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Mariana Rios
Publicado em 27 de maio de 2026 às 06:33
Para onde os cheiros podem nos transportar? Amasse uma folha próximo ao nariz, feche os olhos, respire e a mágica acontece. É essa sensação de deslocamento que a obra ilustrada Amália (Maralto Edições) nos convida a sentir. >
O livro da escritora e roteirista Roberta Malta, com ilustrações de Johanna Thomé de Souza, propõe um percurso olfativo por suas páginas - para quem já atravessou o quintal dos avós ou o jardim de alguém que cultiva plantas tão presentes nas casas brasileiras: alecrim, cidreira, arruda, arnica e até a temida comigo-ninguém-pode. >
Livro ilustrado aposta no poder afetivo das plantas presentes nas casas brasileiras
A autora reflete sobre memória, escrita, infância e a relação íntima que mantém com as plantas. “Livros e plantas são excelentes companhias, disso eu tenho certeza”, conta Roberta na entrevista a seguir sobre o livro, lançado no final de março deste ano. >
CORREIO: Ao reunir literatura e conhecimento ancestral você cria um canal potente de diálogo. Livros e plantas podem curar? >
Livros e plantas são excelentes companhias, disso eu tenho certeza. Das minhas preferidas. Não sei se usaria a palavra curar, mas transformar. Plantas e livros são poderosos agentes do movimento. >
Qual é, atualmente, a tua relação com as plantas e como foi a escolha das espécies para o livro?>
Estar perto das plantas é muito importante para mim. É uma forma de equilíbrio que eu preciso. Mas não sou a menina do dedo verde (risos), em termos do cultivo. De todo modo, preciso delas como presença, e faço muitos chás e banhos. >
Para o livro, um dos critérios foi o de escolher plantas com as quais eu tivesse intimidade. Porque apesar do glossário do livro, há algo do campo sem palavras que ronda o significado de cada planta. Eu precisava sentir aquela planta, conhecê-la, para criar as cenas da vida da Amália.>
Quais plantas que hoje você escolhe ter por perto e por que? >
Eu sempre gosto de ter samambaia, por ela ser uma planta antiga, de muita sabedoria. Também árvore da felicidade. E as aromáticas, que uso para banho, como alecrim, alfazema e arruda. As de proteção, como espada de São Jorge e comigo-ninguém-pode, sempre me acompanham. >
Fala um pouco sobre a personagem que te inspirou a criar Amália, de quem você costumava comprar plantas.>
Quando eu me mudei de bairro na pandemia, em 2021, foi para morar sozinha depois de muitos anos. E uma das decisões é que minha casa teria muitas plantas, finalmente. Assim que cheguei, encontrei essa mulher que montava sua barraca bem cedinho e desmontava no entardecer, vendendo as plantas que ela mesmo cultivava com sua família. É exatamente como a imagem da primeira guarda do livro [folha que liga a capa ao miolo].>
Tinha desde mudas a plantas grandes. Ela era muito gentil, entendia das plantas, aceitava encomendas. Tenho até hoje uma samambaia que comprei com ela. Sua presença era contudo inconstante, nunca sabia que dia ela vinha, até que um dia não veio mais. Eu fiquei com aquele imaginário na cabeça, dessa profissão, ter um quintal, cultivar um jardim, vir de longe para vender as plantas. Essa inspiração virou no livro a mãe de Amália. A filha já tenta seguir outro caminho. A relação íntima com as plantas continua, mas de outra maneira. >
Por que a escolha pelo livro ilustrado e como, ele, na sua percepção, também dialoga com adultos e crianças?>
Eu amo ler livros ilustrados. Para mim, amar como leitora é um grande motivador para encontrar a forma do que escrevo. Também meu começo como escritora está muito ligado à infância, e esse é dos gêneros que mais circulam no mercado de literatura infantil. Acho que a aproximação foi inevitável. Com o tempo, vi que gostava muito de criar dessa maneira específica, junto às imagens, e atenta ao ritmo e ao silêncio. >
O livro ilustrado é realmente muito democrático, capaz de alcançar diferentes idades, que ainda podem ler juntas o mesmo livro! >
Por que a escolha de Amália como título? >
Depois do livro pronto, ficamos tentando recuperar a trajetória do processo criativo. Como essa forma foi nascendo? Vou ajustando tudo numa narrativa, que acaba se tornando a história do livro, digamos assim. Mas na verdade tudo é muito mais impreciso do que parece. Até onde lembro, Amália veio de forma intuitiva, sem muitas explicações. Ela era Amália. Nunca teve outro nome. Já nasceu assim. >
Isso sobre a personagem, porque o livro se chamava Metamorfoses. Eu estava muito capturada pela atmosfera do livro Metamorfoses, de Emanuele Coccia. Essa foi uma das ideias matriz: mostrar as muitas metamorfoses que vivemos em uma vida inteira. Foi com o livro já na editora, que decidimos usar como título o nome da personagem, que é como desde o começo internamente e de maneira afetiva chamávamos o projeto. >
Como foi o processo de criar um livro ilustrado? >
Esse não foi meu primeiro livro ilustrado, e já estou finalizando a produção de outros três. >
Também trabalho com acompanhamento de autores e como assistente editorial de livros ilustrados, então esse é um universo que eu já considero como meu, do qual faço parte. E que eu gosto muito, principalmente dessa maneira como fiz com a Johanna, com muita parceria e liberdade. >
Você pesquisa atualmente meninas e suas escritas: a febre dos diários sempre foi algo presente. Por que esse gênero atrai as meninas? >
Essa pergunta vale uma tese (risos). É uma das perguntas que faço na pesquisa. Acho que a escrita é o que atrai muito as meninas. No mundo de restrição, a escrita acaba sendo um lugar de liberdade e experimentação. O diário acabou sendo o gênero mais difundido, também porque era interessante que assim fosse. Deixava as mulheres no campo do íntimo, enquanto os homens escreviam romances e outros gêneros para fora, para o mundo. O que eu percebo é que as meninas escrevem diários, mas não só. >
Como seria o teu jardim ideal? >
Eu gostaria de ter mais flores, de aumentar minha relação com as flores. Entender seus tempos, cheiros, nomes. Seria um jardim com mais flores do que as que tenho hoje.>
Roberta Malta é escritora, pesquisadora e facilitadora de processos criativos com a palavra. Formada em Letras e especialista em Literatura Infantojuvenil pela Universidade Federal Fluminense (UFF), atualmente pesquisa meninas e suas escritas em seu doutorado pela PUC-Rio. Entre seus livros publicados estão Senhora incerteza (2019), Meus mais velhos (2020) e Loba (2023, selecionado para o catálogo White Ravens 2024).>
Amália >
Editora: Maralto Edições>
Autora: Roberta Malta>
Ilustrações: Johanna Thomé de Souza >
Páginas: 48>
Preço: R$ 87>