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Gabriela Cruz
Publicado em 17 de maio de 2026 às 15:44
O manguezal deixou de ser apenas paisagem costeira para ocupar o centro da narrativa estética da Gamboa Brasil. Em sua primeira investida no calendário outono-inverno, a marca baiana apresenta a Coleção Manguezal, linha que aproxima moda, arte e consciência ambiental a partir de referências visuais e simbólicas de um dos ecossistemas mais importantes do litoral brasileiro. >
Conhecida pelo trabalho em seda pura premium e pelas estampas pintadas manualmente em aquarela no papel, a marca fundada por Meire Ehrensperger amplia agora seu repertório criativo ao construir uma coleção guiada menos pela lógica sazonal e mais pela ideia de permanência, característica que acompanha o DNA autoral da label desde sua criação, em 2017.>
Gamboa Brasil
A coleção chega em duas etapas: a primeira, lançada neste semestre, dedicada ao outono-inverno; a segunda prevista para setembro, durante a temporada primavera-verão. O resultado é um guarda-roupa marcado por fluidez, leveza e uma cartela cromática que mergulha em tons terrosos, verdes suaves e amarelos naturais inspirados na vegetação, na lama fértil e na luz filtrada típica dos manguezais.>
Mais do que reproduzir elementos da natureza, a coleção tenta traduzir atmosferas. Nas estampas criadas por Meire Ehrensperger, folhas, raízes expostas, marés e texturas orgânicas aparecem reinterpretadas em aquarelas delicadas que preservam certa sensação de movimento. Entre os símbolos presentes estão o voo do guará, o aratu e os desenhos sinuosos deixados pela maré, imagens que reforçam a ideia de um ecossistema vivo e em constante transformação.>
Considerado berçário da vida marinha e peça-chave para o equilíbrio climático, o bioma aparece na coleção associado a conceitos de acolhimento, resistência e continuidade. Esse discurso atravessa toda a campanha, que propõe uma leitura mais contemplativa da relação entre natureza e pertencimento. >
É justamente nessa dimensão que a coleção se conecta ao Projeto Recife das Pinaúnas, iniciativa realizada na Ilha de Itaparica voltada à educação ambiental em áreas de manguezal. O projeto promove oficinas, trilhas ecológicas e plantio de mudas nativas com crianças e adolescentes de comunidades locais, aproximando estudantes da rede pública do ecossistema em que vivem.>
A aproximação entre moda e pauta ambiental não é exatamente novidade no mercado, mas, no caso da Gamboa Brasil, o discurso aparece mais ligado à construção de imaginário e identidade cultural do que à adoção de tendências sustentáveis como estratégia de marketing. A coleção parte de uma relação afetiva da própria criadora com o mangue, sentimento que também atravessa o poema autoral A Mãe Manguezal, escrito por Meire Ehrensperger.>
“Sempre enxerguei o manguezal como uma grande mãe: aquela que acolhe, protege, alimenta e sustenta”, afirma a designer.>
A fala ajuda a entender o caminho escolhido pela marca nesta temporada: menos literal, mais sensorial. Em vez de transformar o bioma apenas em estampa, a coleção tenta capturar sua atmosfera silenciosa, úmida e orgânica, um movimento que reforça a proposta da Gamboa Brasil de trabalhar a moda como extensão de memória, arte e território.>
Com produção limitada e tiragens reduzidas, no máximo três peças por estampa, a marca mantém a lógica de minicoleções exclusivas que se tornaram assinatura da label baiana. Em Manguezal, porém, essa proposta ganha um novo contorno: o de transformar um ecossistema inteiro em linguagem estética.>
A MÃE MANGUEZAL>
“Um passeio em silêncio a bordo de >
um bioma dançante, intrigante,>
Os nobres vinháticos navegam em forma de lindas canoas esguias, >
passageiros iniciam sua busca pela sobrevivência. >
O magnífico Guará voa alto >
e anuncia a saída das águas para o mar>
A grande festa se inicia e a orquestra começa a soar.>
À beira da lama, o mangue emerge e se torna um palco exuberante >
Surge a grande mãe redentora, idosa, cheia de vida,>
Em seu colo farto acontece a magia do >
tão desejado abraço acolhedor.>
Nas entranhas de suas raízes, a riqueza em abundância>
onde acontece o movimento da vida>
O canto das guerreiras marisqueiras suaviza a jornada>
O sustento diário é conquistado com fé e muita luta>
E, no fundo dos olhos agradecidos, revela-se a confiança serena>
A certeza de um abraço dessa mãe sempre presente>
Com o qual ainda se pode contar amanhã.”>
Meire Ehrensperger>