Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Doris Miranda
Publicado em 4 de maio de 2026 às 06:00
Fé, conflito religioso e realismo fantástico se entrelaçam em O Menino do Fim do Mundo (Editora Labrador | R$ 80 e R$ 49,90 o ebook), romance de ficção que marca a estreia literária do ator baiano Urias Lima. Uma narrativa que convida o leitor a atravessar fronteiras entre espiritualidade, realidade e imaginação. O livro representa uma virada significativa na trajetória de um artista consagrado nos palcos. >
Natural de Ubaitaba, Urias construiu uma carreira sólida ao longo de mais de 35 anos no teatro baiano, tornando-se um nome reconhecido por sua intensidade cênica, pesquisa estética e compromisso com narrativas que dialogam com questões sociais e identitárias. >
Ao longo de sua caminhada, trabalhou com importantes diretores, participou de diversos espetáculos e foi amplamente premiado, com destaque para o solo Um Caso de Língua, que lhe garantiu o Prêmio Braskem de Teatro de Melhor Ator. Também integrou montagens como Amor Barato e Comédia do Fim, além de experiências no cinema e na televisão. Em 2017, ao se mudar para Portugal, o artista encerrou um ciclo nos palcos e passou a amadurecer o desejo de escrever.>
“O livro representa para mim um novo passo, um pisar no escuro e ao mesmo tempo uma experiência inédita. O teatro é muito efêmero, enquanto o livro é algo físico, que fica. É como deixar uma marca mais permanente”, explica Urias Lima. >
Leitor voraz, o autor assume-se como um “escritor tardio”, mas reconhece que a maturidade foi fundamental para a construção da obra: “Sou um homem de 66 anos, com muita vivência. Nunca é tarde para escrever”.>
Entre o real e o mágico >
Em O Menino do Fim do Mundo, Urias mergulha no realismo fantástico para narrar a história de Serafim, filho de uma família evangélica que nasce no exato momento em que ocorre uma festa para Iansã em um terreiro de candomblé vizinho à sua casa. A partir desse acontecimento, fenômenos inexplicáveis passam a marcar a vida da família e da comunidade ao redor, instaurando um clima de tensão, mistério e conflito. “Esse encontro é casual, mas revela mundos antípodas. Ainda hoje somos testemunhas de intolerância religiosa. Isso me instigou a abrir o livro com esse nascimento cercado de significados”, explica o autor.>
Mais do que explorar o choque entre religiões, o romance amplia seu olhar para questões profundas da sociedade brasileira. A obra aborda temas como intolerância religiosa, desigualdade social, violência de gênero e busca por redenção. A personagem Naya, mãe de Serafim, ganha destaque como símbolo de resistência e transformação: uma mulher que, vivendo em um casamento abusivo, encontra caminhos para reescrever sua própria história. “Vivemos uma realidade de muita violência contra a mulher. Essa personagem representa essa mulher que enfrenta, que reage, que busca sua independência”, pontua Urias.>
A atmosfera do livro é construída a partir de elementos simbólicos e extraordinários, característicos do realismo fantástico, linguagem que o autor aproxima de referências como Gabriel García Márquez. Flores que brotam sobre a casa, chuvas de peixes, personagens que caminham sobre as águas e a presença constante de beija-flores são alguns dos elementos que atravessam a narrativa. “O imaginário e o real caminham juntos. Esses fenômenos ajudam a revelar as tensões e as crenças dos personagens”, explica.>