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Donaldson Gomes
Publicado em 19 de maio de 2026 às 05:00
Luana Ozemela aprendeu cedo que desigualdade não é um conceito abstrato. É uma realidade concreta, que define quem tem acesso a crédito, tecnologia e oportunidades — e quem permanece à margem. Ao longo de uma trajetória internacional que incluiu o Banco Interamericano de Desenvolvimento, ela decidiu dominar a “linguagem do capital” para usar as ferramentas do mercado como instrumentos de transformação social. >
Hoje, como vice-presidente de Impacto e Sustentabilidade e CSO do iFood, Luana lidera uma agenda que busca integrar crescimento, inclusão e responsabilidade ambiental em uma das maiores plataformas digitais do país. “Não se trata de equilibrar lucro e impacto, mas de entender que um modelo bem desenhado consegue gerar os dois ao mesmo tempo”, afirma. Luana é uma das palestrantes do Fórum ESG Bahia, que começa amanhã >
Quem é>
Luana Ozemela é CSO e vice-presidente de Impacto & Sustentabilidade no iFood, onde atua desde 2022. Também é conselheira do Fórum Econômico Mundial e da UNICEF. Foi reconhecida como uma das Mulheres Mais Poderosas do Brasil pela Forbes Brasil em 2026 e integra a lista das 500 pessoas mais influentes da América Latina da Bloomberg Línea. Autora e investidora, possui trajetória internacional, incluindo passagem pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, onde atuou em projetos de equidade em mais de 20 países da América Latina e do Caribe.>
Você diz que aprendeu a “linguagem do capital” para transformar estruturas de exclusão. Como a sua vivência influencia a forma como você desenha as estratégias de impacto e sustentabilidade em uma das maiores plataformas do país?>
Minha vivência me mostrou cedo que desigualdade não é uma discussão teórica. Ela determina, na prática, quem consegue acessar oportunidades e quem permanece excluído delas. Aprender a “linguagem do capital” foi entender que crédito, investimento e tecnologia podem ampliar ou restringir essas possibilidades. Hoje, isso orienta como pensamos estratégia no iFood. Em vez de tratar inclusão como algo posterior, partimos da premissa de que o crescimento precisa ser construído de forma mais acessível desde o início. Isso significa desenhar soluções que ampliem mercado para empreendedores de todos os tamanhos, criem caminhos de renda e reduzam barreiras de entrada. Quando escala e tecnologia são usadas com essa intencionalidade, o impacto deixa de ser periférico e passa a ser estrutural. >
Muitas empresas ainda tratam o ESG como uma agenda paralela ou de marketing. No entanto, você defende que o impacto social e ambiental não reduz a competitividade. Como o iFood integra esses pilares na sua “arquitetura de crescimento”? >
Quando o impacto está integrado ao modelo, ele melhora a qualidade do crescimento. Crescer junto ao ecossistema é o que move o iFood. Restaurantes aumentam faturamento, consumidores encontram mais variedade e conveniência, e entregadores ampliam suas possibilidades de ganho. Isso torna a operação mais eficiente e mais resiliente ao longo do tempo. Essa lógica também passa por dar visibilidade a quem sustenta esse ecossistema. A campanha “O Brasil que faz o iFood”, por exemplo, leva histórias reais de entregadores e empreendedores para a televisão aberta, reforçando o papel dessas pessoas na economia brasileira. Essa dinâmica ajuda a explicar a escala que alcançamos: um ecossistema que movimenta cerca de R$ 140 bilhões na economia e gera mais de 1 milhão de postos de trabalho. Não se trata de equilibrar lucro e impacto, mas de entender que um modelo bem desenhado consegue gerar os dois ao mesmo tempo, de forma consistente. m desenhado consegue gerar os dois ao mesmo tempo, de forma consistente.>
Um dado impactante que você menciona é que 63% dos empreendedores que acessaram crédito via iFood não tinham aprovação em bancos tradicionais. Qual o papel das plataformas digitais na democratização financeira para pequenos negócios?>
O principal diferencial das plataformas é a capacidade de ler a realidade do negócio em tempo real. Enquanto o sistema financeiro tradicional se baseia principalmente em histórico de crédito e garantias, conseguimos olhar o fluxo de vendas, recorrência e comportamento operacional – dados que refletem o dia a dia do empreendedor. Por isso, a análise fica mais justa e mais aderente à dinâmica do setor. No iFood, essa lógica se materializa no iFood Pago, nossa frente de soluções financeiras. Por meio dela, já liberamos mais de R$ 3 bilhões em crédito, chegando justamente a quem estava fora do sistema. Esse acesso muda a trajetória do negócio. O empreendedor investe, melhora a operação, ganha eficiência e amplia sua capacidade de crescimento. No fim, isso se traduz em mais renda, mais empregos e mais desenvolvimento local. Esse é o ciclo que se cria quando mais pessoas conseguem acessar crédito. >
Você afirma que “representatividade sem transformação estrutural é só imagem”. Com metas de ter 40% de pessoas negras no marketplace até 2030, como o iFood garante que essa inclusão chegue de fato às instâncias de tomada de decisão?>
Encaramos diversidade como uma agenda de gestão. Isso implica estabelecer metas robustas, medir evolução e atuar nas alavancas que realmente mudam o percurso profissional: acesso, desenvolvimento e progressão. Diversidade não acontece por acaso — exige intencionalidade. Hoje já temos avanços consistentes. A presença de mulheres na liderança evoluiu de forma relevante nos últimos anos, chegando a cerca de 45%, e 7 em cada 8 vice-presidências possuem metas específicas de diversidade. Ao mesmo tempo, seguimos avançando no aumento da representatividade negra, com o compromisso público de alcançar 40% no marketplace até 2030. Esse movimento também se reflete fora da empresa. Hoje, 47% dos restaurantes parceiros são liderados por mulheres, o que mostra como a tecnologia pode ampliar o protagonismo feminino no empreendedorismo. O principal desafio é garantir trajetória. Criar condições reais para que essas pessoas avancem e ocupem posições estratégicas é o que separa diversidade de transformação. A transformação acontece quando pessoas diferentes passam a influenciar decisões centrais de negócio. Sem isso, a diversidade não muda o resultado final da empresa.>
O setor de delivery enfrenta o grande desafio da “última milha” e das emissões logísticas. Como iniciativas como o iFood Pedal, com o uso de bicicletas elétricas subsidiadas, conectam o pilar ambiental ao pilar social?>
O iFood Pedal é hoje o maior programa de descarbonização do delivery com bicicletas elétricas da América Latina. Ele nasce para tornar a logística urbana mais eficiente, sem aumentar o custo para quem está na ponta. Em parceria com a Tembici, estamos ampliando o acesso de entregadores a bicicletas elétricas em escala. O plano prevê chegar a até 45 mil e-bikes, com 20 mil novas unidades até 2027. O impacto ambiental é direto, com redução relevante de emissões. Para o entregador, o ganho também é concreto. A bicicleta elétrica reduz custos recorrentes, especialmente com combustível. Isso melhora a renda líquida e traz mais previsibilidade para o trabalho. O que muda é a lógica da operação: eficiência, menor impacto ambiental e melhores condições econômicas passam a andar juntos. >
Quais são as salvaguardas necessárias para garantir que a digitalização da economia não resulte em maior precarização do trabalho?>
O ponto central está no desenho do modelo, não na tecnologia em si. Garantir boas condições nesse contexto passa por combinar três dimensões: proteção, previsibilidade e evolução. Proteção com iniciativas concretas de segurança, seguros e suporte; previsibilidade com mecanismos que ajudem a dar mais clareza sobre ganhos ao longo do tempo; e evolução com acesso à educação e novas oportunidades dentro do próprio ecossistema. Também é fundamental manter canais permanentes de escuta para ajustar a operação a partir da realidade de quem está na ponta. Isso reduz assimetrias e melhora a qualidade das decisões. Além disso, o avanço de uma regulação equilibrada é parte da solução. É possível preservar a flexibilidade desse modelo e, ao mesmo tempo, ampliar a proteção social - desde que o debate seja feito com base em dados e na dinâmica real do setor.>
Como o Brasil se posiciona hoje no cenário global em relação ao "novo ESG" das grandes empresas de tecnologia?>
O Brasil virou um dos principais laboratórios globais para o ESG em tecnologia. Temas como geração de renda, inclusão produtiva e mobilidade urbana fazem parte da dinâmica econômica, o que exige modelos que conectem crescimento com impacto de forma concreta. No iFood, essa agenda se organiza em três frentes estruturantes: promover condições de vida digna para entregadores, avançar na construção de cidades mais sustentáveis e ampliar diversidade, equidade e inclusão. Esses pilares orientam decisões de negócio e ajudam a transformar tecnologia em impacto mensurável. Na prática, isso se traduz em um ecossistema que movimenta cerca de R$ 140 bilhões na economia, com investimentos relevantes na base. Só em 2025, foram mais de R$ 744 milhões destinados a iniciativas para entregadores, além de mais de 15 mil pessoas formadas em programas de educação. Esse tipo de abordagem tem ganhado relevância internacional justamente por sair do discurso e avançar na implementação. O Brasil participa de forma ativa dessas discussões, seja em fóruns globais como o World Economic Forum ou em coalizões voltadas à descarbonização do setor.>
Como você espera que o ecossistema de aplicativos esteja organizado daqui a dez anos em termos de equidade e sustentabilidade?>
A tendência é de um ecossistema mais integrado, mas também mais exigido em relação ao impacto que gera. Equidade deve avançar principalmente pelo acesso. Plataformas vão precisar ampliar o alcance de oportunidades - seja via renda, crédito, educação ou desenvolvimento profissional - reduzindo barreiras de entrada e criando trajetórias mais consistentes de crescimento dentro do próprio ecossistema. No campo ambiental, a evolução passa por uma logística mais inteligente e menos intensiva em carbono, com maior uso de modais limpos, otimização de rotas e soluções adaptadas à dinâmica das cidades. Sustentabilidade deixa de ser compromisso de longo prazo - passa a ser eficiência operacional. Outro movimento importante é a integração entre serviços. A tendência é que soluções de consumo, finanças e gestão estejam cada vez mais conectadas, permitindo que pequenos empreendedores e trabalhadores tenham mais autonomia e capacidade de decisão. No longo prazo, as plataformas mais relevantes não serão as maiores, e sim as que souberem transformar escala em oportunidade real para quem está na base.>
O 5º ESG Fórum Bahia é um projeto realizado pelo Correio, com patrocínio da Acelen, Alba Seguradora - Grupo Aliança da Bahia, Confederação Nacional da Indústria - CNI, Contermas, Neoenergia Coelba, Salvador Bahia Airport, Suzano, Unipar e Veracel com apoio institucional do Alô Alô Bahia, Instituto ACM e Prefeitura Municipal de Salvador, apoio da Blueartes, Bracell, Claro, Grupo Preta, Hexacell, Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBCG), Plano Brasil Saúde, Porsche Center Salvador, Salvador Shopping, Sebrae, Sistema Comércio Bahia - Fecomércio, Sesc e Senac, Sotero e parceria com o Grupo Wish e Zum Brazil Eventos.>