A chefia aperta sua mente? Saiba quando e como dizer NÃO no trabalho

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06.06.2022, 06:00:00
Dominar a arte de dizer ‘não’ é bem desafiador, especialmente se o pedido vem de chefes ou superiores (Shutterstock/reprodução)

A chefia aperta sua mente? Saiba quando e como dizer NÃO no trabalho

O problema é que as pessoas associam negativas à rudeza e má vontade.

Não é não. Geralmente, diante de uma negativa, a reação natural é julgar que se trata de uma atitude rude, egoísta, antipática. Saber usar o ‘não’ de forma assertiva e em momentos específicos, não só é importante, como também é saudável, pois estabelece os limites fundamentais para manter o equilíbrio nas relações pessoais e naquelas que envolvem o trabalho. O Correio ouviu especialistas para mostrar algumas dicas para dizer não com mensagem simples, pautada por respeito e empatia no ambiente de trabalho. 

De acordo com a psicóloga do Trabalho, atuando como Business Partner em empresas Nacionais e Multinacionais, Danielle Moura, desde muito cedo fomos privados a um treinamento eficaz para lidar, de forma hábil, com o não. “Quando pensamos na cena de uma criança desbravando o mundo, com toda sua energia e psicomotricidade, presenciamos pais dizendo não de forma aversiva e/ou punitiva, sem explicação.  Dessa maneira, tendemos a associar o NÃO a sentimentos negativos, rejeição e aversão”, esclarece.

A psicóloga Danielle Moura lamenta que as culturas organizacionais ainda associem o 'não' ao poder dos superiores hierárquicos e se cristalizem no medo (Foto:Bárbara Malvar/Divulgação) 

Danielle explica que no mundo do trabalho essa compreensão não é diferente, especialmente, naqueles ambientes altamente hierarquizados. “O NÃO só pode vir do chefe, nós enquanto “empregados” acreditamos que devemos falar sempre SIM, como garantia do nosso emprego. Com esse cenário sendo perpetuado, vamos criando uma mentalidade rígida a não praticar o uso do NÃO nas organizações”, afirma a psicóloga.

Prioridades

Apesar do contexto cultural que dificulta o uso de negativas, o  professor do curso de Psicologia da Unijorge, Mino Rios salienta que o mundo está cada vez mais complexo.” Nesse cenário, é importante reconhecer que o perfil do trabalhador vem mudando, sendo demandado há algum tempo um indivíduo cada vez mais qualificado, proativo e comprometido. Essa mudança, no entanto, não pode se dar de maneira isolada: é imprescindível gerir adequadamente esse profissional”, afirma.

Mino Rios destaca que o profissional competente e comprometido deve estabelecer limites de acordo com a própria expertise na área de atuação (Foto: Divulgação)

Mino Rios diz que desse profissional mais qualificado e comprometido, é esperado que se conheça mais as especificidades do contexto e da tarefa, precisando ser ouvido quando estabelece limites. “Além disso, também é importante entender outros limites, como os de natureza pessoal, que têm impacto na qualidade dos resultados. Pense, por exemplo, que nas funções onde existe contato com outras pessoas, o estresse do prestador tende a prejudicar a qualidade dos resultados diretamente”, enfatiza o professor, pontuando que, mesmo em circunstâncias onde não exista contato interpessoal mais amplo, falhas tendem a ocorrer mais, com prejuízos para todos. Rios lembra que naturalizar as pressões e ignorar seus efeitos pode cobrar um preço para trabalhadores, organizações e clientes. 

Sócio diretor na Crescimentum e consultor de carreira, o administrador Danilo Porto afirma que é possível e necessário dizer não nos ambientes corporativos. Nas sessões de mentoria oferecidas por ele há um trato para quando é dito: ‘eu não tenho tempo pra isso e nem para aquilo’, que consiste em trocar a frase, do ‘não tenho tempo’ por ‘não é prioridade’. 

“Então, se alguém me fala ‘não tenho tempo para me exercitar’, então fica ‘não tenho prioridade para me exercitar’, ‘não tenho tempo pra minha família’ então fica ‘não é prioridade a minha família’”, diz, pontuando sobre o peso dessa troca. 

Para o consultor, à medida que se sabe o que é prioridade, passa ser possível dizer não, passa ser necessário até que se diga sim para aquelas coisas que são mais essenciais. “O grande ponto é o quanto as pessoas estão sabendo, de verdade, quais são as suas prioridades para dizer sim para aquilo que é essencial, e não para aquilo que não importa”, destaca. 

Diálogo com o Não

Danilo lembra que quando a chefia solicita alguma coisa e o funcionário se nega, se abre a possibilidade que essas prioridades sejam modificadas. “Em uma relação de subordinação saudável, o líder alinhou a expectativa, deixou claro quais são os objetivos para aquela pessoa e, a partir daí, aquela pessoa passa a executar determinada tarefa, levando em consideração o que foi alinhado”, ilustra, pontuando que o problema reside na falta de alinhamento e não há uma relação de confiança necessária para que se possa dizer ‘não’ ao líder. 

“Então se a gente pensar em condições normais de pressão e temperatura de liderança, temos um chefe que alinha expectativas, estabelece uma relação de confiança, confia na capacidade do colaborador em fazer algo, e confia até no julgamento dele em relação ao seu horizonte de tempo para fazer alguma coisa e a sua condição de capacidade”, completa. 

Danilo Porto destaca a importância do diálogo para que o 'não' esteja desvinculado de receios, inseguranças e rejeições (Foto: Divulgação

Para Danilo Porto é fundamental compreender a diferença entre a decisão e o relacionamento. “As pessoas acreditam que o ‘não’ dito para outra pessoa, na realidade, significa ‘eu não gosto de você’, por não assumir uma tarefa, faltar a um convite”, reforça, lembrando que as negativas carregam os medos que operam na vida de um modo em geral e que estão vinculados à rejeição, inseguranças e o temor de ser ignorado.

Danielle acredita que dialogar com o ‘NÃO’ é uma excelente alternativa, seja você o emissor ou receptor dessa negativa. “Costumo dizer que toda vez que dizemos SIM ao outro, estamos dizendo NÃO a nós mesmos. Com essa premissa, acredito que o como comunicar o NÃO irá fazer toda diferença na relação com o outro, seja ele seu chefe ou não”, defende. A psicóloga vai além e diz que  balizar o posicionamento de SIM ou NÃO pela hierarquia do interlocutor pode vir a comprometer a prática em naturalizar as negativas. 

Limites 

A psicóloga defende que praticar o uso do NÃO deve ser algo continuo e, para tanto, é preciso ter propriedade e domínio em temas da área corporativa que atua e está alinhado com os princípios da empresa. “Essas são estratégias que tendem a auxiliar no exercício de limites saudáveis diante de algumas negativas no ambiente corporativo. A partir do momento que temos segurança para praticar o NÃO de forma propositiva, colaborativa e construtiva, os limites serão estabelecidos de forma natural e relacional”, defende Danielle.

Para facilitar a negociação, Mino Rios sugere, inicialmente, estabelecer e pactuar com clareza os objetivos do trabalho. “Em diversas circunstâncias, negar alguma coisa não compromete necessariamente os objetivos. Envolve apenas um remanejamento, buscando atingir as metas, mas preservando o bem-estar dos envolvidos”, explica. 

Para o psicólogo, essa estratégia se mostra altamente vantajosa, sobretudo em momentos de alta imprevisibilidade como o atual. “O desenvolvimento de redes, tanto em termos de comunicação mais eficiente, quanto em termos de redes de suporte e trabalho em equipe facilita o suporte coletivo, dando flexibilidade para dar conta das tarefas que sejam de fato inadiáveis, ao mesmo tempo em que se possibilita negociar as que são possíveis negociar”, sugere.  Mino Rios diz que, em linhas gerais, a comunicação, foco nas tarefas e planejamento facilitam para essas negociações.

Dicas para evitar situações embaraçosas na de dizer ‘Não’.  
 
•        Tenha objetivos e foco: saber aonde quer chegar, além de tornar o caminho mais fácil, também ajuda a delimitar seus esforços. Por exemplo: caso queira bater uma meta muito específica, em determinado espaço de tempo, qualquer tarefa distinta pode atrapalhar alcançar seu propósito.  

•        Escute com calma, fale com clareza: se algo lhe foi pedido, certamente o interlocutor acredita na sua capacidade em executar a tarefa. Explique por que não será possível aceitar a solicitação. Normalmente, é por estar fora de seu escopo de atuação. Não há mal nenhum em dizer isso, desde que feito de forma calma e respeitosa. 

•        Negocie: Colocar limites muitas vezes implica em adquirir essa habilidade. Se a demanda é algo que você gostaria de realizar, acredita ser algo estratégico para o desenvolvimento de sua carreira, vale a pena negociar o prazo, escalonar ou readequar o formato da entrega. 

•        Proponha soluções e saiba delegar: na impossibilidade de resolver por si só a questão, procure ajudar quem te procurou. Há alguém mais que poderia realizar essa tarefa? Essa solicitação pode ser uma boa oportunidade para refletir se o que você está fazendo poderia ser feito por outra pessoa e, entender essa dinâmica, ou seja, saber delegar, evitará possíveis desgastes. 

•        Avalie seus próprios motivos: ao declinar o pedido, ajuda, ou solicitação, pense bem no que o motivou a ter essa postura. Tenha claro que você está dizendo não para essa ou solicitação, mas está dizendo sim para outras. Há pessoas contratadas para isso, que não seja você? Seu dia já está tomado por outros compromissos? Você não tem autonomia para resolver isso sozinho? Essas são situações corriqueiras e um bom gestor entenderá o cenário, se for bem explicado.  

(Fonte: Cândida Semensato, presidente da International Coaching Federation – ICF Brasil)

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