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Autora de ‘Persépolis’ morre de 'tristeza' um ano após a morte do marido

Escritora e cineasta franco-iraniana, ela tinha 56 anos e deixou um legado que marcou a literatura, os quadrinhos e o cinema

  • Foto do(a) author(a) Perla Ribeiro
  • Perla Ribeiro

Publicado em 4 de junho de 2026 às 11:01

Autora de ‘Persépolis’ morre de 'tristeza' um ano após a morte do marido
Autora de ‘Persépolis’ morre de 'tristeza' um ano após a morte do marido Crédito: Reprodução

A escritora, ilustradora e cineasta franco-iraniana Marjane Satrapi, autora da aclamada graphic novel Persépolis, morreu aos 56 anos. A informação foi confirmada pela família da artista nessa quarta-feira (4). Em comunicado divulgado à imprensa internacional, familiares afirmaram que Satrapi morreu pouco mais de um ano após a morte do marido, o produtor e cineasta sueco Mattias Ripa, ocorrida em abril de 2025.

Reconhecida mundialmente por transformar sua trajetória pessoal em uma poderosa narrativa sobre repressão, exílio e liberdade, Satrapi foi uma das vozes mais influentes da cultura contemporânea quando o assunto era o Irã, os direitos das mulheres e a defesa da democracia. Sua morte provocou comoção no meio artístico e político, com homenagens de líderes, intelectuais e admiradores em diversos países. O presidente da França, Emmanuel Macron, lamentou a perda e destacou a importância de sua obra para a compreensão do mundo contemporâneo.

Autora de Persépolis morre de 'tristeza' um ano após a morte do marido por Reprodução

Nascida em 1969 na cidade iraniana de Rasht e criada em Teerã, Satrapi viveu de perto um dos períodos mais turbulentos da história de seu país. Ainda criança, testemunhou os acontecimentos que culminaram na Revolução Islâmica de 1979 e a ascensão do regime dos aiatolás. Essas experiências se tornariam a base de sua principal obra, Persepolis, publicada originalmente entre 2000 e 2003.

Escrita em formato de história em quadrinhos e ilustrada em preto e branco, a obra mistura memórias pessoais e acontecimentos históricos para retratar a infância e adolescência da autora em meio à repressão política, às restrições impostas às mulheres e às transformações profundas da sociedade iraniana após a revolução.

O livro conquistou leitores em todo o mundo e se tornou uma referência tanto na literatura quanto nos quadrinhos. Traduzida para dezenas de idiomas, a obra ajudou a aproximar o público ocidental de uma realidade muitas vezes retratada de forma simplificada ou estereotipada.

O impacto de Persépolis ultrapassou as páginas dos quadrinhos. Em 2007, Satrapi levou a história para o cinema ao codirigir a animação baseada em sua obra ao lado de Vincent Paronnaud. O filme recebeu aclamação internacional, conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e foi indicado ao Oscar de Melhor Animação. A adaptação consolidou a autora como uma figura de relevância global e ampliou ainda mais o alcance de sua mensagem sobre liberdade, identidade e resistência.

Além de Persépolis, Satrapi também ganhou reconhecimento por obras como Bordados (Embroideries) e Frango com Ameixas (Chicken with Plums), ambas marcadas por críticas sociais, humor ácido e reflexões sobre a condição humana. Como cineasta, dirigiu produções como Radioactive, cinebiografia sobre a cientista Marie Curie, além de outros projetos voltados para temas históricos e sociais.

Defesa das mulheres e da democracia

Mesmo vivendo na França desde 1994 e naturalizada francesa desde 2006, Satrapi jamais deixou de acompanhar os acontecimentos de seu país natal. Ao longo das últimas décadas, tornou-se uma das principais críticas do regime iraniano e uma defensora ativa dos direitos das mulheres.

Nos últimos anos, participou de campanhas de apoio aos protestos que ganharam força no Irã após a morte da jovem Mahsa Amini, em 2022. Em 2024, coordenou e publicou a obra coletiva Woman, Life, Freedom ("Mulher, Vida, Liberdade"), inspirada no movimento que tomou as ruas do país em defesa dos direitos femininos e contra a repressão estatal. Seu ativismo também se refletiu em posicionamentos públicos contundentes. Em 2025, ela recusou receber uma das mais importantes honrarias da França, a Legião de Honra, em protesto contra a política francesa em relação ao Irã.

Ao longo da carreira, Marjane Satrapi acumulou prêmios literários, cinematográficos e artísticos. Em 2024, recebeu o prestigiado Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades, reconhecimento concedido a personalidades que contribuem significativamente para a cultura e o pensamento contemporâneo.

Mais do que escritora ou cineasta, Satrapi se tornou uma ponte entre culturas. Sua obra ajudou milhões de leitores a compreenderem as complexidades da sociedade iraniana e deu visibilidade às histórias de mulheres que enfrentam opressão, censura e violência.

Com sua morte, a literatura, os quadrinhos e o cinema perdem uma de suas vozes mais influentes. Seu legado, porém, permanece vivo nas páginas de Persépolis e em toda uma geração de leitores que encontrou em sua narrativa um poderoso testemunho sobre identidade, liberdade e resistência.