A boemia mudou de endereço: cultura e gastronomia transformam Santo Antônio

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18.01.2020, 05:30:00
Santo Antônio e Carmo vêm se rendendo à boemia (Betto Jr./CORREIO)

A boemia mudou de endereço: cultura e gastronomia transformam Santo Antônio

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O relógio crava seis e meia da tarde de uma quarta-feira. Da mesa de um dos bares espalhados pelo Largo da Cruz do Pascoal – monumento considerado o marco que divide o Carmo do Santo Antônio Além do Carmo – percebe-se que a cena local começa a mudar. Moradores passeiam tranquilamente pela rua com seus cães em meio a um monte de gente que chega de outros lugares. Desacostumados com a geografia local, os visitantes driblam as irregularidades do chão de pedra e seguem animados em direção à Rua dos Marchantes, que fica ali em frente à famosa cruz.

Do alto da sacada de um dos belos casarões que enfeitam a região, o ucraniano Artem Kildishev acompanha a movimentação. “Não vai descer?”, grito lá de baixo. “Bem que queria, mas amanhã vou trabalhar”, responde o funcionário do Hotel Fasano, que há mais de um ano se mudou para o bairro.

O garçom Antônio Santos Oliveira conta que o rebuliço é por conta da movimentada festa que Vinícius Passarinho e Liza Araújo promovem, há mais de cinco anos, num casarão que batizaram de ABOCA (Associação Baiana e Observatório de Cultura e Arte).

Seguimos o fluxo. Antes de chegar ao casarão com fachada de pedra e luzes vermelhas, já avistamos uma enorme fila para entrar. Lá dentro, centenas de pessoas se acotovelam para vivenciar uma experiência inusitada que vai de performance musical de artistas locais à degustação de uma das melhores pizzas da cidade. Mas, essa é uma história que merece ser contada à parte. Foi o que fizemos aqui.

ABOCA ferve às quartas-feiras num casarão antigo
(Foto: Betto Jr./CORREIO)

Fato é que o bucólico e histórico bairro, antes predominantemente residencial, está se rendendo à boemia. Título, aliás, que durante muitas décadas era exclusivo do Rio Vermelho. A diferença entre os dois é a bossa. Não que um tenha mais do que o outro. Não. Cada um tem lá o seu charme, mas o Carmo e Santo Antônio, são, digamos, especiais.

Bossa
Afinal, onde mais tem um restaurante que abre no dia em que dá na veneta dos donos? Em tese, a casa só fecha segunda e terça-feira, mas isso pode mudar, a depender da vontade de Dona Dora e de Ademir, que comandam o D´Venetta, um espaço pra lá de charmoso que fica na Rua dos Adobes e que tem uma comida de lamber os beiços. A feijoada de mariscos é uma das boas pedidas. Só pra ressaltar, a iguaria fica bem melhor com Tião, a cerveja artesanal produzida na casa.

É. Carmo e Santo Antônio são dois, mas quando se juntam tornam-se um só. Se, no primeiro – onde vivem os famosos e abastados –, a conversa entre os moradores é de que ali reside o glamour e, mais adiante, o resto, os visitantes entendem que ambos se completam.

“Não consigo ver diferença, um é a continuação do outro, o que garante o charme numa porção maior”, diz a publicitária gaúcha Helena Ramazzin.

Enquanto no Carmo o visitante se depara com um charmoso café que tem dois preguiçosos felinos – Pintada e Antônio – dividindo a função de anfitriões com o proprietário do Cafelier, no caso o artista plástico Paulo Vaz, no Santo Antônio tem um padre, Ronaldo Magalhães, que virou nome de samba. Mas, pera! O pároco não tem samba no pé e nem gosto pela farra.

Podcast: ouça os bastidores do 'inferninho' do ABOCA

O único evento que ele comanda de fato no espaço de festas da Paróquia de Santo Antônio é uma feijoada beneficente que é realizada todo mês de setembro para ajudar na manutenção da igreja. No resto do ano, o lugar é alugado para eventos como o Botequim, que ficou conhecido como Samba do Padre. Tudo promovido por terceiros, mas a fama ficou com o pároco. Coisas da Bahia profunda que alimentam o anedotário popular.

Visitantes e moradores tomam as ruas do Carmo, que começa a mudar de ares
(Foto: Betto Jr./CORREIO)

Experiências
Samba, chorinho, jazz, música popular. Em diferentes dias da semana, tem sempre algo bacana acontecendo por lá. Ao longo da semana, tanto o Carmo quanto o Santo Antônio oferecem experiências que podem agradar a gregos e baianos. Não bastasse a variedade de opções para curtir a noite, o visitante ainda pode ser surpreendido com alguma agitação que não costuma estar nos roteiros culturais dos jornais: de desfile de blocos locais a boas experiências gastronômicas.

Isso sem alterar o ritmo bucólico dos que escolheram viver lá. Claro que essa combinação entre o, digamos, sagrado e profano, tem que andar em harmonia. Mas é controverso. Há quem aplauda, quem tenha reservas e há quem repudia essa transformação. Mas é essa mistura, dizem os analistas por lá, que tem atraído cada vez mais moradores para o bairro. De artistas a pessoas ilustres, de empresários a intelectuais que se identificam com a calmaria e o charme do lugar.

Novos para nós
Morador e empresário dos ramos de decoração, arte e antiguidades no bairro do Rio Vermelho, Nino Nogueira acabou de se render ao Carmo. Desde o começo do mês passado, ele instalou ali uma filial de sua loja, a NN Arte Plural, e aposta que a área vai se transformar num Marais (bairro boêmio de Paris).

“O Rio Vermelho vem perdendo a coisa da boemia e se configurando como um lugar de balada, enquanto que o Carmo tem todo esse charme histórico e vocação para o entretenimento e para as artes em geral”, diz Nino Nogueira.

Foi essa vocação que levou os artistas plásticos Isa Oliveira e Leonel Mattos a escolherem o bairro para morar e instalar seu atelier. O espaço, que tem varanda com vista-mar, é aberto ao público e palco de farras gastronômicas, graças ao talento da artista também na cozinha. Quase todos os finais de semana, eles promovem eventos por lá. As reservas são feitas pelas redes sociais e chegam à lotação máxima rapidinho. Isso porque a comida é boa e o preço justo. A varanda é coberta por uma parreira e exala um perfume natural de jasmim de uma trepadeira que carrega o bucólico nome de Jasmim dos Poetas.

A ideia do casal de abrir a casa para o público surgiu durante o Festival Sobe e Desce, evento que acontece durante todo o mês de novembro, reunindo moradores e empresários do bairro que oferecem pratos com uma taça de vinho por módicos R$ 30. “Foi assim que nasceu nossa Varanda Gourmet. As pessoas gostaram da minha lasanha, depois fui fazendo feijoada, comida baiana, aí o negócio deu certo”, conta Isa. Tudo isso, com o charme do serviço personalizado feito pelos donos da casa e o auxílio dos vizinhos que são convocados, ou aderem voluntariamente.

Difícil destacar aqui toda a diversidade que mora no bairro. Mas, é impossível não se render ao charme do lugar. Afinal, onde mais as pessoas ainda colocam a cadeira na calçada para uma boa prosa ou simplesmente para ver a vida passar?

Mas, a população alerta: é preciso respeitar horários e a vocação natural do bairro, que é a moradia. O empresário Marcelo Sá, que há um ano mudou para o Carmo, diz:

"É bom ter tudo isso aqui, mas é preciso ter cuidado para que não haja excessos, porque o Santo Antônio é um bairro residencial", frisa Marcelo Sá.

Bairro é residencial, mas reúne opções de cultura e gastronomia que atria visitantes
(Foto: Betto Jr./CORREIO)

Qualquer coisa que se diga sobre o bairro não ilustra de fato a sua grandeza. É preciso ir lá e vivenciar o que a região tem para oferecer. Mesmo assim, preparamos uma listinha com dez lugares imperdíveis para quem planeja visitá-lo. Que nos perdoe Nossa Senhora do Carmo e o glorioso Santo Antônio, santos de protegem o bairro de uma ponta a outra, se formos, e certamente seremos, injustos.

1. Igreja do Santo Antônio

Quinzenalmente, às sextas-feiras, acontece na área de eventos da igreja o samba do padre, promovido pelo grupo de samba Botequim. Neste sábado (18), às 18h, acontece também  por lá o ensaio do Bloco De Hoje a Oito. Informações sobre a programação pelo telefone (71) 3242-6463.

2. Espaço Cultural D´ Venetta

Em tese, só fecha às segundas e terças-feiras, mas como o nome já diz... O restaurante tem bela decoração e cardápio simples, mas bem executado. Escolha uma mesa na varanda ou no quintal. Rua dos Adôbes, 12. Tel. (71) 3243-0616 .

3. Cafelier

Um dos mais charmosos e concorridos espaços do bairro é o Cafelier, comandado pelo artista plástico Paulo Vaz. Além de apreciar a vista da Baía, deve-se degustar um dos melhores carpaccios da cidade, tomar um café ou uma das comidinhas oferecidas no enxuto cardápio, enquanto aprecia as belas obras de arte e antiguidades que decoram o espaço. Rua do Carmo, 50. Tel. (71) 3241-5095.

4. ABOCA Centro de Artes

O lugar mais underground do bairro é apertadinho, escurinho, mas muito animado. Funciona diariamente das 18h às 2h, com exposições, workshops, intercâmbios artísticos etc. A pizza é uma das melhores da cidade. Rua dos Marchantes, 12. Mais informações: (71) 2137-6808

5. Bar Cruz do Pascoal

Cenário de várias produções de TV e Cinema, funciona há mais de seis décadas e tem pátio com vista pro mar. Mas, é na calçada a maior agitação, onde se mistura com outros bares vizinhos. A carne de sol com pirão de aipim já virou tradição.

6. La Tasca Atelier Gastronômico

Comandada por Milena Palácios e cardápio de Juliano Cardozo, a casa é bem pequena, mas muito concorrida. Especialmente às sextas e sábado, a partir das 18h, quando são servidas umas empanadas que provocam fila na porta. Rua Direita, 127. Reservas (71) 99113-5533 (Whatsapp).

7. A Casa Mia

O chef Alessandro Narduzzi só abre as portas de sexta a domingo, a partir das 18h. Além do cardápio de pizzas, tem, vez por outra, sua famosa porchetta que é de arrepiar. Rua Direita, 432. Tel. (71) 98812-3939

8. Casa Boqueirão

Uma loja colaborativa, linda de viver. Tem peças de design, objetos de arte e decoração, roupas, acessórios e uma infinidade de coisinhas garimpadas com capricho pelo artista visual Alfredo Gama e a arquiteta Tânia Póvoa. Tem ainda um café com delícias e um anfiteatro com uma programação interessante. Bom checar o que está rolando no dia. Rua Direita, 56. Tel. (71) 99983-2484.

9. Cadê Q´Chama?

O restaurante passa meio despercebido pelas pessoas. Mas, se tiver ali entre o almoço ou jantar, não deixe de experimentar o ensopado de carneiro que é de enlouquecer. Rua do Carmo, 21. Tel. (71) 98637-8873.

10. Santo Plano

Na área interna, ou na calçada, o bistrô tem boa relação custo-benefício. O gim tônico importado sai por R$16 e a porção com quatro generosos mini hambúrguers custa R$ 22. Rua do Carmo, 25.

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