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Carol Neves
Publicado em 10 de junho de 2026 às 08:53
Muito antes de Mário Zagallo levantar a taça da Copa do Mundo de 1970, um personagem de personalidade forte teve papel decisivo na reconstrução da Seleção Brasileira. Retratado por Rodrigo Santoro na série *Brasil 70 – A Saga do Tri*, da Netflix, João Saldanha foi o responsável por comandar a equipe durante toda a campanha das Eliminatórias e garantir a vaga no Mundial do México com aproveitamento perfeito.>
Conhecido como jornalista, comentarista, dirigente e treinador, Saldanha também ficou marcado por sua atuação política. Integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), tornou-se um dos opositores mais conhecidos da ditadura militar e ganhou de Nelson Rodrigues o apelido de “João Sem Medo”, em razão das críticas contundentes que fazia a dirigentes, autoridades e personagens do futebol.>
Natural de Alegrete (RS), onde nasceu em 1917, teve contato com o esporte ainda na infância, depois que sua família se mudou para Curitiba. Morando perto do campo do Athletico Paranaense, acompanhava treinamentos das categorias de base e participava das tradicionais partidas de rua, experiências que fortaleceram sua ligação com o futebol.>
Quem é quem na série da Netflix?
Alguns anos mais tarde, após retornar ao Rio Grande do Sul e posteriormente se estabelecer no Rio de Janeiro, iniciou sua militância política. Filiou-se ao PCB, chegou ao cargo de secretário-geral da União da Juventude Comunista e, em 1947, foi preso e fichado pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).>
Antes de construir uma carreira consolidada na imprensa esportiva, Saldanha ainda passou pelo Botafogo como jogador. Formado em Direito pela antiga Universidade do Brasil, atual UFRJ, também estudou Jornalismo e, no clube carioca, absorveu ensinamentos táticos do treinador húngaro Dori Kürschner.>
Mesmo sem experiência como técnico, assumiu o comando do Botafogo em 1957 e conduziu a equipe ao título do Campeonato Carioca. A conquista foi coroada por uma goleada de 6 a 2 sobre o Fluminense na decisão, em um elenco que reunia craques como Garrincha, Didi e Nilton Santos.>
Amissão de reconstruir a Seleção>
Em 1969, João Saldanha recebeu a tarefa de reorganizar a Seleção Brasileira depois da decepcionante participação na Copa do Mundo de 1966. É justamente esse momento que serve de ponto de partida para a produção da Netflix, mostrando o treinador procurando Pelé para convencê-lo a disputar novamente um Mundial após o atacante anunciar que não pretendia voltar à competição.>
Com o retorno do Rei e a presença de outros grandes nomes, o Brasil iniciou uma campanha impecável. Sob o comando de Saldanha, venceu os seis jogos das Eliminatórias, alcançando 100% de aproveitamento e garantindo classificação invicta para a Copa do México.>
As chamadas “feras de Saldanha” encantaram os torcedores com um estilo ofensivo e eficiente. A equipe superou Colômbia, Venezuela e Paraguai, marcou 23 gols e sofreu apenas dois, formando a espinha dorsal que, meses depois, conquistaria o tricampeonato mundial.>
Embate com a ditadura>
A permanência de um militante comunista à frente da Seleção durante o período mais duro do regime militar gerava desconforto. Os conflitos de Saldanha com dirigentes da então CBD, presidida por João Havelange, e com o governo do general Emílio Garrastazu Médici tornaram-se frequentes.>
O episódio mais lembrado aconteceu quando Médici demonstrou interesse em ver Dadá Maravilha convocado. Ao ser questionado sobre a sugestão do presidente, Saldanha respondeu com uma frase que atravessou gerações: “Nem eu escalo ministério e nem o presidente escala time”.>
A declaração acabou simbolizando sua independência diante do poder político e reforçou sua reputação de personalidade combativa.>
Divergências com Pelé e saída antes da Copa>
Além dos atritos políticos, Saldanha também enfrentou desgaste dentro da própria Seleção. Um dos principais pontos de tensão envolvia Pelé. Enquanto o treinador preferia utilizar o camisa 10 mais avançado, o jogador defendia atuar recuado, participando da criação das jogadas.>
As divergências ganharam repercussão pública quando Saldanha passou a questionar a condição física e até a visão do craque, afirmando que Pelé era míope e teria dificuldades em determinadas situações de jogo.>
Mesmo após uma campanha invicta nas Eliminatórias, João Saldanha foi demitido em março de 1970, menos de três meses antes do início da Copa do Mundo. Entre os fatores apontados para sua saída estavam os conflitos políticos, os desentendimentos com a direção da CBD, a polêmica envolvendo Dadá Maravilha e o desgaste na relação com parte do elenco.>
Seu substituto foi Mário Zagallo, que conduziu o Brasil ao tricampeonato no México. Ainda assim, muitos historiadores e cronistas esportivos atribuem a Saldanha o mérito de ter estruturado a equipe que entrou para a história como uma das maiores seleções de todos os tempos, consolidando seu legado tanto pelo trabalho em campo quanto pela postura firme diante do poder.>