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Da Redação
Publicado em 14 de janeiro de 2023 às 16:00
Quando um grande artista morre, muita coisa morre com ele. Sua inventividade, personalidade e, às vezes, toda a sua obra. Sim, isso mesmo. Obras de arte são bens transmitidos por herança, como quaisquer outros. E a depender de quem recebe um acervo de um artista - por mais relevante que seja -, ele pode ser vendido ou engavetado sem que o mundo jamais possa usufruir de suas obras. O filho Gabriel, 17 anos, é por lei o único herdeiro do acervo de Gal Costa, recém-falecida. Mas Wilma Petrillo, sua viúva e ex-sócia, é o centro das decisões sobre a memória da cantora. Nem que isso contrarie os desejos de amigos, familiares e da própria mulher. Gal havia comprado um jazigo ao lado da mãe, na zona sul do Rio de Janeiro, mas a viúva resolveu sepultá-la em São Paulo. Agora a questão seguinte é saber: o que Wilma fará com o seu acervo?>
O acervo de alguém com a relevância internacional de Gal Costa é considerado um bem imaterial. É algo incalculável. Não se sabe, para além do extraordinário espólio musical, o que mais a cantora deixou. Geralmente permanecem diversos tipos de obras de arte, cartas, fotografias raras, materiais biográficos que compõem um acervo. Mas diante do episódio do seu sepultamento, o destino da obra de Gal é incerto. As perguntas pululam, sem sinal de resposta. Será respeitado o desejo da cantora com relação ao seu acervo? Qual era esse desejo e como saberemos? O que consta nesse acervo? As vontades post-mortem de Gal Costa serão novamente contrariadas por sua viúva, assim como foi seu funeral?>
Quem herda um legado como o da cantora nem sempre tem consciência da sua importância para o mundo. Ou tem, mas não se importa. E quando se importa, geralmente não reúne condições financeiras suficientes para manter o acervo. Serigrafias, pinturas, esculturas, fotografias precisam de condições especiais para não sofrer danos. Isso porque maresia, umidade e até luz em excesso podem prejudicar um trabalho artístico. A conservação de obras de arte é uma verdadeira arte. E ela é bem cara.>
Quando Paloma Amado resolveu colocar em leilão mais de 500 peças herdadas de seus pais – os célebres escritores Jorge Amado e Zélia Gattai -, pretendia com isso restaurar parte do acervo prejudicado da família. Mas recebeu críticas. No leilão, havia obras dos prestigiados Carybé, Floriano Teixeira, Anita Malfatti e até de Picasso. A escritora se queixava dos julgamentos alheios, lembrando que as obras eram propriedade dos herdeiros. Mas esse era apenas um terço do acervo familiar, e o valor arrecadado serviria a duas boas causas: ajudar a Fundação Casa de Jorge Amado e principalmente, reformar a Casa do Rio Vermelho, que em 2008, estava arruinada.>
Localizada na Rua Alagoinhas, a casa era a residência dos pais de Paloma, repleto de móveis, fotografias e utensílios do casal, além das cinzas de Jorge Amado e Zélia Gattai. Uma morada preciosa, com objetos preciosos, que o tempo estava demolindo. Felizmente, a Prefeitura de Salvador restaurou em 2014 toda a Casa do Rio Vermelho, tornando-a até hoje um famoso memorial aberto à visitação. Mas apesar de ser uma casa com status de museu - algo que parece bem imponente -, seus herdeiros fizeram questão de que ela mantivesse a simplicidade do escritor e sua mulher. “Não era para fazer uma casa de veneração a uma pessoa que está num pedestal. Não! A gente anda pela casa e o papai está andando por aqui”, define Paloma.>
Algo semelhante ocorreu com os herdeiros do maior arquiteto do país, Oscar Niemeyer. As obras eram tantas, que os familiares não conseguiam mais mantê-las, embora em bom estado de conservação. A família mineira recebeu o acervo ainda na década de 1980, e grande parte dele foi destinado a instituições. Responsável pelo Congresso Nacional, a Marquês de Sapucaí e o Conjunto Moderno da Pampulha, por exemplo, o arquiteto de fama internacional era um colecionador de arte por excelência. O acervo inclui trabalhos dele mesmo – especialistas dizem que era um exímio artista plástico - e do pintor Cândido Portinari. A solução para manter a obra foi vendê-la em leilões. O primeiro, realizado por sua única filha, a galerista Anna Maria Niemeyer, ocorreu em 2012. As coleções foram vendidas como um todo – e não separadamente, para que não se perdesse a identidade delas. Outro leilão foi feito ano passado, tempos após a morte de Anna Maria. Mas a identidade dos familiares não foi revelada. Para não sofrer críticas, os novos responsáveis pelo acervo de Niemeyer preferiram se manter no anonimato diante da imprensa.>
Felizmente, boa parte do espólio de Niemeyer encontrou morada em um museu e uma fundação que levam seu nome, mas alguns não dispõem da mesma facilidade. A esposa do dramaturgo e pesquisador de teatro Augusto Boal, falecido em 2009, enfrentou com seu acervo negativas de inúmeras instituições durante anos - assim como a obra do diretor, cenógrafo e crítico de teatro Martim Gonçalves, morto em 1973. Mas ao contrário dos demais casos relatados aqui, a diretora do Instituto Martim Gonçalves, Jussilene Santana, não era uma herdeira familiar. Era uma atriz, jornalista e pesquisadora que se apaixonou pela causa de Martim e pela preservação de documentos sobre teatro. Santana fundou o Instituto em 2017, mas até hoje faltam recursos básicos e uma sede física.>
"O principal desafio para se manter um acervo histórico no Brasil, seja o do Instituto Martim Gonçalves ou outros mais gerais e robustos, é o problema de mentalidade. A sociedade não cobra das instituições oficiais ou não quer se responsabilizar por sua parte”, sintetiza Santana. A solução para essas duas mulheres “herdeiras” teatrais - de Gonçalves e Boal - foi tentar conservar ao máximo o acervo dentro de suas próprias casas. Mas é desesperador pensar que o Brasil pode ter algum documento ou obra teatral dessas danificadas no futuro. Elas recontam uma parte importante da história do país, como lembra Santana.>
O sonho das famílias que vendem seus acervos, em geral, é que sejam adquiridos por instituições nacionais sérias e respeitadas no assunto. Algumas delas são bancos, institutos, fundações e até universidades – cada vez mais sem recursos. Enquanto a Universidade de Nova York tem o privilégio até de adquirir acervos de estrangeiros, a de São Paulo (USP) tem recusado obras do próprio país por falta de recursos. Isso deixa claro o quanto nações europeias, norte-americanas infelizmente investem mais em arte do que o Brasil e a América Latina.>
No Brasil, o risco de perda de legados artísticos é grande. Segundo a pesquisadora Jussilene Santana, um acervo privado tende a desaparecer durante apenas uma geração. “O mecanismo é o seguinte: a própria pessoa reúne uma documentação. Com sua partida, essa massa documental tende a ser transferida para um parente (que nem sempre reconhece a importância de cada material que recebe) ou é mantida de forma voluntária por um aluno dileto. Após a partida desses, a documentação ‘se despersonaliza’, e é aí que surge a tremenda importância das instituições, porque não é uma questão pessoal. Guardar a memória não é um problema familiar. É uma questão nacional!”, brada Santana.>
Outra forma de perda dos acervos é quando instituições do exterior os adquirem, e o país de origem do artista perde o acesso à sua obra para sempre. Infelizmente, isso é algo corriqueiro na América Latina, segundo a viúva de Augusto Boal. A própria Cecília acabou recebendo da Universidade de Nova York uma proposta para adquirir o espólio de Boal. Era obviamente tentador, mas ela negou o convite para que a obra do marido permanecesse no país. O amor à nação e sua identidade falaram mais alto que o dinheiro.>
Mas às vezes acontece o oposto. O acervo de um artista se torna tão somente um meio dos herdeiros ganharem a vida. Os familiares de Oscar Niemeyer, infelizmente, frequentam hoje os tribunais e páginas dos jornais em brigas intermináveis pelo que resta do seu espólio. Durante décadas, viúva, filha, netos e bisnetos foram ricamente sustentados por Niemeyer até sua morte, em 2012. Hoje o acervo e os imóveis foram quase todos vendidos. Sabe-se que sobraram croquis, desenhos de projetos arquitetônicos, que estão agora sendo disputados na justiça.>
Felizmente, há ainda instituições nas quais se pode disfrutar da genialidade de um Niemeyer. O bom espectador paga o ingresso do museu, mas com a consciência de que obras assim não têm preço.>