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Doris Miranda
Publicado em 6 de maio de 2026 às 06:00
Entre terra revolvida e corpos em deslocamento, o espetáculo Sem:Terra surge como um rito cênico que convoca memória, conflito e sonho coletivo. A nova peça performativa do Coato Coletivo estreia em Salvador como parte do projeto Território Expandido: Arte Local e Global , ocupando o Espaço Cultural da Barroquinha, com temporada dessa sexta (8) até 17 de maio, sempre às 19h. >
Em cena, uma instalação performativa que tensiona a relação entre humanidade e terra, propondo ao público uma travessia por disputas, memórias e utopias. A obra, que se lê “Sem dois pontos Terra”, integra a segunda etapa do projeto Território Expandido, iniciativa que marca uma nova fase para o coletivo ao ser seu primeiro edital de manutenção. >
Nesta “caminhada” em busca da expansão do corpo-território, o espetáculo performativo Sem:Terra é composta pelos intérpretes do elenco Ana Brandão (SP), Bernardo Oliveira (BA), Danilo Lima (BA), Ixchel Castro (México), Marcus Lobo (BA), Mario Oliveira (PE), Mirela Gonzalez (RS), Natielly Santos (BA), Thiago Cohen (SP). >
Atravessamentos >
Concebida como uma criação coletiva, a montagem acontece por meio de uma instalação cênica que propõe um reencontro humano e artístico. A peça aborda, de forma poética e crítica, as relações complexas entre o ser humano e o território, transitando entre uso, disputa, ocupação e exploração da terra, ao mesmo tempo em que honra e celebra a Terra como mãe e origem de tudo. >
A luta imposta pelo capital atravessa conflitos identitários, sociais, históricos e políticos, enquanto memória, utopia, processos contra-coloniais e lutas coletivas fazem contraponto na tentativa de criar “um mundo onde caibam muitos mundos”, como propõe o movimento indígena zapatista EZLN.>
A dramaturgia se estrutura em três grandes blocos performativos-narrativos que se sobrepõem como camadas de um mesmo território simbólico, assinados coletivamente por Bernardo Oliveira, Ixchel Castro, Natielly Santos e Marcus Lobo. No primeiro movimento, a cena reflete sobre o percurso dos povos até a crise contemporânea. >
Entre lutas e ideologias contrastantes, imagens mediadas pela câmera fotográfica recriam paisagens de resistência cotidiana, precariedade e trabalho, enquanto o plantio e a divisão da terra aparecem como faces opostas de uma mesma moeda: colaboração e disputa, bem comum e posse excludente. >
Diante disso, um jogo cênico se instala. Personagens-arquétipos, em chave brechtiana, evidenciam os papéis impostos pelo sistema, enquanto dados, perguntas e situações inspiradas na realidade brasileira colocam o público em posição ativa, influenciando diretamente as decisões em cena. Nesse território instável, o capital se revela como força estruturante de privilégios, oportunidades e exclusões, transformando corpos em avatares de um “cis-tema” que explora o corpo-terra até suas últimas consequências.>
No terceiro bloco, a cena carrega o público para o campo da memória. Sob o céu de uma lona preta são construídas imagens que evocam sonhos compartilhados: o voo dos pássaros no fim da tarde, a busca incessante de mães por corpos desaparecidos, o refúgio precário daqueles que produzem alimento sem direito à terra. >
Entre instabilidades geracionais e promessas de futuro não cumpridas, Sem:Terra aposta no sonho coletivo como gesto poético de reinvenção do mundo de Eduardo Galeano. É a partir dessa perspectiva que o Coato Coletivo transforma a cena em espaço de encontro, escuta e diálogo com o público. >
Criação colaborativa>
Fundado em 2013, na Escola de Teatro da Ufba, o Coato Coletivo consolidou ao longo de sua trajetória uma poética baseada na criação colaborativa, na mistura de linguagens e no tensionamento constante entre arte e política. O grupo desenvolveu obras como Estrelas Derramadas (2013), Arquivo 64/15 – Porões da Ditadura (2015), Maçã (2016), Eu é Outro: Ensaio sobre Fronteiras (2017), Norte/Sur (2017) e Inimigos (2021).>
Além dos espetáculos, o Coato é responsável pelo Festival Estudantil de Artes Cênicas da Bahia (Festac), realizado desde 2017 em parceria com o Cooxia Coletivo Teatral. Com o Território Expandido, o grupo reafirma sua atuação como um organismo artístico em constante posicionamento, comprometido com uma arte descentralizada, crítica e plural.>
SERVIÇO - Espetáculo ‘SEM:TERRA’ , com COATO Coletivo | de 8 a 17 de maio, às 19h (exceto dias 10 e 11), no Espaço Cultural da Barroquinha | Ingressos: R$ 20 e R$ 10, à venda no Sympla.>