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Quem foi Xica Manicongo? Livro de Luiz Mott revisita história da primeira transexual do Brasil

Símbolo de resistência trans e homenageada no Carnaval de 2025, Xica Manicongo ganha biografia assinada pelo antropólogo que a apresentou ao Brasil

  • Foto do(a) author(a) Maria Raquel Brito
  • Maria Raquel Brito

Publicado em 5 de junho de 2026 às 05:00

Sacerdotisa quimbanda, aquarela do século XVII, padre Giovanni Antonio Cavazzi
Sacerdotisa quimbanda, aquarela do século XVII, padre Giovanni Antonio Cavazzi Crédito: Divulgação

Quando Luiz Mott escreveu sobre Xica Manicongo pela primeira vez, já sabia que estava falando de alguém com caráter precursor. Escondida em menos de 30 linhas de manuscritos da Inquisição escritos em 1591 estava a saga da primeira mulher transexual do Brasil.

Antropólogo, professor decano, pioneiro ativista pelos direitos civis da comunidade LGBTQIA+ e fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), Mott encontrou os manuscritos no início dos anos 1980 e conheceu, ali, Francisco Manicongo. Os termos para definir a personagem não eram muitos: se referia a ela como “travesti” e “homossexual”, que englobavam a maior parte da sigla LGBTQIA+ na época. Xica, como passou a ser conhecida, seria, então, “o primeiro travesti do Brasil”.

O estudo rigoroso dos documentos ao longo de décadas trouxe a Luiz Mott outras perspectivas, que agora tomam forma através do livro “Xica Manicongo, Primeira Transexual do Brasil”. A obra será apresentada pelo antropólogo amanhã (6), na Feira do Livro, em São Paulo.

Livro é de autoria do antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia por Acervo pessoal/Luiz Mott

Em 240 páginas, a vida de Xica Manicongo é revisitada e contada numa mistura de rigor acadêmico com a irreverência da linguagem pajubá, dialeto de origens africanas adotado pela comunidade LGBTQIA+. Denunciada à Inquisição por comportamento homossexual e acusada de “somítigo” e de usar vestes femininas nas ruas de Salvador, Xica assumiu contornos de lenda, símbolo de luta e resistência para a comunidade trans no Brasil. Hoje, seu nome ecoa no teatro, na moda, nas artes visuais e como proposta de nome de rua. No Carnaval de 2025, foi homenageada no enredo da escola de samba carioca Paraíso do Tuiuti.

Ao CORREIO, Luiz Mott fala sobre os desafios de pesquisar a vida de Xica Manicongo a partir de um material tão escasso quanto os documentos da Inquisição, as escolhas linguísticas do livro e o que essa personagem simboliza hoje.

Confira a entrevista:

Pesquisando a vida de Xica Manicongo, o senhor foi até Lisboa, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, quando falou sobre ela pela primeira vez ainda nos anos 80. Agora, depois de apresentar o Brasil a Xica, o senhor guia os leitores pela vida dela, trazendo o contexto do reino do Congo, da travessia do Atlântico Sul em um navio negreiro e da Salvador da época. Como foi esse processo?

A Xica Manicongo ficou conhecida com esse nome a partir de 2010. Foi o movimento de travestis do Rio de Janeiro e a líder, uma travesti que se chamava Majorie Marchi, que era uma pessoa intelectualizada, muito simpática, havia lido meus artigos e sabia tudo sobre o Francisco Manicongo – que era o nome que aparece na documentação – teve a ideia de batizá-la como Xica.

É muito comum entre as travestis uma mais velha ser a madrinha e dar um nome. Então Majorie seguiu esse costume e Francisco passou a ser Xica. Nenhuma vez nos documentos aparece Xica ou Francisca, aparece Francisco de Congo ou Francisco Manicongo. Duas vezes apenas.

Eu fiquei feliz, porque como sou gay militante, achei que era uma felicidade ter encontrado a primeira travesti do Brasil. Na época eu achava que era travesti, mas no fim da pesquisa do livro concluí que ela foi a primeira transexual. Ela era muito mais transexual do que travesti.

Por que diz que ela era mais transexual que travesti?

Ainda no começo dos anos 80, época em que eu publiquei a primeira notícia, se dizia “o travesti”, as travestis se consideravam homossexuais ou gays. Então eu falei: o primeiro travesti da história do Brasil é Francisco Manicongo, e falei que era um “homossexual corajoso”.

Com o tempo, as travestis deixaram de se considerar homossexuais. Elas são uma identidade de gênero. E eu achava que Xica era travesti porque se vestia com uma túnica de sacerdotisa quimbanda que os missionários colonizadores chamaram de “uma quadrilha de feiticeiros”. Eu descobri que na verdade muitas das quimbandas – que hoje, no Brasil, significa magia negra, o contrário da umbanda, que é uma raiz do Candomblé – eram tratadas e viviam no gênero feminino desde criança. Diferentemente das travestis, porque não são todas travestis que se consideram mulheres. De modo que, pela história de vida das outras quimbandas do Congo e Angola que eu achei, tudo me fez chegar à conclusão que Xica Manicongo era transexual. Ou seja, provavelmente, desde criança, ela viveu no gênero feminino.

Embora no final da vida tenha uma surpresa, porque ela disse que já não usava mais a roupa de mulher, mas sim a roupa de homem que o seu senhor dava. Ela era escravizada de um sapateiro que morava em Salvador, na Ladeira da Misericórdia. Então daí eu concluo que ela era uma transexual fluída ou talvez não binária, que usava tanto roupa de homem quanto roupa de mulher.

Na primeira vez que o senhor falou sobre Xica, se referiu a ela como homossexual e travesti, pelo vocabulário da época. No livro, alterna entre Francisco e Xica por conta da fluidez que a personagem teria, e a “rebatiza” de “primeiro travesti do Brasil” para “primeira transexual do Novo Mundo”. Como a identidade de Xica foi se mostrando com o tempo para o senhor? De que formas o tempo e a pesquisa estreitaram essa relação entre vocês?

Eu tirei leite de pedra, como se diz. Só tem 29 linhas manuscritas sobre Francisco Manicongo. E vendo, pesquisando documentos e publicações sobre como era no Congo e na Angola, eu cheguei à conclusão de que ela era, de fato, da família real. Manicongo significa “rei do Congo”, quer dizer, ela era da família do rei do Congo.

Não fala que era uma princesa, mas como esses reis praticavam poligamia, tinham muitas mulheres e muitos filhos, ela podia ser uma sobrinha, uma neta. Enfim, alguém que fazia parte dessa genealogia real, porque não se tem esse detalhe. Então, não se sabe qual era o nome dela lá, se já veio consagrada como quimbanda, como sacerdotisa desde lá, se ela já era escravizada lá, porque muitos dos dos escravos que vieram para o Brasil tinham sido capturados por povos inimigos e já viviam como escravos. Um tipo de escravidão diferente, não tão cruel quanto a escravidão nas Américas, no Brasil, mas não deixava de ser cativo. Eles não tinham liberdade como os demais membros da tribo.

O que se sabe é que no Brasil ela usou a roupa de uma quimbanda. Tem uma gravura da época de mil seiscentos e tanto. Ela é de 1591 e tem gravura do século seguinte, o que é uma raridade – quer dizer, uma gravura retratando um sodomita, como ele foi chamado. “Sodomita paciente”, ou seja, um gay passivo que fazia o papel de mulher. Na época, a visão de quem denunciou é que os gays tinham macho e fêmea, e ela fazia o papel da fêmea, segundo o denunciante.

Ao longo do livro, o senhor adota o vocabulário pajubá, com palavras como “mona”, “colega de babado” e “boneca”. O que o motivou a adotar essa linguagem?

Desde os anos 80 eu registrei em algum artigo meu alguns vocábulos do pajubá. Inclusive, no fim dos anos 90, com a crise da AIDS que atingiu muito a população LGBT, sobretudo as travestis profissionais do sexo, o Grupo Gay da Bahia produziu uma cartilha com o título “Traveca esperta só transa com camisinha na neca”, publicada com apoio do Ministério da Saúde. Eu usei um termo bem característico do pajubá, porque o pênis é chamado de neca.

Portanto, eu já tinha familiaridade com o pajubá e achei que, provavelmente, se a Xica fosse contemporânea, ela usaria o pajubá. É uma língua das bichas e está na moda o pajubá. Cada vez mais tem teses de mestrado, de doutorado e livros que tratam desse assunto, então eu achei que era uma forma de atualizar a linguagem e torná-la mais ligada ao grupo das travestis e transexuais.

Houve alguma preocupação em colocar um linguajar que pode ser visto como mais “informal” pela academia?

Eu sou um intelectual à moda antiga na minha redação. Tenho 80 anos e fiz clássico, estudei latim, grego, falo várias línguas. Então, eu sempre gostei na minha escritura de usar termos latinos, expressões em francês, etc. E eu, na verdade, embora tenha um estilo erudito, também convivo com gente do povo. As reuniões do Grupo Gay da Bahia, durante esses 46 anos, eram frequentadas por gays, travestis e lésbicas, sobretudo humildes, pessoas pobres.

Eu sou paulistano, mas me adaptei à Bahia. Eu sou cidadão de Salvador e do Estado da Bahia. Então eu aprendi os termos e as expressões locais e achei que, como esse livro vai atingir intelectuais, acadêmicos, historiadores, antropólogos, mas também a comunidade LGBT, misturar termos do cotidiano daria maior receptividade. De modo que o livro é híbrido, tudo junto e misturado. Ou seja, tem os argumentos, as hipóteses são científicas, antropológicas e de um cientista social, tem linguagem científica, mas também linguagem popular.

A Paraíso do Tuiuti levou em 2025 o enredo “Quem tem medo de Xica Manicongo?” para a Sapucaí. Como o senhor, que estuda a opressão homofóbica e transfóbica colonial há décadas, se sentiu ao ver uma figura que foi silenciada pela Inquisição ser celebrada em um dos maiores palcos da cultura popular do mundo?

Tem uma grande alegria, porque já tem outros personagens que eu descobri e que foram temas de escola de samba. A Xica Manicongo, a Esperança Garcia, uma escrava do século XVIII que foi a primeira advogada do Brasil, e a Rosa Egipcíaca, escravizada que virou santa, mas que foi condenada pela Inquisição. Ser professor e ver suas aulas extravasarem a sala de aula, serem cantadas pelo povo e mostradas na televisão é uma coisa importantíssima.

É uma alegria enorme essa popularidade, embora a vida da Xica tenha sido carnavalizada demais. No meu livro eu mostro vários erros, várias apropriações. Ela já virou um mito, está até, segundo consta, baixando como uma espécie de orixá encantado num terreiro de Catimbó no Rio de Janeiro. Quer dizer, já tem uma entidade que se chama Xica Manicongo. Então, a Xica ainda vai ser muito mais conhecida. E uma das propostas é que a Ladeira da Misericórdia, que está lá no Centro Histórico de Salvador, no Pelourinho e existe desde o século XVI, tenha acrescido ao seu nome “Ladeira da Misericórdia Xica Manicongo”, porque ela morou lá.

Como o senhor vê esse movimento de transformação de Xica em mito? O que acha necessário desmistificar e o que deve ser celebrado nesse processo dela se tornar mais conhecida?

Eu sou um historiador e antropólogo materialista. Eu não tenho religião. Fundei na década de 1980 o Grupo Ateísta Latino-Americano, quer dizer, eu defendo o ateísmo, sou ateu assumido e vejo todas as religiões como invenções culturais. A antropologia e o marxismo me levaram a essa conclusão de que a religião são invenções, cada povo tem a sua. Tem um filósofo grego antigo que dizia: “se os cachorros tivessem um deus, seria um cachorro”. Ou seja, o homem não foi criado à imagem e semelhança de Deus, mas os deuses foram criados à imagem e semelhança dos homens de cada cultura.

Então, ao mesmo tempo que critico as religiões porque elas alienam, elas têm aspectos positivos. A religião católica desenvolveu a alfabetização, as bibliotecas. O Candomblé deu consistência aos oprimidos, escravos, informou e manteve as tradições de várias culturas africanas. Tem um lado positivo, mas um lado negativo muito forte. Então, eu vejo essa apropriação da religião a Xica Manicongo como um direito que as religiões têm, tanto de carnavalizar quanto de mistificar.

Mas eu mantenho a minha opinião e a versão original me baseando nos documentos, porque os manuscritos, os poucos que existem, é que nos dão a informação correta. E através da história e da antropologia eu reconstruo algumas possibilidades, algumas hipóteses, como a respeito do nome original. Fui lá e vi que no Congo e em Angola, onde ela viveu, quais eram os nomes que davam para os homens, para as mulheres, como era a questão da circuncisão, se ela foi circuncidada quando era menino, recém-nascido, etc. Quer dizer, eu não afirmo categoricamente, mas são pistas, hipóteses, que o historiador e o cientista social podem lançar mão como propostas, não como resposta científica definitiva.

Existem pistas documentais sobre o destino final de Xica?

Não. Como a maioria dos personagens da Inquisição que eu estudei, alguns são degredados para as fronteiras de Portugal, para a África, para a Índia, alguns para o Brasil. Outros eram queimados. Os degredados chegavam e eram apresentados ao governador. Havia um livro onde se registrava o nome dos degredados, esses livros desapareceram e essas pessoas desapareceram na história. A última notícia é dada quando eles se apresentam no lugar do degredo.

Com a Xica Manicongo é a mesma coisa. Embora ela tenha sido denunciada como quimbanda uma feiticeira e sodomita que transava com outros negros, o visitador do Santo Ofício que estava aqui em Salvador em 1591 até 1593 não se interessou pelo caso. Era uma denúncia muito superficial, muito incompleta. Porque o travestismo não era considerado um crime passível de ser preso e queimado. Para ser queimado, o sodomita tinha que ser escandaloso e era preciso ter provas, pessoas que que viram ou cúmplices de ao menos dois atos completos de sodomia. No caso do Francisco Manicongo, não teve nem prosseguimento a denúncia. Ele não foi preso e não aconteceu nada.

Eu digo no livro que ela foi esperta em ter abandonado essa roupa ritual, essa túnica aberta na frente, e passado a usar vestido de homem. Na época, falava vestido como a roupa, o traje que lhe dava o seu senhor. É assim que está no documento. Isso fez com que ela deixasse de ser denunciada, e não se sabe se ela voltou a usar essas roupas ou se ela foi para outra capitania. Não se tem notícia. Infelizmente, ela se perdeu na história.

O senhor acredita que os arquivos ainda escondem muitas outras “Xicas” aguardando pesquisadores com o mesmo olhar sensível do senhor?

Primeiro, tem que desconstruir o mito de que o Ruy Barbosa teria queimado toda a documentação sobre a escravidão no Brasil. Não. Ele queimou os registros fiscais, sobretudo da entrada de escravos no porto, para evitar que os senhores que perderam o seu capital, com dezenas ou uma centena de escravos, exigissem o pagamento do governo.

E logo em seguida já era república e tinha acabado o império em 1889. Então, não queimou tudo não, felizmente. Ainda tem muita documentação. A documentação sobre a Xica Manicongo e sobretudo a Rosa Egipcíaca e a Esperança Garcia, três negras durante o período escravista, demonstra que ainda tem muita coisa a ser descoberta. Principalmente nos manuscritos da Inquisição, que são riquíssimos de informação, verdadeiras cartolas de mágico de onde podemos ainda tirar muita novidade.