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Maysa Polcri
Publicado em 21 de março de 2026 às 09:00
No século XIX, em meio às matas que hoje integram o Parque São Bartolomeu, existiu um dos mais importantes territórios de resistência negra da Bahia: o Quilombo do Urubu. Localizado na região de Pirajá, em Salvador, o espaço se consolidou como um símbolo de luta, organização comunitária e preservação da cultura africana em território brasileiro. >
Fundado e liderado por Zeferina, o quilombo se destacava não apenas pela resistência à escravidão, mas também pela construção de uma vida coletiva estruturada. Ali, homens e mulheres desenvolviam formas próprias de organização social, econômica e religiosa, mantendo viva a ancestralidade africana. O território abrigava, inclusive, um terreiro de candomblé — elemento fundamental para a reconstrução da identidade negra em um contexto de opressão.>
Registros históricos apontam que práticas religiosas de matriz africana já aconteciam no local à época da sua destruição, evidenciando o papel espiritual do quilombo. Mais do que refúgio, o Urubu era um espaço de pertencimento, onde a fé nos orixás caminhava lado a lado com a luta por liberdade.>
A presença de Zeferina como líder do quilombo chama atenção até hoje. De acordo com o historiador Murilo Mello, esse protagonismo feminino é raro nos registros históricos. “É incomum ter uma mulher na liderança. A gente tem poucos ou quase nenhum relato de uma mulher ser líder de quilombo. Apesar de elas fazerem parte e serem importantes, foram esquecidas. Zeferina não — apesar da pouca documentação, ela existiu e resistiu.”>
Murilo destaca ainda que 2026 marca os 200 anos do principal episódio envolvendo a líder: a resistência de 1826, que terminou com sua prisão. Para ele, o nome de Zeferina deveria ser muito mais lembrado na história do Brasil. “Tem 200 anos que o nome Zeferina ecoa na história do Brasil. Deveria ecoar muito mais.”>
Em dezembro de 1826, o Quilombo do Urubu foi alvo de uma ofensiva policial com o objetivo de destruir o território. Mesmo com armamentos precários, como arcos e flechas, os quilombolas resistiram. Zeferina liderou o enfrentamento e, segundo relatos, foi a última a se render.>
Murilo Mello explica que as poucas informações sobre ela vêm, inclusive, de documentos oficiais da época. Um dos registros mais marcantes relata os gritos da líder no momento da prisão. “Ela gritava com força e fúria: ‘Morra branco, viva preto’. Foi algo que chamou a atenção até do presidente da província da Bahia.”>
Antes disso, Zeferina já articulava ações de resistência em outras áreas, como nas matas do Cabula, onde buscava libertar pessoas escravizadas e fortalecer redes de apoio entre quilombolas, indígenas e fugitivos.>
Diferente da ideia de isolamento, o Quilombo do Urubu mantinha relações com o centro urbano de Salvador. Havia trocas comerciais, culturais e sociais. Os moradores produziam alimentos e sobreviviam da agricultura de subsistência, mas também interagiam com outras regiões da cidade.>
“Os quilombos não eram tão isolados. Existiam relações comerciais e culturais com o centro”, explica Murilo. Essa dinâmica reforça a importância do quilombo não apenas como espaço de fuga, mas como parte ativa da formação social e econômica da cidade. “Representa muito quem é Salvador. Uma cidade construída sobretudo pelos braços femininos, mas que são pouco lembrados.”>
Hoje, o legado de Zeferina permanece vivo, especialmente no Subúrbio Ferroviário de Salvador, onde seu nome batiza um conjunto habitacional escolhido pela própria comunidade. Mais do que uma homenagem, é um ato de resistência e afirmação histórica.>
O Parque São Bartolomeu, além de ser uma das mais importantes áreas de preservação ambiental em área urbana do país, segue como território simbólico dessa memória. Antes dos quilombolas, a região já era habitada por povos indígenas tupinambás — reforçando sua importância histórica e cultural. Do passado ao presente, a trajetória do Quilombo do Urubu e de Zeferina continua ecoando como um lembrete de luta, identidade e resistência.>