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Heider Sacramento
Publicado em 10 de junho de 2026 às 06:00
Há artistas que passam a vida inteira tentando encontrar uma voz própria. Lenine parece pertencer a outra categoria: a daqueles que, depois de encontrá-la, continuam se transformando. Aos 66 anos e após mais de 40 de carreira, o cantor, compositor e instrumentista pernambucano segue movido pela mesma inquietação que o levou a deixar o Recife ainda jovem para construir uma das obras mais singulares da MPB. >
É esse espírito que atravessa Eita, álbum lançado no fim de 2025 e que agora ganha os palcos em uma turnê que chega a Salvador nesta sexta (12), na Concha Acústica do TCA. Definido pelo próprio artista como um trabalho especialmente íntimo, o projeto reúne canções que dialogam diretamente com suas memórias, afetos e experiências mais recentes.>
“O projeto Eita tem toda essa personalidade não só pela autoralidade e assinatura, que concretizei como cancionista, mas também pelos temas, que são muito íntimos. Nesse sentido, estou muito mais presente nesse disco do que nos outros”, diz.>
A sinceridade que marca o álbum não surgiu por acaso. O processo de criação foi atravessado por acontecimentos que mudaram a rotina do mundo. Pouco depois de iniciar os primeiros esboços do trabalho, Lenine viu a pandemia silenciar temporariamente o desejo de criar. “O que me leva a entrar no estúdio e fazer música inédita é o desejo. Sempre foi e vai continuar sendo o desejo”, resume.>
Essa retomada teve um aliado fundamental: Bruno Giorgi, filho do artista e parceiro de longa data na produção musical. Mais do que acompanhar a construção do álbum, Bruno foi peça decisiva para que Eita saísse do papel. “Foi Bruno quem mais me incentivou a voltar a compor e a gravar da maneira como eu sempre fiz. Houve um estímulo muito forte da parte dele para que esse disco acontecesse”, conta Lenine.>
A parceria entre os dois não é recente. Bruno trabalha ao lado do pai desde o álbum Chão (2011), mas ganhou um papel ainda mais central no novo projeto. Conhecedor profundo da obra do pai, ele ajudou a definir os caminhos criativos do disco.>
Essência nordestina>
A relação entre música e família, aliás, acompanha Lenine há décadas. Embora os três filhos tenham seguido trajetórias ligadas ao universo artístico, cada um encontrou seu próprio caminho. Enquanto João e Bernardo só se aproximaram profissionalmente da música mais tarde, Bruno demonstrou desde cedo uma curiosidade especial pelos bastidores da criação musical. “No caso dele, essa vocação apareceu muito cedo e foi se desenvolvendo de forma bastante natural”, diz. >
Se a intimidade é uma das marcas de Eita, a mistura continua sendo uma característica central da obra de Lenine. Desde os anos 1990, sua música desafia classificações fáceis. Maracatu, rock, eletrônico, samba, ritmos africanos e sonoridades urbanas convivem em uma mesma paisagem, algo que ele enxerga com naturalidade.>
Talvez por isso Lenine tenha deixado de usar uma expressão que por décadas serviu para definir boa parte da produção nacional: “Hoje, eu não falo mais MPB. Eu uso MCB, Música Contemporânea Brasileira, que é a música feita hoje no Brasil. Ela é muito diversa, muito ampla e realmente reúne toda essa mistura.”>
Embora o olhar esteja voltado para o presente, as raízes permanecem evidentes. O Nordeste segue ocupando um lugar central em sua criação, não apenas como referência estética, mas como território emocional. “O Nordeste sempre esteve presente porque é a minha origem, é onde estão minhas referências mais profundas”, explica.>
Ao mesmo tempo, Lenine resiste à ideia de que sua produção possa ser limitada a uma única geografia. Para ele, a identidade nordestina convive naturalmente com uma visão cosmopolita construída ao longo dos anos de circulação pelo mundo.>
Essa relação entre pertencimento e abertura talvez explique a conexão duradoura dele com Salvador. Cidade que frequenta há décadas, a capital baiana se tornou uma parada constante e um lugar onde construiu amizades e parcerias importantes ao longo da carreira. “Salvador sempre foi um lugar muito especial para mim. É uma cidade onde encontrei, ao longo da vida, um público enorme e muito generoso”, diz.>
Quando subir ao palco para apresentar as canções de Eita, Lenine estará mostrando um trabalho novo. Mas, também estará celebrando algo que atravessa toda a sua trajetória: a capacidade de continuar se reinventando sem perder de vista a própria essência. Ele segue guiado pelo mesmo impulso que o levou a compor as primeiras canções. E o desejo continua lá, intacto.>
SERVIÇO - Lenine apresenta a turnê EITA | Sexta (12), às 19h, na Concha Acústica do TCA | Ingressos: R$ 160 e R$ 80, à venda no Sympla.>