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BTS e a era Arirang: como o grupo transforma cinema, literatura e cultura em linguagem visual

Do diálogo com Oldboy à valorização da cultura coreana, grupo amplia o uso de referências culturais para criar MVs mais conceituais

  • Foto do(a) author(a) Márcia Luz
  • Foto do(a) author(a) Gabriela Cruz
  • Márcia Luz

  • Gabriela Cruz

Publicado em 26 de abril de 2026 às 09:48

BTS no MV de 2.0
BTS no MV de 2.0 Crédito: Divulgação

Não é de hoje que o BTS utiliza a cultura como base criativa para seus videoclipes. Desde fases anteriores, o grupo sul-coreano já incorporava referências ao cinema, à música e à literatura para construir narrativas visuais densas, que ultrapassam a função promocional típica dos MVs. Produções como “Blood Sweat & Tears” e “Spring Day” já demonstravam essa inclinação ao dialogar com obras artísticas e linguagens cinematográficas, criando camadas de interpretação que incentivam análise e releitura.

Com o álbum Arirang, lançado em 2026, essa abordagem não apenas se mantém como se intensifica. O projeto marca um momento em que o BTS consolida sua identidade como um coletivo artístico que trabalha com múltiplas linguagens ao mesmo tempo, integrando tradição cultural coreana, estética cinematográfica contemporânea e pensamento artístico mais amplo.

BTS por divulgação

O diálogo com o cinema se torna mais explícito nessa fase. O videoclipe de “2.0” incorpora referências diretas ao filme Oldboy, dirigido por Park Chan-wook, ao recriar a icônica cena do corredor com uma coreografia sincronizada. A escolha ilustra como o grupo não apenas cita obras, mas transforma elementos cinematográficos em linguagem própria, ressignificando símbolos e estruturas narrativas.

A proposta estética de Arirang, no entanto, não se limita a esse diálogo direto. Outros videoclipes do projeto ampliam essa construção visual e reforçam a ideia de um universo conceitual mais coeso.

Em “Hooligan”, o BTS adota uma atmosfera distópica, marcada por cenários urbanos degradados, iluminação contrastada e uma sensação constante de instabilidade. O clipe se afasta de narrativas lineares e aposta em fragmentos visuais que sugerem conflito e ruptura, aproximando-se de referências do cinema de ficção científica e de thrillers psicológicos. A construção estética enfatiza o coletivo em tensão, com enquadramentos que comprimem os corpos no espaço e reforçam a ideia de pressão externa.

Já em “Swim”, a abordagem é mais introspectiva. O elemento da água funciona como eixo simbólico e visual, criando uma sensação de suspensão e ambiguidade. Em vez de ação, o clipe privilegia a contemplação, com movimentos mais lentos e uma construção visual que reforça a ideia de imersão emocional. A água aparece como metáfora aberta, que pode sugerir tanto refúgio quanto afogamento, deslocando o foco para conflitos internos.

Esses dois exemplos evidenciam como Arirang opera em registros distintos, mas complementares. Enquanto “Hooligan” externaliza tensão em um cenário quase distópico, “Swim” internaliza essas mesmas questões por meio de uma linguagem mais sensorial. Em ambos os casos, o BTS se afasta da lógica tradicional do videoclipe narrativo e se aproxima de uma construção mais próxima ao cinema contemporâneo, em que atmosfera, ritmo e simbolismo têm papel central.

Essa prática revela um padrão mais amplo. O BTS utiliza o cinema como ferramenta para construir atmosferas, explorar emoções e comunicar ideias complexas sem depender de narrativas lineares. Os videoclipes passam a operar como obras abertas, nas quais o espectador é convidado a interpretar imagens, metáforas e referências.

Mesmo com uma proposta mais conceitual, o grupo mantém forte desempenho comercial. Na semana de estreia, Arirang somou cerca de 641 mil vendas e reproduções combinadas, alcançando o topo da Billboard 200. O resultado reforça a capacidade do BTS de equilibrar ambição artística e alcance global.

Além do cinema, a literatura também já desempenhou um papel importante na construção criativa do BTS ao longo da carreira. Obras como Demian, de Hermann Hesse, influenciaram diretamente projetos anteriores, especialmente na abordagem de temas como autodescoberta e dualidade.

A influência de Carl Jung também já foi incorporada em fases passadas, com o uso de conceitos como arquétipos, sombra e identidade. De forma semelhante, ideias associadas a Franz Kafka, como alienação e estruturas opressivas, aparecem em leituras críticas sobre trabalhos anteriores do grupo.

Essas referências ajudam a entender como o BTS construiu, ao longo dos anos, uma linguagem artística que dialoga com diferentes campos da cultura, ainda que nem todas essas influências estejam explicitamente presentes em seus projetos mais recentes.

O título Arirang conecta esse conjunto à tradição coreana. A canção folclórica que dá nome ao álbum é um símbolo de identidade e memória coletiva, frequentemente associada ao sentimento de saudade e resistência histórica. Ao incorporar essa referência em um projeto com estética global, o BTS estabelece um diálogo entre raízes culturais e linguagem contemporânea.

Essa combinação permite ao grupo transitar entre o local e o internacional, mantendo sua identidade enquanto se comunica com diferentes públicos. Os MVs refletem essa dualidade ao unir elementos tradicionais a cenários modernos e a uma estética audiovisual globalizada.

Na era Arirang, o BTS se posiciona como um agente artístico que ultrapassa os limites do pop convencional. Seus videoclipes deixam de ser apenas produtos promocionais e passam a funcionar como obras interdisciplinares, nas quais cinema, literatura e música se integram de forma orgânica.

Esse movimento evidencia uma característica central do grupo: a capacidade de transformar referências culturais em linguagem própria. Ao fazer isso, o BTS amplia as possibilidades do K pop e se consolida como um dos projetos artísticos mais complexos e influentes da música contemporânea.