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Mariana Rios
Publicado em 3 de maio de 2026 às 20:07
Aos 34 anos, a nadadora Ana Marcela Cunha decidiu trocar, temporariamente, a busca por medalhas por um desafio mais íntimo — e igualmente extremo. Campeã olímpica em Tóquio-2020 e um dos maiores nomes da maratona aquática mundial, a atleta baiana se prepara para atravessar o Canal da Mancha, em julho, em uma prova que pode durar até 12 horas no mar.>
Natural de Salvador, Ana Marcela vê a travessia como a realização de um sonho que vem desde a infância, quando começou a nadar no mar aos 8 anos. Para ela, o desafio vai além do alto rendimento e da lógica de pódios. “É algo tão importante quanto um ouro olímpico, mas de outra forma. É uma realização pessoal, da Ana Marcela criança”, resume em entrevista ao Estadão.>
A decisão de encarar os cerca de 34 quilômetros entre França e Inglaterra também carrega um significado emocional. A nadadora pretende homenagear Renata Agondi, atleta que morreu em 1988 ao tentar completar o mesmo trajeto. A ideia é levar algum símbolo durante a travessia, como uma bandeira no barco de apoio.>
Para enfrentar as águas geladas — e sem o uso de roupa de neoprene, proibida nesse tipo de prova — a preparação envolve estratégia. A atleta ganhou peso propositalmente para ajudar na proteção térmica e utiliza lanolina, uma gordura natural, para conservar o calor do corpo. Além disso, programou um treino de 12 horas seguidas em águas abertas, simulando inclusive condições noturnas.>
"Em maio, terei um desafio de nadar 12 horas seguidas na Represa Billings, em São Paulo, das 8h da noite às 8h da manhã, para me preparar para o caso de começar ou terminar a prova no escuro. É uma prova que eu tenho colocado na minha cabeça que eu posso fazer entre 10 e 12 horas".>
Apesar da exigência física, Ana Marcela admite que o foco principal está na preparação mental. Com uma rotina de cerca de 80 quilômetros semanais de treino, ela afirma que o corpo estará pronto — mas o desafio maior é lidar com fatores imprevisíveis, como correntes marítimas e o desgaste psicológico de tantas horas no mar.>
O Canal da Mancha, no entanto, não marca um fim de carreira. Pelo contrário. A nadadora trata a travessia como combustível para seguir competindo, de olho no ciclo olímpico rumo a Los Angeles-2028. "Após o canal, retornamos para as provas de 10 km focando no ciclo olímpico".>
Sem pressa para encerrar a trajetória, ela evita falar em aposentadoria. “Não tenho um ponto final. Quero deixar que o tempo me mostre. Enquanto eu estiver feliz, não tem por que parar”, afirma.>