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Murilo Gitel
Publicado em 25 de maio de 2026 às 11:20
O presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), Carlos Henrique Passos, afirmou que a indústria baiana já vive um processo de modernização impulsionado por inovação, sustentabilidade e transição energética. Em entrevista exclusiva ao Jornal Correio, o dirigente destacou investimentos em energias renováveis, infraestrutura, qualificação profissional e fortalecimento das cadeias produtivas como pilares para ampliar a competitividade da Bahia nos próximos anos.>
Jornal Correio: O senhor inicia um novo mandato à frente da FIEB em um momento de grandes transformações econômicas e tecnológicas. Quais serão as principais prioridades da entidade para fortalecer a indústria baiana nos próximos anos?>
Carlos Henrique Passos: Essa nova gestão nasce sob o princípio da construção coletiva, com sindicatos e lideranças empresariais, fortalecendo o Sistema FIEB como uma rede integrada em favor da competitividade e sustentabilidade da indústria. Elaboramos uma agenda estratégica para o quadriênio 2026-2030, estruturada em eixos como melhoria do ambiente de negócios, investimento em educação alinhada às demandas industriais, fortalecimento do ecossistema de inovação, superação de gargalos logísticos e energéticos, promoção de práticas sustentáveis e estímulo ao associativismo e à diversificação produtiva.>
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A Bahia possui vocação industrial diversificada, com destaque para setores como petroquímica, mineração, alimentos, energia e logística. Quais cadeias produtivas o senhor acredita que terão maior potencial de crescimento e atração de investimentos até o fim desta década?>
As cadeias com maior potencial de crescimento e atração de investimentos na Bahia até o fim desta década tendem a ser aquelas ligadas à transição energética, à bioeconomia, à mineração estratégica, à petroquímica sustentável e à agroindústria.>
As cadeias globais de valor, lideradas por grandes empresas, vêm ampliando suas exigências por sustentabilidade e pelo uso de energias renováveis. Isso abre uma janela de oportunidade importante para o Brasil e, no caso da Bahia, converge com vantagens relevantes do estado. Um dos destaques está nos biocombustíveis, incluindo etanol de milho, derivados da soja, diesel verde, querosene de aviação sustentável e biometano.>
Na mesma direção, a disponibilidade de ventos constantes e a elevada radiação solar têm impulsionado a geração de energia elétrica renovável no estado. Esse potencial pode sustentar a expansão da oferta energética e atrair atividades intensivas em energia, como data centers e novos empreendimentos industriais.>
Nos setores industriais tradicionais, como o Polo de Camaçari, a tendência é avançar para modelos produtivos mais sustentáveis, com foco na descarbonização, na eficiência energética e na produção de insumos petroquímicos de base renovável.>
A mineração também desponta como vetor relevante, especialmente diante da crescente demanda por minerais críticos e terras raras, fundamentais para as cadeias associadas à transição energética e às novas tecnologias. Além disso, a agroindústria e a logística devem continuar tendo papel estratégico, tanto pela capacidade de agregar valor à produção regional quanto pela necessidade de integrar melhor a Bahia aos mercados nacionais e internacionais.>
O debate sobre reindustrialização voltou ao centro das discussões no Brasil. Na prática, o que a Bahia precisa fazer para ampliar sua competitividade industrial frente a outros estados e mercados internacionais?>
Sim, esse debate voltou ao centro da agenda nacional, e a Bahia precisa aproveitar esse momento para reposicionar sua indústria. Na prática, ampliar a competitividade industrial do estado exige modernizar a base produtiva existente, investir em infraestrutura e logística, elevar o nível educacional da população, qualificar mão-de-obra, estimular inovação, fortalecer cadeias locais e melhorar o ambiente de negócios para atrair novos investimentos.>
A indústria tradicional continuará tendo papel relevante, especialmente em setores como petroquímica, alimentos, mineração, construção e energia, mas precisará avançar em produtividade, digitalização, eficiência energética e sustentabilidade. Ao mesmo tempo, a Bahia deve aproveitar melhor suas vantagens comparativas, sobretudo em energias renováveis, bioeconomia e cadeias ligadas à transição energética.>
Também será fundamental aproximar empresas, universidades, centros de pesquisa e governo, para transformar conhecimento em inovação e competitividade. A reindustrialização não deve ser vista apenas como produzir mais, mas como produzir melhor: com mais valor agregado, eficiência, resiliência e capacidade de competir no Brasil e no exterior. Isso significa construir uma indústria mais flexível, capaz de se adaptar às mudanças tecnológicas, às oscilações de mercado e às novas exigências ambientais.>
A Bahia tem condições de liderar um novo ciclo industrial, desde que haja planejamento, investimento em educação, articulação institucional e capacidade de transformar suas vantagens naturais em cadeias produtivas mais robustas, modernas e competitivas.>
A formação de mão-de-obra qualificada segue como um dos grandes desafios do setor produtivo. Como a FIEB pretende aproximar educação, tecnologia e indústria para preparar profissionais para essa nova realidade?>
O processo de qualificação profissional é contínuo e estruturado em diferentes etapas, que vão desde a educação básica até a formação técnica e superior. Ao longo desse percurso, o Sistema FIEB exerce uma atuação abrangente e integrada, iniciada na educação básica, com o SESI; passando pela educação técnica, com o SENAI, chegando a níveis mais elevados, como a formação superior oferecida pela Universidade Cimatec. Temos o Projeto Minha Trilha, que foca nessa jornada educacional dos estudantes que entram na nossa rede.>
O Sistema FIEB, através do SENAI e do SENAI Cimatec, tem atuado como um agente de transformação, conectando educação, tecnologia e inovação para formar a nova geração de trabalhadores. Por isso, essas instituições estão sempre em contato com as empresas para entender claramente a demanda por formação, o que nos dá subsídio para a construção e atualização de cursos voltados para demandas do setor industrial.>
Mas, na base da qualificação profissional está a educação, um tema estratégico para todos os setores produtivos. E acredito que todos nós temos o desafio de contribuir para melhorar os indicadores educacionais da Bahia. Com esse objetivo a FIEB, por intermédio do SESI, é um dos articuladores do Movimento Bahia pela Educação, focado na alfabetização da criança na idade certa. Sabemos que o desenvolvimento está diretamente ligado à educação. Sem ela, não teremos uma indústria verdadeiramente qualificada.>
A Bahia vem se destacando em temas ligados à transição energética, hidrogênio verde e energias renováveis. Como o senhor enxerga o papel do estado nesse novo cenário global de energia e sustentabilidade industrial?>
A Bahia tem registrado crescimento significativo na área de energias renováveis. Para se ter uma ideia, dados do Observatório da Indústria da FIEB estimam que, até 2030, o estado deve receber cerca de R$ 30 bilhões em investimentos privados na área de energias renováveis, o que demonstra nosso grande potencial. Temos alguns investimentos que podem causar grande impacto. Podemos destacar, por exemplo, a produção de diesel e querosene verdes da Acelen, que será produzido a partir de recursos renováveis - no primeiro momento óleo de soja e, em seguida, de macaúba. Na região Oeste, foram anunciados projetos de biomassa de etanol de milho. >
Esses e outros grandes investimentos anunciados evidenciam o potencial de converter recursos naturais em produtos de alto valor econômico. Neste cenário promissor, a FIEB vem atuando para o fortalecimento do setor de energias renováveis na Bahia. Uma ação neste sentido foi a criação do Comitê de Energias Renováveis, onde discutimos uma agenda positiva a ser encaminhada aos governos estadual e federal, com o objetivo de minimizar os gargalos que ainda limitam o crescimento desse setor tão estratégico para a nossa indústria.>
Pequenas e médias indústrias costumam enfrentar mais dificuldades para inovar, acessar crédito e acelerar processos de modernização. Que tipo de apoio e articulação a FIEB pretende ampliar para esse público?>
Uma das ações estratégicas da FIEB é interiorizar os serviços do Sistema FIEB na Bahia. Para isso, temos investido na construção e ampliação de unidades no interior do estado. Para citar alguns exemplos, estamos investindo na construção da unidade integrada de Alagoinhas e na ampliação das unidades em Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e Vitória da Conquista. Nosso objetivo é ampliar a oferta dos nossos serviços às indústrias dessas regiões, contribuindo para que tenham mais capacidade de conviver em um mercado cada vez mais competitivo.>
Neste sentido, inauguramos recentemente, através do SENAI, um Centro de Serviços Industriais (CSI) em Feira de Santana, com foco na oferta de serviços tecnológicos alinhados às demandas do setor produtivo. A proposta é oferecer soluções práticas e acessíveis, especialmente para micro, pequenas e médias indústrias, promovendo ganhos diretos em produtividade e competitividade. A nossa ideia é expandir essa iniciativa. Queremos que o CSI atue para aproximar, cada vez mais, o Sistema FIEB das indústrias, ouvindo o setor e trazendo soluções.>
Também fortalecemos a interiorização e o desenvolvimento industrial através de uma forte parceria com o Sebrae Bahia, que inclui iniciativas de apoio voltadas para acesso ao crédito, sustentabilidade, regularização e desburocratização, entre outros. As ações estão distribuídas nas dez regionais de atuação, de forma próxima às empresas, atendendo as demandas locais e ampliando o acesso das indústrias a serviços estratégicos para o fortalecimento de sua competitividade.>
Um dos destaques é o serviço do Núcleo de Acesso ao Crédito (NAC), que apoia micro, pequenas e médias indústrias na busca por recursos voltados a investimentos, inovação, ampliação da capacidade produtiva e modernização dos processos. O serviço oferece assessoria gratuita, em que especialistas da FIEB analisam as necessidades de cada empresa, orientam sobre as melhores alternativas de financiamento e realizam o direcionamento para instituições financeiras e linhas de crédito mais adequadas ao perfil do empreendimento. Para se ter uma ideia, no ano passado apoiamos a liberação de mais de R$19 milhões em crédito através do NAC.>
Infraestrutura logística ainda é um ponto sensível para a competitividade industrial. Quais gargalos o senhor considera mais urgentes hoje na Bahia e como eles impactam diretamente o crescimento do setor?>
A infraestrutura, em suas diversas dimensões, é um balizador do desenvolvimento, funcionando ao mesmo tempo como um redutor dos custos das empresas e como elemento de atração de investimento. Por isso, precisamos trazer para a Bahia a infraestrutura que ajude a economia a crescer. Falo da infraestrutura de forma ampla. Ainda precisamos melhorar nesta questão e, para isso, é importante que investimentos previstos, tanto na esfera rodoviária quanto nas esferas ferroviária e portuária, sejam concretizados.>
Nós temos, por exemplo, o sistema ferroviário, que é importante para a indústria porque é o transporte adequado para as médias e longas distâncias. Neste aspecto, precisamos avançar com a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), que se juntará à ferrovia de integração Centro-Oeste e que possibilitará o escoamento dos grãos do Oeste da Bahia, do Centro-Oeste, pelo Porto Sul, em Ilhéus, e que permitirá também a expansão da mineração, saindo pelo Porto Sul. Temos ainda a renovação da FCA, que tudo indica ocorrerá, mas que tem que ter parâmetros claros de investimento no estado para que a gente consiga utilizar nosso potencial logístico vinculando o Nordeste ao Sudeste do país, facilitando o escoamento de mercadorias.>
No caso das rodovias, temos a concessão da rota 2 de julho, que vai da BR-324 a BR-116 Sul, no estado da Bahia, também ajudando no processo e na mobilidade de pessoas; a BR-116 Norte, cuja concessão está prevista ainda para esse primeiro semestre. Na área portuária, além do Porto Sul, a expansão do terminal de contêineres do Porto de Salvador e, talvez, uma posterior expansão, vão melhorar as condições de competitividade da economia baiana. >
A Bahia tem outros desafios. Quando falamos de energia, precisamos melhorar o suprimento de energia em algumas regiões que têm crescimento além da média do Brasil, como o Oeste e o Extremo Sul baiano. O estado tem linhas de transmissão previstas, mas é preciso criar subestações que baixem a tensão de energia e permitam, principalmente no Oeste Baiano, a alocação de novos investimentos. Isso é fundamental para o crescimento da Bahia. >
Também temos a questão de água e esgoto. Precisamos de uma solução que possa acompanhar o crescimento demográfico do Estado, oferecendo água e esgotamento sanitário.>
A agenda ESG passou a influenciar decisões de investimento, exportação e relacionamento com grandes mercados. Como as indústrias baianas têm reagido a essa pressão por mais sustentabilidade, governança e rastreabilidade?>
A transição para um modelo de negócios mais responsável já está em curso e essa mudança é visível em toda a cadeia produtiva. Se antes os critérios ESG pareciam exclusividade de grandes corporações, hoje estão cada vez mais presentes também no universo das micro e pequenas empresas. O que era tendência virou exigência do mercado. Grandes empresas já vêm exigindo de seus fornecedores, muitas vezes pequenos negócios, o cumprimento de critérios ambientais e sociais.>
A adoção de práticas ESG contribui para reduzir custos, aumentar produtividade, prevenir riscos e fortalecer a reputação das empresas. Também é importante lembrar que as ações ESG se conectam aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, uma proposta de desenvolvimento global mais justo, sustentável e inclusivo. >
Signatária do Pacto Global da Organização das Nações Unidas desde julho de 2022, e instituição âncora do HUB ODS Bahia - Rede Brasil Pacto Global, a FIEB assumiu o compromisso de promover o engajamento das empresas na adoção de boas práticas sustentáveis. O desafio está não só em trazer a pauta ESG para o dia a dia da indústria, mas de inserir na cadeia de valor, que envolve micro e pequenas empresas.>
A Indústria brasileira já é o setor da sociedade que mais investe em sustentabilidade, buscando utilizar menos e reaproveitar recursos, usando energias renováveis, fazendo logística reversa e diminuindo resíduos nos seus processos. É justamente essa busca que nos leva a adotar práticas sustentáveis de forma integrada. Se queremos que a indústria baiana seja reconhecida pelo seu papel social e ambiental, precisamos continuar sensibilizando as empresas e motivar as pessoas que estão dentro delas a trilharem neste caminho.>
Quando o senhor olha para a indústria da Bahia daqui a 10 anos, qual é a visão de futuro que considera mais desejável para o estado? E quais sinais já mostram que esse caminho começou a ser construído agora?>
O futuro da indústria baiana dependerá, em grande medida, das escolhas feitas no presente. Para os próximos dez anos, o cenário desejável é que a Bahia tenha uma indústria mais moderna, produtiva e sustentável, capaz de agregar mais valor aos seus produtos e contribuir para o desenvolvimento econômico e social do estado.>
Já existem sinais de que esse caminho começou a ser construído. Em vários setores, o processo de modernização já está em curso na Bahia, com o uso crescente de máquinas, tecnologias digitais, automação e novas formas de organizar a produção. Na construção civil, por exemplo, setor historicamente muito dependente de mão de obra no canteiro, já vemos avanços como o uso de peças pré-fabricadas, a construção modular, equipamentos mais modernos e ferramentas digitais para planejar e acompanhar as obras. Também há uma tendência clara de avanço rumo a uma indústria mais sustentável, especialmente em áreas ligadas à bioenergia e à economia de baixo carbono.>
Essa transformação deve ganhar força nos próximos anos. Por isso, é importante que a Bahia se prepare desde já, com investimento, qualificação profissional, inovação e uma atuação conjunta entre governo, empresas, instituições de ensino e sociedade. O objetivo deve ser transformar essa modernização em mais produtividade, competitividade e desenvolvimento para o estado.>
O projeto Indústria Forte é uma realização do jornal Correio, com patrocínio da Acelen, Jacobina Mineração - Pan American Silver, Neoenergia Coelba, Suzano e Unipar, e apoio da Braskem, FIEB e Wilson Sons.>