ENTREVISTA AUGUSTO CRUZ

‘Para ser ESG, é preciso ter evidências, não basta dizer que fez’

A agenda de responsabilidade deve passar por grandes transformações nos dois próximos anos

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  • Donaldson Gomes

Publicado em 14 de maio de 2024 às 05:00

O escritor e consultor Augusto Cruz será um dos palestrantes do II Fórum ESG, promovido pelo CORREIO e o Alô Alô Bahia nos dias 22 e 23 Crédito: Marina Silva/Arquivo CORREIO

O amadurecimento da agenda ESG deverá ser acompanhado por um esforço de padronização na apresentação dos resultados alcançados. O aumento da conscientização em relação à necessidade de conhecer, medir e mitigar riscos relacionados à atividade produtiva são por si só aspectos positivos, acredita o escritor e consultor empresarial Augusto Cruz. Mas dizer que fez apenas é muito pouco, pondera Guga, como ele gosta de ser chamado. A agenda de responsabilidade deve passar por grandes transformações nos dois próximos anos, graças à padronização dos relatórios de sustentabilidade para as empresas de capital aberto, explica o consultor, que será um dos palestrantes do Fórum ESG, produzido pelo CORREIO e o Alô Alô Bahia nos dias 22 e 23 de maio.

Quem é

Augusto Cruz é sócio da AC Governança & Sustentabilidade e membro do Comitê Gestor do Selo Pacto pela Mulher do Município de Salvador. Associado ao Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Autor dos livros: “Introdução ao ESG – Meio ambiente, social e governança corporativa” (2021); “Governança Corporativa e os Pequenos Negócios” (2021), dentre outros.

Como surgiu o conceito de ESG e por que as empresas hoje se preocupam tanto com este assunto?

O Klaus Schwab, que foi o cara que criou o Fórum Econômico Mundial, em 1973, tem um livro recente chamado Capitalismo de Steakholders. Este se tornou o grande mote para que o Fórum Econômico Mundial surgisse, um olhar tão intenso para os shareholders, que são os acionistas, quanto para os steakholders, as demais partes interessadas. Este conceito ressurge com força em 2020. No livro, ele comenta que os contadores foram os primeiros a se preocuparem com os riscos não financeiros. Normalmente, a contabilidade lida com os riscos financeiros, mas os profissionais ficavam angustiados, pensando em como reportar aquilo que não é financeiro, mas traz impacto nas finanças. Em 2004, houve um encontro entre o Banco Mundial e as maiores instituições financeiras do planeta e discutiram, entre outros temas, qual é o melhor perfil de empresa para se investir. E a conclusão foi que aquelas que evidenciam boas práticas de governança corporativa e se preocupam em mitigar impactos sociais e ambientais são as melhores alternativas para bancos e que fazem as seguradoras perder menos dinheiro. São as empresas que se preocupam com o G, de governança, com E, de enviroment (ambiental, em inglês), e com S de social. Chegou-se à conclusão de que a melhor sonoridade era com o ESG, mas tudo nasce da governança, porque se a decisão não vier da direção, vai ser só campanha para abraçar árvore, ou fazer doação no final de ano para algum asilo ou orfanato. Isso tudo é muito bonito, mas não resolve o problema. Outra coisa importante é entender que os riscos não financeiros em que o ESG é importante são aqueles que são impactados pelo negócio. Se eu estou pensando nos golfinhos de Fernando de Noronha e minha empresa está Salvador, cuidar dos golfinhos é uma ação de sustentabilidade ambiental, mas não tem nada a ver com ESG. ESG é mitigação e análises de riscos não financeiros, que podem ser ameaças ou oportunidades.

Como se avançou na mensuração dos resultados relacionados ao ESG?

A atividade humana sempre trouxe muitos impactos, desde a primeira fase da Revolução Industrial, quando se evoluiu muito em relação aos direitos do trabalho, mas muito pouco sobre questões ambientais. Só a partir de 1970 se começa a discutir os impactos ambientais. De 70 para cá, tivemos grandes desastres relacionados à atividade humana. Eu cito Bhopal, na Índia, que tem um filme retratando na Netflix (Heróis dos trilhos), tivemos Chernobyl, aqui tivemos Pojuca, em 1983. Tudo isso causou um impacto gigantesco, tanto sobre os pontos de vista ambiental, quanto social, mas também econômico. Então, começamos a pensar em atuações que não gerem impactos, ou em reduções de impacto, ou ainda na compensação disso. A gente culmina com o caso da Exxon Valdez, em 1989. Ali se percebeu, de forma inequívoca, a necessidade de se harmonizar a atividade produtiva ao grandes ciclos da vida, que são a água, o ar, o solo, a fauna, a flora, o ser humano e os seus negócios. Nós interferimos nisso, já dizimamos 33% das espécies que já habitaram o planeta. Com o caso Exxon Valdez, houve uma pressão gigantesca e surge o Global Reporting Initiative (GRI), que foi se somando a outras publicações. Os contadores, através do ISSB, que é um órgão internacional, criaram um conjunto de normas, através de um comitê chamado CPC. Recentemente, o ISSB chegou a um formato para reportar o ESG, o IFRS. Já lançaram dois cadernos, um só voltado para a governança, porque tudo vem da governança. Há uma preocupação em ter uma publicação voltada para o ESG como uma forma de evitar o greenwashing. As empresas estão confundindo muito assistência social, às vezes um ato de filantropia do fundador, com ESG. Tudo é necessário, mas não necessariamente é ESG. Outra novidade importante é que a CVM foi o primeiro órgão regulador de mercado a estabelecer o IFRS como norma obrigatória para empresas com papéis listados, a partir de 2027, referente ao exercício de 2026. É um material auditável, que deve ser publicado junto com as demonstrações financeiras. Havia um afastamento entre os relatórios de sustentabilidade e os resultados financeiros. Isso é muito importante porque hoje tem empresas que usam o relatório de sustentabilidade como uma publicidade, com um monte de criancinhas sorrindo, mas não mostra todo o impacto. Chegamos a um momento decisivo com isso. Tem o ESG Lato Sensu e tem o Stricto Sensu.

Como assim?

O Lato Sensu é essa confusão que estão fazendo, como o fato de alguém achar que o uso de copos de vidro no lugar do plástico por si só é ESG. Não se pode confundir, óbvio que é exemplar essa troca de materiais, mas será que mitiga um risco da empresa? Outra coisa, é preciso fazer contas, o que eu vou fazer quando os copos quebrarem? Quanto de água irei gastar lavando esses copos? E o detergente? Para ser ESG, é preciso ter evidências, não basta dizer que fez. Mas que bom que exista essa estratégia Lato Sensu porque sensibiliza, mas a grande dificuldade que se tem com uma agenda ESG é o entendimento da corporação em relação à mensuração de riscos. Um exemplo, qual é o tamanho da sua empresa? Será que são todas as exigências da agenda que se aplicam ao seu negócio?

Você está querendo me dizer que nem todo mundo precisa ser ESG?

Todo mundo tem que ter uma boa governança, mitigar os seus impactos ambientais e sociais. Mas quando a gente fala de uma sistematização da agenda ESG, falamos de algo que vai evidenciar a mensuração e mitigação de riscos, dos impactos não financeiros em seu negócio. Aí, a gente olha para uma empresa de pequeno porte e pensa, ‘isso é greenwashing’. Tudo bem, não existe tamanho para a adoção de boas práticas, mas ESG tem ligação com o mercado financeiro. É para quem tem papel listado, para corporações que trabalhem para estas empresas, para quem vende para o exterior, já que é uma cobrança da Europa e China, por exemplo. Só gostaria de frisar que a discussão de boas práticas e a adoção destas práticas sempre será algo positivo. Mas vamos devagar para não virar um modismo prejudicial a uma pauta tão séria e tão importante.

Já existe um movimento contrário muito forte, não é?

Há um movimento forte contrário, porque estamos falando de transição energética e isso modifica todo o padrão de investimento mundial. Os bancos investiram demais nas empresas de petróleo e gás, falaram que iriam reduzir, mas voltaram atrás porque a gente ainda não consegue viver sem o petróleo. Essa transição será mais lenta do que se fala. Até que o hidrogênio se torne uma realidade ainda vai demorar até, pelo menos, 2035. Os carros elétricos ainda têm contradições a resolver. A gente tem o etanol, o Brasil, os Estados Unidos e a Índia fizeram um pacto pelo biocombustível. Existem inclusive estudos para produzir combustível de avião. Quando falamos de energia eólica, há contradições econômicas e sociais também. A agenda ESG precisa ser olhada com muita parcimônia. Se tornarmos um grande greenwashing, vamos acabar desacreditando um assunto fundamental para o nosso futuro.

Quais são os primeiros passos para empresas que estão iniciando a caminhada na agenda ESG?

Sensibilização da alta direção é o primeiro passo. Eu sempre faço questão de ter essa conversa, para levar conceitos, conselhos, apresentar as métricas e os indicadores. É muito importante conhecer bem aquilo que a empresa faz. Só depois a gente faz um diagnóstico dos documentos que ela possui, quais ações realiza e em que estágio está nos temas de sustentabilidade. Aí fazemos uma análise de materialidade da forma mais simples possível. Temos que ouvir os stakeholders também, entender como veem a empresa nos temas de governança, meio ambiente e social. Vai muito na linha de conhecer o negócio e sensibilizar a alta direção, para começar.

De modo geral, como você avalia o amadurecimento do assunto na alta direção das empresas?

Quando nos procuram, há uma receptividade muito boa, mas de maneira geral ainda há um distanciamento muito grande por parte da alta direção em relação ao assunto. Eles se preocupam, mas há outras preocupações que aparecem na frente.

O III ESG Fórum Salvador é um projeto realizado pelo Jornal Correio e Site Alô Alô Bahia com o patrocínio da Acelen, Alba Seguradora, Bracell, Contermas, Grupo Luiz Mendonça - Bravo Caminhões e Ônibus e AuraBrasil, Instituto Mandarina, Jacobina Mineração - Pan American Silver, Moura Dubeux, OR, Salvador Bahia Airport, Suzano, Tronox e Unipar; apoio da BYD | Parvi, Claro, Larco Petróleo, Salvador Shopping, SESC, SENAC e Wilson Sons; apoio institucional do Sebrae e Prefeitura Municipal de Salvador e parceria do Fera Palace, Hiperideal, Hike, Ticket Maker, Uranus2, Vini Figueira Gastronomia e Zum Brazil Eventos.