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Thais Borges
Publicado em 20 de janeiro de 2024 às 05:00
No segundo ano da pandemia da covid-19, a enfermeira Manuela Leal Itaparica, 36 anos, percebeu que a filha mais nova estava com dificuldade em algumas disciplinas da escola. Isabelle, hoje com 10 anos, tinha alguns problemas na leitura e na adaptação para as aulas remotas da época em que as escolas não podiam abrir. >
O olhar atento fez com que a mãe tomasse uma atitude antes mesmo de vir uma nota baixa: ela buscou a Help, uma das empresas de reforço escolar em Salvador. “No início, a professora da escola achou que era a dificuldade geral, mas fui percebendo que tinha algo a mais ali”, lembra Manuela. Isabelle passou a fazer aulas particulares no turno oposto de todas as matérias, também de forma online. Os dois irmãos mais velhos passaram a ter aulas também, mas focadas na conversação do inglês.>
Identificar quando um estudante precisa do reforço pode ser a chave para o aprendizado. Nem todo aluno necessita desse complemento, mas, quando há carência disso, é possível identificar alguns alertas. Seguir com uma dúvida em uma matéria, por exemplo, pode atrapalhar a compreensão de outros temas, como explica a CEO da Help Reforço Escolar, Lara Lopes.>
A primeira nota baixa deve ser um ponto de atenção. “Mesmo que não seja uma nota de média, a gente indica que a família busque ajuda porque significa que alguma coisa não funcionou, para não ficar numa bola de neve”, diz Lara. >
As estatísticas gerais sobre o reforço escolar no Brasil são escassas. Uma das raras pesquisas sobre o tema foi produzida em 2022, pelo Instituto Datafolha, a pedido do Itaú Social, da Fundação Lemann e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mas analisa apenas a realidade de estudantes de escolas públicas do país e deixa de fora os alunos de colégios particulares. Segundo esse estudo, 29% dos estudantes desse universo faziam aulas de reforço.>
A busca pelo reforço - e, portanto, a necessidade dele - independe da modalidade da escola, como destaca a pesquisadora Andreia Gouveia, doutora em Educação e professora da Universidade Portucalense, em Portugal . >
“O dia a dia que a vida impõe aos pais dá pouca margem para acompanhar o estudo dos seus filhos. Alguns não têm nem mesmo essa habilitação de capital cultural e acadêmico e os que têm muitas vezes não têm tempo ou disponibilidade para fazer. O mercado dos cursinhos comerciais também aparece quase como um apoio às famílias na educação dos seus filhos”, completa. >
Autonomia>
Prestes a começar o 6º ano, Isabelle, a filha da enfermeira Manuela, vai continuar com as aulas na Help. Os irmãos mais velhos, de 14 e 16 anos, também vão seguir com o reforço. Só a frequência mudou desde o começo, chegando a só dois dias na semana. O foco, agora, é apenas nas dificuldades. >
“Ela já faz as atividades sozinha. Uma questão que fez toda a diferença é que ela sabe dizer no momento da prova onde está encontrando dificuldade e até onde ela conseguiu ir”, explica a mãe. >
O alerta de que a criança ou adolescente precisa de acompanhamento extraclasse pode vir tanto das famílias quanto dos professores. A nutricionista Michelle Oliveira, 42, lembra de quando a escola chamou a atenção para uma possível dificuldade de aprendizado que a filha Júlia, 12, tinha, ainda no grupo 4. Desde então, Michelle acompanhava com ainda mais atenção. >
“Fui dando conta sozinha, mas, no segundo ano, a psicóloga da escola me chamou para uma investigação e começamos com a neuropsicóloga, e psicopedagoga e a neuropediatra” diz, sobre o momento em que a filha recebeu o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção (TDA). >
Júlia tinha dificuldades para fazer conexões entre as palavras para formar textos. “A partir daí entrei com o reforço e tive todo apoio da escola nessa construção. Tivemos provas adaptadas, acompanhamento da psicóloga da escola e fomos evoluindo cada dia mais”. >
Desde então, ela faz aulas de reforço duas vezes na semana, para Matemática e Redação. Júlia já está matriculada desde dezembro para retornar com a banca este ano, quando vai começar a cursar o sétimo ano. >
“Melhorou muito. Hoje ela já consegue escrever uma redação lindamente. Até me emociono quando lembro da primeira redação e das últimas agora. Ela já consegue estudar assuntos de algumas disciplinas sozinha e já não faz mais as provas adaptadas. Faz em sala separada ainda, por causa da concentração”. >
Diferenças>
Na prática, o período pandêmico escancarou disparidades que já estavam presentes na rotina das escolas. Não é como se mais crianças e adolescentes estivessem precisando de reforço escolar, mas como se as fragilidades do modelo de ensino tradicional tivessem passado a aparecer com mais frequência, especialmente durante as aulas remotas. >
O que acontece, de acordo com a co-fundadora da Monitorias Reforço Escolar, Carolinne Coutinho, é que o ensino nas escolas considera que o aprendizado de cada estudante é igual. “É como se todos fossem de uma forma quadrada, mas tem alunos que aprendem de forma quadrada, redonda, triangular. Cada um aprende de forma diferente e vai chegar o momento em que eles não vão aprender o tanto que deveriam ou da forma que deveriam”, pondera. Ou seja: ainda há estudantes que vão aprender tudo apenas com o que é passado pelas escolas. >
A percepção é parecida com a do CEO da R4 Reforço Escolar, Raphael Lyrio. O horário também é criticado por ele, já que boa parte dos estudantes cursa o turno matutino. “A aula começa 7h da manhã, que é algo claramente imposto pela facilidade de deslocamento dos pais que estão saindo para o trabalho. As salas também são muito cheias. Não tem como um professor, por melhor que seja, conciliar 50 pessoas que pensam diferente, entendem diferente e que às vezes estão cansadas, estão com sono”. >
Por isso, os resultados costumam animar as famílias. A melhora na concentração foi uma das primeiras mudanças que a advogada Dayse Lustosa, 39, percebeu desde que as filhas Sophia, 10, e Melya, 7, passaram a ter aulas de reforço no turno oposto à escola, em 2022. >
A iniciativa da mãe veio justamente ao perceber que o rendimento das garotas não era o mesmo de antes da pandemia. "A professora organiza tudo de acordo com as aulas na escola, tira as dúvidas e explica o que não foi compreendido totalmente em sala de aula", conta. >
Em 2024, elas devem continuar, mas Dayse ainda não sabe se vão escolher uma professora particular que vá em casa ou alguma instituição focada em reforço escolar. "Recomendo para os estudantes que os pais não possam acompanhar as atividades em casa, para crianças que têm déficit de atenção e para crianças que tenham dificuldade de aprendizagem". >
Investimento >
Em geral, os pais reconhecem que é preciso fazer um esforço extra para arcar com os custos do reforço escolar - seja lá qual for a modalidade escolhida. Como as mensalidades de escolas particulares em Salvador podem passar de R$5 mil, entre as mais tradicionais, destinar parte do orçamento para aulas particulares ou extraclasse requer mais organização. >
Para a enfermeira Manuela Leal, cujos três filhos fazem aulas de reforço, trata-se de uma prioridade na educação. “Guilherme está indo para o terceiro ano e a gente brinca que, no ano que vem, tem um a menos”, diz, referindo-se ao filho mais velho. “É uma questão de colocar na ponta do lápis e mostrar para eles que estamos priorizando sempre a educação deles. A gente não quer excelência, não quer que eles só tirem nota 10, mas eles estão cientes de todo o esforço feito pela educação”, acrescenta. >
A dentista Márcia Brianti, 53, também vê o investimento maior como uma forma até de evitar mais custos no futuro. Um de seus filhos, João, 20, acabou de ser aprovado na Escola Bahiana de Medicina após cursar disciplinas isoladas de Física, Redação, Linguagens e Química. Pelo exemplo com o mais velho, a família decidiu matricular o mais novo, que vai começar o primeiro ano do Ensino Médio agora já nas disciplinas isoladas. O caçula também quer cursar Medicina. >
"Tem que investir agora para não ficar anos e anos no cursinho esperando a aprovação. Se a gente espera, acaba gastando mais e tem o estresse caso não seja aprovado. Eu sempre falo que conhecimento é como subir degrauzinho de uma escada. Se subir tudo de uma vez, pode tropeçar e cair", explica.>
Além disso, ela sempre busca formas de conseguir descontos ou de encontrar mensalidades mais acessíveis. Assinar um curso no lançamento, por exemplo, antes do início das aulas, pode significar uma economia de até 50%. A matrícula no início do ano ainda pode garantir todos os outros cursos ofertados durante o ano - como aulões e revisões específicas - sem custo adicional, em alguns casos. >
Inscrever o filho mais novo desde cedo em uma disciplina isolada foi uma medida adotada justamente pelo fato de que Márcia acredita que a preparação para Medicina deve ser diferente. Ela entende, porém, que é raro que estudantes de escola busquem esse tipo de aula tão cedo. O adolescente deve cursar aquelas que têm mais peso no Enem e nos vestibulares.>
Agora, o jovem vai fazer aulas de Redação e também a isolada de Linguagens, que, além de trabalhar com gramática, traz obras literárias que podem servir como repertório sociocultural na redação do Enem. Incluir repertórios faz parte de uma das competências obrigatórias avaliadas para a nota final do texto.>
Matérias isoladas de Redação também costumam incluir correção personalizada dos textos feitos pelos alunos semanalmente. Outra vantagem, segundo Márcia, é que os filhos têm acesso a outros materiais didáticos além dos disponibilizados pela escola. >
"O suporte também é mais individualizado e rápido para dúvidas. Na isolada de Física, o professor oferecia suporte 24 horas. Já teve momentos em que meu filho passou uma dúvida às 2h da manhã e o professor respondeu também às 2h da manhã. A gente nem acreditava, mas eles entram no ritmo do vestibular com os alunos", conta. >
A experiência do filho mais velho, João Brianti, 20, foi crucial para incentivar o outro irmão. Nas isoladas, ele destaca a possibilidade de escolher um professor específico com quem o estudante se identifica mais. "As bancas também são diferentes. O Enem tem uma banca própria e um estilo próprio, a Bahiana tem uma, a Uneb muda muito. Para uma pessoa que quer um vestibular de alta concorrência, é importante ter material de todas para conhecer o padrão".>
Apesar de muitos professores e empresas de reforço escolar terem uma visão mais crítica sobre as aulas da escola tradicional, não há rivalidade entre os dois segmentos. Isso porque o reforço depende da escola para existir, como enfatiza a pesquisadora Andreia Gouveia, doutora em Educação e professora da Universidade Portucalense.>
"Os centros de reforço não podem existir sem a escola. Por outro lado, a escola poderia existir sem os centros de reforço escolar, mas teria que provavelmente alterar sua metodologia de ensino e aprendizagem", afirma. >
Ou seja: para que não fosse necessário existir o reforço escolar, escolas teriam que alterar desde programas curriculares até o tamanho das turmas - o que pode afetar diretamente os custos. No modelo atual, mensalidades de algumas das mais tradicionais escolas particulares em Salvador podem chegar até cerca de R$ 8 mil. "É uma transformação muito complexa", admite Andreia. >
Segundo ela, os professores da escola não veem as aulas de reforço como algo negativo ou concorrente. A relação entre as duas instituições costuma ser de parceria. >
"Os alunos precisam desse reforço para se preparar para as provas e os professores acabam por ver com bons olhos, porque isso também ajuda aquelas turmas a terem resultados positivos e bons alunos a ficar bem colocados nas melhores universidades e nos melhores cursos". >
Ela cita o caso de países como Dinamarca, Suécia e Finlândia, que têm uma procura quase ínfima por aulas particulares em comparação a outros países. >
"Isso acontece porque, em primeiro lugar, o que movimenta o reforço escolar são os exames. Como esses países não têm esse modelo de avaliação de prova única e prova final para todos os alunos, isso faz diminuir abruptamente o número de alunos que vai precisar do reforço escolar", analisa. >
Nesses países, há um investimento alto no modelo de ensino e aprendizagem mais orientado para a individualidade dos alunos. Não é tanto pela metodologia de projetos e programas curriculares focados em exames nacionais para ingresso no ensino superior. >
"Esse é o divisor de águas . Sempre que existem exames nacionais e períodos que antecedem exames nacionais dispara a procura pelo reforço escolar", completa. >