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Doris Miranda
Publicado em 13 de abril de 2026 às 06:00
As mulheres estarão no seio de algumas das conversas mais potentes da Bienal do Livro Bahia 2026, que acontece a partir desta quarta-feira (15), no Centro de Convenções Salvador. Em uma programação marcada pela pluralidade de vozes e pela força da literatura produzida por mulheres, a Bienal reunirá até o dia 21 de abril autoras baianas e nacionais que têm renovado a cena literária brasileira, colocando em voga temas como ancestralidade, racismo, feminismo, sexualidade, maternidade, memória, afeto e pertencimento. >
Em um momento em que as mulheres dominam listas de mais vendidos, premiações e comunidades de leitura no ambiente digital, a Bienal reforça a centralidade dessas vozes. Da prosa intimista ao realismo fantástico, da poesia falada às narrativas young adult, as vozes desta edição representam diferentes gerações e estilos, mas têm em comum a capacidade de transformar experiências individuais em relatos universais.>
Entre os nomes centrais da agenda está a cearense Socorro Acioli, reconhecida como uma das escritoras mais originais da ficção brasileira de hoje. Com uma trajetória construída a partir do diálogo entre religiosidade popular, realismo fantástico e tradição nordestina, Acioli participa, no sábado (18), às 17h, do painel Rádio Companhia Ao Vivo Apresenta: Especial 40 anos Companhia das Letras, com mediação da editora Stéphanie Roque.>
Autora de mais de vinte livros, entre eles A Cabeça do Santo e Ela Tem Olhos de Céu, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura Infantil, Socorro Acioli mistura o extraordinário ao cotidiano e constrói uma espécie de realismo mágico com sotaque nordestino. Foi sob a orientação do escritor colombiano Gabriel García Márquez que Socorro escreveu A Cabeça do Santo, romance publicado em 2014 e traduzido para uma gama de idiomas. >
Ao lado de Acioli, outros nomes de projeção nacional também aportam na Bienal. No domingo (19), às 14h, no Café Literário, a mesa Evocar Memórias, Recriar Mundos: Do Que é Feita a Literatura reunirá Aline Bei e Andréa del Fuego, que vêm desafiando as possibilidades da ficção contemporânea. A atividade terá mediação da jornalista e educadora Edma de Góis.>
Aline Bei está entre os mais célebres nomes da geração emergente de romancistas brasileiras. E não é de se espantar que as obras da autora paulista encantem tanto outras mulheres, com suas personagens majoritariamente femininas e uma escrita bordada pela delicadeza, pela fragmentação e por uma elaboração poética de lembranças.>
Aline alcançou expressiva repercussão com O Peso do Pássaro Morto, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, e Pequena Coreografia do Adeus, finalista do Jabuti e já adaptado para o teatro. “Participei da Bienal passada e foi uma experiência muito marcante. É um público muito interessado, muito carinhoso, muito presente de escuta. Foi super especial poder abraçar e estar com as pessoas. A Bienal da Bahia é sempre muito especial e eu estou super feliz de voltar”, afirma.>
Também integrante da mesa, Andréa del Fuego é autora de Os Malaquias, vencedor do Prêmio José Saramago, e de romances que transitam entre o fantástico, a filosofia e as relações familiares. Seu livro mais recente, A Pediatra, protagonizado por uma médica manipuladora que não gosta de crianças, reafirma um estilo pautado pela inventividade e pela reflexão sobre os papéis historicamente atribuídos às mulheres.>
“Fazer uma mesa com Aline Bei na Bahia me parece unir duas maravilhas: a poética e a alma do país”, resume Del Fuego. A autora reitera que sua escrita nasce da sua avidez pelas ambiguidades humanas. “Me interessa investigar as contradições nas relações humanas, por exemplo: como é possível amar odiar alguém, ou odiar estar amando?”, indaga.>
No dia 21, às 16h, no Café Literário, a mesa A Trama e o Tempo: Horizontes da Literatura Brasileira contará com a presença de Luciany Aparecida, baiana do Vale do Jiquiriçá. Compõem a mesa a escritora Bianca Santana e Denise Carrascosa, professora e mediadora da conversa.>
Poética e alma do país>
Autora de Mata Doce, finalista do Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2024, Luciany Aparecida escreve histórias que perpassam memória, violência e território, em uma narrativa sofisticada e profundamente ligada às experiências femininas. A presença dela na Bienal ganha mais importância no momento em que Mata Doce passa a circular intensamente entre leitores baianos. >
É que o romance foi escolhido como obra do vestibular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. A autora acentua a influência decisiva da Bahia em sua escrita. “Ser baiana é a melhor parte da minha biografia. Quando escrevo, me agrada deixar que a água-memória desse território mate a sede das histórias que quero contar. Pensar o mundo a partir daqui é também compreender as estruturas que constituíram a formação das Américas”, diz.>
Outras escritoras da Bahia também estarão presentes. Na quarta (15), às 16h, a professora e pesquisadora Bárbara Carine participa da mesa Festas, Feiras e Festivais Literários – Programa Bahia Literária, ao lado do jornalista e escritor Ricardo Ishmael e mediado por Sandro Magalhães, diretor-geral da Fundação Pedro Calmon. >
Também integra esse conjunto de vozes Carla Akotirene, que participa, no dia 21, às 13h, da mesa Afeto e Resiliência nas Relações. Doutora em Estudos Feministas pela Ufba e autora de livros fundamentais para o pensamento contemporâneo, como O que é interseccionalidade?, Carla é uma das vozes mais respeitadas do feminismo negro brasileiro.>
Multiartista, poeta e idealizadora do Slam das Minas – Bahia, NegaFyah participa, também no dia 21, na Arena Farol, às 11h, do Sarau Corpos que Dizem. Na mesma atividade estará Ryane Leão, poeta best-seller que reúne mais de 600 mil leitores nas redes sociais, na página Onde Jazz Meu Coração. Autora de Tudo Nela Brilha e Queima e Jamais Peço Desculpas Por Me Derramar, a cuiabana se tornou popular na internet. >
Entre essas criadoras em ascensão está Regina Luz, escritora soteropolitana que assina cinco livros – destes, três para o público infantil. Mesmo que para leitores mirins, Regina trata de temas como ancestralidade, protagonismo negro e memória. “Acredito na necessidade de deixar bem claras as nossas dores logo na infância, porque é um período no qual se forma o adulto consciente de sua potência”, enfatiza. Regina estará, na quarta (15), às 13h30, no Espaço Infantil Colgate – Portais da Palavra. >
A Bienal promove ainda, no espaço Café Literário, dois encontros de literatura contemporânea de autoria feminina, ambos com curadoria da escritora e roteirista Josélia Aguiar. No sábado (18), ao meio-dia, Meninas, Mulheres aproxima Verenilde Santos Pereira, da Amazônia, e Julia Dantas, de Porto Alegre, em uma conversa sobre histórias de meninas e mulheres em situações de risco. Mais tarde, às 18h, A Casa e a Rua une a gaúcha Eliane Marques e a mineira Nara Vidal, radicada na Inglaterra, que transitam entre prosa e poesia e investigam, em seus livros, as tensões entre a intimidade e o mundo.>