prédios inclinados costumam provocar a mesma reação: parecem desafiar a lógica. A Torre de Pisa virou o símbolo mais famoso desse efeito, mas o fenômeno aparece também em casas de Amsterdã, torres antigas da Holanda e na Pagoda da Colina do Tigre, na China.

Por trás dessa aparência instável, nem sempre existe risco imediato de queda. Muitas construções continuam de pé porque a inclinação depende de uma combinação entre solo, fundações, peso da estrutura e mudanças que acontecem lentamente debaixo do chão.

Segundo a BBC World Service, esses casos podem ter explicações diferentes, como terrenos moles, estacas antigas, alterações nas águas subterrâneas e intervenções humanas no terreno. Por isso, um prédio torto pode ser tanto um sinal de alerta quanto uma marca da própria história da construção.

A Pagoda da Colina do Tigre, em Suzhou, é uma das construções inclinadas mais famosas da China e reforça que prédios tortos existem em várias partes do mundo por Chainwit./Wikimedia Commons

O solo pode mudar tudo

Para Mandy Korff, professora associada de prática geotécnica na Universidade de Tecnologia de Delft e especialista da Deltares, na Holanda, prédios podem se inclinar por várias razões. À BBC World Service, ela citou as chamadas casas dançantes de Amsterdã como um exemplo conhecido desse fenômeno.

No centro da cidade holandesa, grande parte dessas casas foi erguida sobre estacas de madeira. Essas estruturas descem cerca de 12 metros no solo, formado por camadas de argila macia, turfa ou areia.

Enquanto as estacas permanecem em boas condições, as construções continuam estáveis. O problema surge quando a madeira começa a se degradar ou apodrecer. A partir daí, rachaduras podem aparecer, e a deterioração desigual da fundação pode fazer o imóvel inclinar aos poucos.

Também pesa nesse processo a distribuição irregular da carga. Quando uma parte da estrutura perde sustentação mais rápido que outra, o edifício pode começar a pender para um lado.

Torre de Pisa

Na Itália, a explicação para a inclinação da Torre de Pisa também passa pelo solo. Nunziante Squeglia, professor de mecânica do solo e fundações na Universidade de Pisa, integra uma equipe que monitora o monumento.

Em entrevista à BBC World Service, ele explicou que a torre começou a se inclinar ainda no início da construção por causa da extrema maciez do terreno. A estrutura afundou entre três e quatro metros, criando a inclinação que mais tarde se tornaria uma das imagens mais famosas da Itália.

Intervenções humanas no terreno também podem provocar esse efeito. Korff cita a torre da Oude Kerk, a Igreja Velha de Delft, na Holanda, como outro exemplo.

Menos conhecida que Pisa, a torre holandesa também se inclina de forma visível. O motivo está ligado ao canal próximo. O solo de um dos lados foi escavado para a passagem da água, ficou mais macio e passou a oferecer menos sustentação. Durante a construção, a torre começou a pender nessa direção.

Nem toda inclinação é defeito

Variações nas águas subterrâneas também podem afetar a estabilidade de uma construção. Ainda assim, nem todo prédio inclinado está torto por acidente.

Em Amsterdã, muitas casas foram construídas levemente inclinadas para frente. Essa escolha tinha função prática nas antigas casas comerciais próximas aos canais, já que facilitava o transporte de mercadorias para dentro dos imóveis.

Por isso, a direção da inclinação faz diferença. Quando uma casa pende para frente, isso pode ter sido previsto no projeto original. Já uma inclinação lateral costuma indicar que algo saiu do controle.

Conforme explicou Korff, um edifício torto não está automaticamente condenado. Para se tornar estruturalmente instável, a construção precisa atingir um nível de inclinação bem mais acentuado.

Pisa precisou ser estabilizada

Durante muito tempo, a inclinação da Torre de Pisa fez parte de sua fama. O problema é que medições mostraram um avanço do desnível ao longo do século 20, o que passou a preocupar especialistas.

Depois do desabamento da Torre Cívica de Pavia, também na Itália, em 1989, a situação ganhou ainda mais urgência. Para Squeglia, ouvido pela BBC World Service, esse episódio foi o gatilho para o fechamento da Torre de Pisa no ano seguinte.

Várias soluções foram discutidas até que a equipe escolheu uma técnica delicada: retirar solo do lado norte da fundação sem tocar diretamente na torre.

Ao todo, 37 metros cúbicos de terra foram extraídos. A intervenção durou 11 anos e foi concluída em 2001, quando a torre voltou a receber visitantes.

Com as obras, a inclinação foi reduzida em mais de 40 cm. Engenheiros acreditam que o monumento deve permanecer seguro por pelo menos mais 200 anos.

Endireitar pode ser perigoso

Apesar do sucesso em Pisa, Korff afirma que esse tipo de solução é muito específico e não costuma ser aplicado em condições normais.

Nos prédios com fundações de madeira, como muitas casas de Amsterdã, uma alternativa é substituir a base para impedir que a inclinação piore. O procedimento, porém, é invasivo e pode exigir a remoção do piso térreo.

Outra possibilidade seria levantar uma casa de forma parecida com o processo usado para erguer um carro. Só que colocar um imóvel novamente em posição reta, pode causar mais danos do que benefícios.

Com o passar do tempo, a construção se adapta à própria inclinação. Forçar uma correção completa pode afetar paredes, pisos e outras partes da estrutura.

Na avaliação de Korff, muitas intervenções são tecnicamente possíveis, mas costumam ser caras, complexas e arriscadas. Por isso, cada caso precisa ser analisado com cuidado.

Mudanças climáticas podem agravar o problema

Na Holanda, a preocupação também envolve o futuro das fundações. Milhares de casas construídas sobre estacas de madeira ou fundações rasas podem sofrer danos quando o nível das águas subterrâneas muda.

Caso a água subterrânea baixe, as estacas de madeira podem ficar expostas ao ar. Essa exposição acelera a deterioração e aumenta o risco de danos na estrutura.

Alterações nas águas subterrâneas também afetam as camadas do solo. Com isso, imóveis com diferentes tipos de fundação podem sentir impactos indiretos.

Korff ressalta, porém, que esse processo costuma ser lento. A inclinação de uma casa ou torre, portanto, não deve ser vista imediatamente como sinal de colapso.

Tags:

Turismo