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Ronaldo Jacobina
Publicado em 16 de maio de 2026 às 05:00
Há restaurantes que impressionam na primeira visita. Outros sobrevivem pela novidade. O Boia parece pertencer a uma categoria mais difícil: a dos lugares que conseguem permanecer desejáveis mesmo quando já conhecemos seus caminhos, sabores e intenções. Parece ter encontrado uma fórmula rara: maturidade sem perder frescor. >
Estive lá no último final de semana — pela terceira, talvez quarta vez — e saí contente por constatar como praticamente tudo segue no lugar certo. A cozinha continua precisa (mesmo com a casa cheia), o serviço permanece afinado, e o chef Kaywá Hilton, tal qual um maestro, segue regendo sua orquestra com um olho nos pratos e outro no salão. Tudo isso se reflete na comida que mantém a regularidade, o que talvez seja hoje, um dos maiores luxos da gastronomia contemporânea.>
O curioso é que o cardápio quase não mudou desde a primeira vez em que estive ali. E isso, longe de soar acomodado, revela segurança. O Boia parece não ter interesse em entrar na corrida desenfreada pela novidade vazia. Prefere apostar na construção de identidade, outro quesito cada vez mais raro.>
E essa identidade está no Ceviche de Xaréu, peixe curado e marinado no leite de tigre da casa, ligeiramente apimentado, por onde comecei minha “nova” experiência. Fresco, equilibrado e com acidez na medida certa, sem exageros que anestesiam o paladar. Na sequência, o já clássico Jamon de Atum e Melão confirmou por que permanece no cardápio desde sempre: um prato elegante, delicado e muito inteligente no contraste entre a potência do atum curado e a doçura fresca da fruta.>
Mas talvez a entrada mais divertida da noite tenha sido o Bao de Siri — pãozinho de dendê na vaporeira, siri boia crocante e geleia de pimenta. Há textura, gordura, doçura e picância convivendo de maneira sedutora. É aquele tipo de prato que traduz bem a proposta do Boia: técnica contemporânea sem perder vínculo afetivo e sabor de verdade.>
Nos principais, o Peixe do Dia servido com Tucupi da casa mostrou uma cozinha madura, segura e cada vez mais confortável em trabalhar ingredientes brasileiros sem cair em caricaturas regionais. Já o Poivre de Atum Maturado veio impecável, com ponto preciso e acompanhado por uma deliciosa porção de batatas fritas — dessas que parecem simples até você perceber o cuidado na execução.>
Recusei o vinho desta vez, embora a casa tenha uma carta de primeiríssima, e segui à risca o mergulho no autoral, optando pelos drinques. Teve o refrescante Prainha, a base de cachaça, gin e especiarias, e caju, e o já conhecido Coentro Sour, talvez um dos coquetéis mais interessantes da cidade, além do Jelly Boia, mais leve e fácil, funcionando bem para acompanhar a atmosfera descontraída daquela tarde.>
As sobremesas encerraram a experiência em alto nível. O Caju e Laranjeira, com esfera de mousse de doce de caju, sorbet de caju, crumble de castanhas e cajuína, creio que o que traduzem a Bahia contemporânea que Kaywa construiu no restaurante: sofisticada, autoral e profundamente conectada ao território. Já a Mousse de Chocolate 70%, com creme inglês de baunilha e tuile de caramelo com nibs de cacau, aposta menos na surpresa e mais no conforto — e acerta.>
Recentemente, a casa lançou o “Boia da Semana”, menu servido no almoço de terça a sexta-feira, exceto feriados, com preço fixo. A novidade surge como um movimento inteligente: aproximar mais gente da cozinha do Boia sem diluir a experiência. Tudo com a mesma assinatura da casa, o mesmo cuidado técnico e os mesmos sabores que aparecem ali traduzidos num bom custo-benefício. >
Seja no menu de preço fixo seja no cardápio oficial, o chef franco-brasileiro segue apresentando uma cozinha que conversa com técnicas francesas, ingredientes baianos, pescados locais e referências multiculturais sem soar artificial ou excessivamente conceitual. Tudo parece fazer sentido no prato. E é com essa receita que o Boia continua sendo um restaurante onde tudo parece fazer sentido. Nada soa excessivo, forçado ou cenográfico. Existe verdade na cozinha, coerência estética e, principalmente, uma sensação cada vez mais rara: a de que o restaurante sabe exatamente o que é. E talvez seja justamente por isso que a vontade de voltar permaneça intacta.>
Serviço:>
Boia Restaurante - @boiarestaurante >
Rua José Avena, 01 – Horto Florestal, Salvador/BA >
De terça a sábado, das 12h às 16h e 18h30 às 23h; domingo, 12h às 16h >
Reservas: (71) 99694-2630 >