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Felipe Sena
Publicado em 28 de maio de 2026 às 07:30
Em meio à profusão de ritmos como tecnomelody, brega e à valorização da cultura do Pará, Zaynara chega com “Delirar”, primeiro EP da carreira lançado nas plataformas digitais nesta quinta-feira (28). O projeto maduro e consistente traz o pop da cultura regional repaginado juntamente com o Rock Doido, movimento que transforma o Pará em potência musical nacional. >
“Trago uma Zaynara totalmente delirante”, brinca a cantora de 24 anos, responsável por popularizar o tecnomelody no cenário nacional, ao falar ao jornal CORREIO sobre o novo trabalho. Gravado em Belém do Pará, “Delirar” representa um ponto de continuidade na carreira da artista e reuniu fãs, influenciadores e mais de 50 profissionais em uma produção que durou cerca de cinco horas, transformando o cenário tecnológico em um espaço de conexão com o público e elevação artística.>
Zaynara em 'Delirar'
O EP conta com cinco faixas, incluindo duas inéditas: “Algema”, que abre o projeto, e “Delirar”. Além disso, traz releituras de músicas que marcaram o álbum “Amor Perene”, como “Aceita Meu Tchau” e “Águas Rasas”, além de “A Destruidora”, canção que marcou o início de sua carreira. O audiovisual será lançado no YouTube a partir desta sexta-feira (29), começando por “Algema” e seguindo com as demais faixas.>
Produzido por Will Love, da Gang do Eletro, o trabalho marca um novo momento na trajetória da artista ao ampliar as possibilidades do Beat Melody e aproximá-lo ainda mais do Rock Doido, movimento cultural e ritmo musical vibrante nascido no Pará que mistura tecnobrega, melody e batidas aceleradas, dominando as aparelhagens. “O público pode esperar isso: uma Zaynara um pouco mais tecnológica”, explica a cantora.>
Nas tradicionais festas de aparelhagem do Pará, o palco é ocupado por DJs que controlam grandes estruturas metálicas e conduzem as performances. De acordo com o artigo “Tecnobrega: música eletrônica na periferia belenense” (2014), da Universidade Federal do Pará (UFPA), o gênero possui diferentes camadas sonoras, em que bumbo e caixa apresentam timbres distintos.>
Assim, o tecnomelody surge como uma vertente do tecnobrega. O som mistura a base rítmica do brega paraense com elementos de pop e música eletrônica. Ainda segundo o estudo, trata-se de uma evolução regional direta dos estilos tecnomelody e calypso.>
Nascida em Cametá, no nordeste do Pará, Zaynara canta desde os 8 anos e segue utilizando referências de artistas como Dona Onete, Gaby Amarantos e Joelma como pontos fundamentais para criar novas formas de fazer música. A artista faz questão de levar a cultura paraense, por meio do tecnomelody e de sua estética, para todos os lugares onde passa, como no “Amazônia Live – Hoje e Sempre”, promovido pelos festivais Rock in Rio e The Town.>
“Sou muito influenciada pelo que cresci ouvindo no Pará: tecnomelody, carimbó, siriá, bangüê. Isso me moldou como artista e faz com que, dificilmente, eu não coloque algum elemento daqui nas minhas músicas. Então vai ter um pouquinho de Dona Onete, da guitarra do Calypso, de Joelma, uma bateria específica do meu pai, Nildo, meu baterista, que trabalha comigo. A gente viaja nas ideias musicais”, diz.>
A partir da sensibilidade artística e das conexões musicais, Zaynara conquistou importantes prêmios da música. Em 2024, venceu o Prêmio Multishow na categoria Artista Revelação, o WME Awards na categoria Revelação do Ano e o BreakTudo Awards na categoria Artista Revelação.>
“É o momento em que a gente consegue ampliar nossa arte e amplificar a nossa cultura como um todo. Fico muito feliz, honrada, não consigo fingir costume. Não acho normal até hoje ter Joelma e Pabllo Vittar no meu currículo. Os prêmios são importantes para disseminar a nossa cultura para outros lugares. Vejo isso como um ganho coletivo. Cada vez que um artista do Pará ganha um prêmio, essa notoriedade é importante para todos os artistas daqui”, afirma.>
Entre os artistas com quem Zaynara já colaborou está Ivete Sangalo, durante um momento histórico: quando a cantora de axé puxou trio pela primeira vez em São Paulo, neste ano. A artista é taxativa ao admitir: “Ivete é meu sonho de feat”.>
“Fiquei tendo aulas vendo como ela lida e conduz a coisa toda. A gente foi pulando juntas, eu quase desmaiei. Foi muito incrível esse momento”, relembra.>
Zaynara esteve ainda no Carnaval de 2024 ao lado do cantor Xamã. “Fiquei apaixonada pela energia do trio. É muito louco como funciona. Os trios em Salvador têm uma energia diferente do que acontece em outros lugares. Eu já puxei trio aqui no Pará, mas Salvador é a capital mundial do Carnaval, não tem jeito.”>
Zaynara ficou conhecida sobretudo após a viralização de “Quem Manda Em Mim”, música lançada em 2023 que depois ganhou feat com Pabllo Vittar, levando o tecnomelody ao circuito pop entre os jovens. Isso aconteceu também por conta de uma estética visual bem demarcada, presente tanto nos lançamentos quanto em sua aparência. Antes disso, em 2022, lançou seu primeiro álbum, “É Beat Melody”, com nove faixas, incluindo “A Destruidora”.>
Em “Delirar”, o figurino da cantora foi desenvolvido exclusivamente pelo estilista paraense Fabrício Neves, que já assinou produções para artistas como Gloria Groove e Christian Chávez.>
A artista, que já apareceu usando estampas inspiradas no Pará no audiovisual de “Quem Manda Em Mim”, explica que a forma como se veste é uma extensão de sua arte.>
“Gaby Amarantos e Joelma são artistas que eu admiro muito. Sempre vi isso muito claro e bem demarcado. Trouxe isso para minha estética e construção artística. Hoje, eu e dois stylists de São Paulo fazemos esse intercâmbio de pegar coisas daqui da minha região. Gosto de valorizar quem faz moda na Amazônia, a galera que trabalha com materiais específicos. A gente traz muita madeira, tururi, fibra vinda da árvore, um negócio bem doido”, diz, bem-humorada.>
A partir do que cria e recria, Zaynara deixa aflorar o que vem sentindo por meio de conceitos sólidos do tecnomelody e convida o público a delirar até o ápice dos mistérios do Pará.>
“É difícil trabalhar sem estar sentindo, sem ser algo visceral.”>