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Roberto Midlej
Publicado em 11 de outubro de 2023 às 11:18
Soneto de Fidelidade, Soneto do Amor Total, Poema dos Olhos da Amada... Certamente, o leitor conhece ao menos um desses clássicos de Vinicius de Moraes (1913-1980), um dos mais românticos e galanteadores poetas da história da literatura brasileira. Seguramente, conhece também pelo menos um poema infantil dele, como A Casa, O Pato ou O Relógio, todos esses transformados em canções. >
Mas o que provavelmente você não conhece é o lado grotesco e mórbido de Vinicius. E é esta faceta do Poetinha que está em 50 Poemas Macabros - Vinicius de Moraes (Companhia das Letras/ R$ 85/ 168 págs.), coletânea organizada por Daniel Gil, com doutorado em letras e especialista na obra do poeta carioca.>
Daniel começou a se interessar por esse lado mórbido de Vinicius desde a adolescência, quando, estudante de uma escola técnica, aprofundou-se na obra do autor na biblioteca da instituição. "Desde adolescente, os poemas sinistros me chamavam a atenção. Eram uma estética estranha para mim, mas que eu gostava muito", diz o doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.>
Baudelaire>
Ainda na graduação, durante uma aula sobre o poeta francês Charles Baudelaire (1821-1967), Daniel leu o poema Carniça (Então, querida, dize à carne que se arruína/ Ao verme que te beija o rosto/ Que eu preservei a forma e a substância divina/ De meu amor já decomposto). "Aquilo me puxou a memória e pensei: essa estética não me é estranha. Lembrei-me de Balada da Moça do Miramar e Balada do Enterrado Vivo", diz Daniel, referindo-se a dois poemas de Vinicius que estão na coletânea que ele organiza.>
Segundo Daniel, a morbidez esteve presente em vários momentos da obra de Vinicius: "O caráter do grotesco muda, mas o elemento está sempre presente". Temas sobrenaturais também eram de interesse do poeta, tanto que ele próprio já relatou uma vez ter participado daquela "brincadeira do copo", em que supostamente se conversa com um espírito.>
Vinicius jurava que numa dessas experiências, o copo saiu voando e se quebrou. Toquinho, parceiro histórico do poeta, confirma a história. "Mas não era apenas o sobrenatural que interessava a ele. O lado incômodo da morte também lhe interessava", ressalta Daniel.>
Para organizar o livro, o pesquisador - que realizou mestrado e doutorado sobre Vinicius - repassou a obra já publicada do poeta e também visitou o acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, onde encontrou sete textos inéditos de Vinicius relacionados à morte ou ao grotesco. "Pensei comigo: a vida é uma coisa delirante/ enquanto uns ouvem jazz, outros morrem de câncer", diz o poema O Sórdido, um dos inéditos.>
Daniel assegura que esses inéditos estão no mesmo patamar das obras já publicadas de Vinicius: "Se não estivessem, nem publicaria. Tem algumas coisas dele que você encontra e parece que não foram terminadas, o que não é o caso destes inéditos que estão no livro. Esses poemas estavam com título e datados. Você percebe que estavam prontos".>
Escatologia>
A escatologia é outro elemento presente em diversos textos de 50 Poemas Macabros. Especialmente a urina é citada em muitos deles, como observa Daniel Gil no posfácio, em que aponta cinco textos do livro em que o poeta usa palavras como "mija", "urinavam" e "urina", além de referências a vômito e escarro.>
E o organizador ainda menciona outros poemas populares de Vinicius que não estão na coletânea, mas também possuem um caráter escatológico: "Em Soneto de Intimidade, diz: 'Mijamos em comum numa festa de espuma'. Em Pátria Minha, 'urina mar'. E no infantil A casa, diz 'ninguém podia fazer pipi'".>
Para Daniel, esse caráter "macabro" da obra de Vinicius aproxima o poeta carioca de dois colegas: Cruz e Sousa (1861-1898) e Augusto dos Anjos (1884-1914). No posfácio, o organizador chega a apontar o Poetinha como "principal herdeiro no século XX da poesia grotesca levada a efeito por Cruz e Sousa e Augusto dos Anjos".>
"Há até alguns recursos que Vinicius usa, que ele 'bebeu' de Augusto dos Anjos. Quando quer deixar o verso 'estranho', usa proparoxítonas, que era uma técnica de Augusto. O poema Balada do Mangue, por exemplo, abre com um verso que termina com proparoxítona", argumenta, referindo-se ao trecho 'Pobres flores gonocócicas'.>