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Raquel Brito
Publicado em 29 de novembro de 2023 às 06:00
Há oito anos, durante uma viagem pelo Egito, a oftalmologista Karla Leite percebeu um padrão nos cosméticos nas feiras de rua pelas quais passou: o número de produtos de alisamento de cabelo rotulados como “made in Brazil”, mesmo que não tenham sido produzidos no país. As listas de componentes, que incluíam sempre pastas misturadas com formol, a assustaram; foi nesse momento que ela decidiu desenvolver os seus próprios cosméticos, mais naturais e pautados na sustentabilidade, com foco no público árabe. >
Atualmente, comanda a Flora Brazil Eco Business com Eduardo Teixeira, também médico ortopedista, e Inês Brito, administradora e ex-membro da Federação das Indústrias Estado da Bahia (FIEB). >
A empresa nasceu com a inovação em seus ideais. Além dos cosméticos, projetados sem químicas nocivas e com o uso de materiais orgânicos, como cidreira do mato, pimenta rosa e mel, Karla dedicou sua atenção à demanda pela diminuição do uso de plástico e começou a procurar por embalagens feitas a partir de materiais biodegradáveis. >
O produto já existia, mas outros empecilhos também: nenhum suportava completamente o pH dos shampoos, o que diminuiria o tempo de prateleira dos cosméticos. “A gente queria um produto que fizesse menos mal à saúde. O plástico leva, às vezes, mais de cem anos para se decompor. O valor do nosso material, para quem compraria o plástico, pode sair cerca de 20% mais caro, mas as pessoas optam por ele, por saberem que não vai poluir o meio ambiente”, diz Karla.>
Pela falta de produtos compatíveis, Karla começou os estudos por alternativas ao material e, em parceria com o SENAI Cimatec e com suporte do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), logo as pesquisas tiveram início no laboratório de Materiais do Centro Tecnológico. No total, o custo do projeto do composite foi de R$1,2 milhões, com apoio também da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).>
O primeiro projeto, em 2018, consistia em compósitos com fibra de côco e durou aproximadamente seis meses. Nos projetos subsequentes, outras fibras foram agregadas, com celulose, fibras de sisal, casca de arroz e farinha de madeira. O material foi patenteado e utilizado em duas linhas de cosméticos da empresa, uma delas ainda em comercialização. >
Para que uma embalagem seja considerada compostável, é necessário ater-se a três pontos: biodegradação, desintegração e que não haja ecotoxicidade. Ou seja, o material precisa decompor-se tanto em água, como em dióxido de carbono e biomassa (como ocorre com a celulose, por exemplo), ser indistinguível do composto, sua produção não pode produzir qualquer material tóxico e o composto produzido pode suportar o crescimento de plantas.>
Para Luciano Pisanu, pesquisador da Área de Materiais do SENAI CIMATEC e responsável pela pesquisa que gerou a embalagem, o comprometimento com a sustentabilidade tende a trazer vantagens competitivas para as marcas e refletir na relação com os consumidores. >
“A aderência da sustentabilidade nas empresas estimula a inovação e a criatividade na busca por soluções sustentáveis para os desafios do negócio, aumentando a capacidade de adaptação e resiliência da empresa frente às mudanças do mercado. As ações também tendem a trazer impactos positivos na sociedade de maneira geral, uma vez que podem ajudar a promover o desenvolvimento social e econômico das comunidades nas quais a empresa atua e gerar impactos positivos para o meio ambiente, para a sociedade e para as próprias empresas”, afirma.>
Com direcionamento para o mercado do Egito, a empresa precisou se adaptar para conquistar o público-alvo. Do formato da embalagem até o nome da marca, tudo foi pensado para a exportação.>
“Inicialmente, nós pensamos em um mercado em específico. Foi quase um caminho reverso [risos]. Fizemos uma pesquisa para descobrir o que eles gostavam, como deveria ser o frasco e o nome. Eles queriam uma coisa que lembrasse muito o Brasil, e por isso nomeamos Flora Brazil. Diminuímos a embalagem também, porque eles queriam comprar o produto fracionado, por conta da crise que a pandemia trouxe”, conta.>
Hoje, além do Egito, a Flora Brazil comercializa também para o Catar e em lojas on-line para todo o Brasil.>
O material compostável da embalagem rendeu à Flora Brazil o 1º lugar na 13ª edição do Prêmio FIEB Indústria Baiana Sustentável, em 2021, na categoria Micro e Pequenas Empresas. A premiação permitiu que as pesquisas avançassem: com um aporte de R$1,2 milhões da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), um novo material está em fase de estudos e testes no laboratório do Cimatec. >
Este ano, 95 projetos estão concorrendo na 14º edição da premiação, que acontece no dia 06 de dezembro no auditório da FIEB, no bairro de Stiep. O número de participantes neste ano é 37% superior ao registrado na última edição do prêmio, realizada em 2021. >
Em relação aos projetos desenvolvidos por micro e pequenas empresas, o crescimento é de 150%. “A parceria entre FIEB e Sebrae, com o Núcleo de Serviços, contribuiu para a o aumento da participação das empresas de menor porte. Isso mostra que as empresas do setor industrial, independentemente do tamanho, estão cada vez mais atentas às demandas em relação a padrões de sustentabilidade”, comemora a gerente de Meio Ambiente e Responsabilidade Social da FIEB, Arlinda Negreiros. >
A premiação vai destacar projetos em quatro modalidades: Micro/Pequenas empresas; Práticas de Gestão Sustentável e Responsabilidade Socioambiental; Tecnologias Sustentáveis; e Trabalhos da Academia (pós-graduação) e de Centros de Pesquisas Aplicadas com foco em inovações tecnológicas sustentáveis na indústria. >