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Espetáculo leva alegria de Erê para as praças de Salvador

Musical  bilíngue Fala, Ìbejì faz apresentações gratuitas até 12 de abril; hoje (31), às 15h, será no Campo da Pronaica, em Cajazeiras

  • Foto do(a) author(a) Doris Miranda
  • Doris Miranda

Publicado em 31 de março de 2026 às 06:00

 Peça ‘Fala, Ìbejì’
Peça ‘Fala, Ìbejì’ Crédito: Isabela Bugmann

Entre o cheiro de dendê, o som do atabaque e o samba nascido nos terreiros das religiões de matrizes africanas, o espetáculo infantojuvenil musicado Fala, Ìbejì está em circulação gratuita pelas praças de Salvador até dia 14 de abril. Hoje (31), a apresentação é no Campo da Pronaica, em Cajazeiras. Amanhã (1) e depois (2), a peça vai até Paripe e depois, a partir do dia 4 chega ao Campo Grande. A ideia é reafirmar o teatro de rua como gesto de encontro e celebração coletiva. Vale realçar que, o espetáculo integra português, Libras e yorubá.

Com direção de Guilherme Hunder e dramaturgia de Luiz Antônio Sena Jr., a obra dá continuidade a uma pesquisa cênica afrocentrada de ambos dedicada às infâncias, à tradição oral e às pedagogias do terreiro. A montagem costura elementos do candomblé, da cultura popular nordestina e das festas de Cosme e Damião, abordando também o sincretismo religioso como estratégia histórica de resistência. A encenação incorpora a Libras como parte da própria cena, integradas à performance do elenco, formado por Anderson Danttas, Ane Ventura, Fernanda Silva, Gabriel Nafisi e Larissa Libório.

Mito ancestral

A dramaturgia é livremente inspirada em itans da tradição iorubá, especialmente em narrativas que giram em torno dos Ìbejì, os orixás gêmeos. A história os desloca para o contexto de um terreiro situado em uma comunidade periférica, onde fé, arte e resistência caminham lado a lado. A trama se desenvolve na casa de Mãe Mainha, enquanto todos se preparam para o caruru em homenagem aos gêmeos. No entanto, a chegada da Morte, chamada apenas de “Ela”, ameaça interromper a celebração e silenciar a festa. Assim, entre cantos, memórias e rituais, a comunidade se vê diante do desafio de proteger a vida, a alegria e a ancestralidade que o caruru celebra.

Entre risadas e mistérios, a meninada — Menino, Menina, Guri e Erê — percebe que será preciso coragem, união e muita brincadeira para enfrentá-la. Com ajuda de Mãe Mainha, as crianças lançam o desafio: ela só poderá ficar no caruru se conseguir dançar até o tambor parar — o que nunca acontece, já que os irmãos se revezam na batida. O que Ela não percebe é que, por serem gêmeos, eles a estão enganando.

Em Fala, Ìbejì, brincar é também rezar, cozinhar é ato de memória, e dançar é estratégia de sobrevivência. Hunder destaca: “Falar de ancestralidade para crianças é também garantir a continuidade das nossas histórias. Elas recebem, guardam e levam adiante a herança cultural e espiritual dos povos afro-diaspóricos. Quando levamos essas narrativas para a cena afirmamos as nossas identidades e que elas continuem vivas”.

No espetáculo, a relação com a morte é um subterfúgio para falar sobretudo a respeito de tradição, memória e continuidade. “Nosso maior interesse é abordar a tradição do caruru, que vem se perdendo entre as crianças, exaltando as tradições da afrodiáspora que constituem nossa cultura, e falar sobre a morte, que ainda é um tema tabu na infância”, revela Luiz Antônio Sena Jr..

Teatro de rua

Concebido desde o início como um espetáculo de rua, Fala, Ìbejì adota uma estrutura que privilegia o diálogo direto com o público e um espaço cênico não frontal. A encenação valoriza a circularidade característica das matrizes afro-diaspóricas, aproximando intérpretes e espectadores e transformando a plateia em parte ativa da experiência. Ao longo da apresentação, o público é convidado a participar: canta, responde a enigmas, bate palmas e se envolve na brincadeira ritual que ajuda a colocar a Morte para dançar.

Toda a visualidade do espetáculo tem como referência simbólica as feiras populares, berços de cultura viva. O terreiro é casa, quintal e salão de memórias ancestrais. Caixotes plásticos de feira, panelas e bacias de ferro, sacolas de palhas e utensílios domésticos são alguns dos elementos. Os figurinos dialogam com sacos de feira, quiabos e tecidos coloridos, mesclando tradição e urbanidade numa paleta que une os tons do dendê às cores vibrantes da cidade.

SERVIÇO - Peça ‘Fala, Ìbejì’ | Programação: terça (31) no Campo da Pronaica, em Cajazeiras, às 15h; quarta (1), às 15h, e quinta (2), às 16h, na Praça São Brás, em Plataforma; e de 4 a 12/4, quintas e sextas, às 15h, e sextas e sábados, às 16h, no Campo Grande | Gratuito

Tags:

Teatro