Apesar de suspeita de variante indiana na BA, Anvisa não definiu protocolos de controle

salvador
28.05.2021, 11:18:00
Atualizado: 28.05.2021, 11:46:46
(Divulgação/Sesab)

Apesar de suspeita de variante indiana na BA, Anvisa não definiu protocolos de controle

Órgão responsável, Anvisa não notificou aeroporto para acompanhamento de passageiros

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Oito dias após a confirmação da cepa indiana ter chegado ao Brasil, que ocorreu na última sexta-feira (21), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda não definiu os protocolos de controle a serem tomados pelos estados. O CORREIO teve acesso a um documento exclusivo de uma ata de uma reunião da Anvisa feita, na anteontem (26), com os Cievs dos estados e capitais brasileiras, na qual se discutiu possíveis medidas a serem adotadas.  

O Cievs Bahia participou do encontro, realizado de forma online. A Agência confessa a “necessidade de intensificação das medidas sanitárias em aeroportos” e da adoção de “procedimentos e medidas sanitárias a nível nacional e local”. Contudo, nem os dados dos passageiros a agência tem conseguido obter.  

No aeroporto de Salvador, segundo a empresa responsável pela administração, não houve orientações de órgãos competentes de novas medidas para serem aplicadas. Previsto para hoje (28), existem dois voos diretos vindos do Maranhão e seis do Rio de Janeiro, três estados onde já se sabe que há presença da nova variante. São sete casos no total, segundo o Ministério da Saúde. Outros três suspeitos são monitorados, em Minas Gerais e no Pará. Os casos no Distrito Federal e Ceará foram descartados.  

Sobre as rodoviárias, a Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab), alega que, como não há circulação nacional da variante da Índia, pois os suspeitos e confirmados estão em quarentena, não há motivo para impedir que passageiros adentrem a Bahia ou que seja feito algum tipo de monitoramento. 

Segundo a ata da reunião da Anvisa, o gerente-geral da Gerência-Geral de Portos, Aeroportos, Fronteiras e Recintos Alfandegados (GGPAF), Nélio Aquino, encontrou “dificuldades de obtenção de dados de viajantes (contactantes e suspeitos) e questionou o CIEVS como agir nesses casos, no que a Anvisa pode ajudar”. Aquino ainda citou que o Sistema Brasileiro de Antecipação de Informações de Passageiros (Sisbraip), que controlaria e reuniria essas informações, ainda não está disponível.  

Outros participantes da reunião relataram dificuldade em obter dados de passageiros com as companhias aéreas. “Algumas empresas alegam que necessitam consultar o departamento jurídico antes de fornecer as informações. [...] Em alguns casos, os dados de contato dos passageiros correspondem aos dados de empresas de turismo e não dos viajantes”, diz o documento. 

O responsável pela vigilância de Florianópolis adicionou que há “relutância das empresas aéreas que fornecem dados incompletos ou atrasados”. A vigilância de São Paulo pontuou a “fragilidade do protocolo de quarentena quando o exame é realizado no laboratório na área do aeroporto”, o que faz com que eles percam localização do passageiro. Os representantes de Minas Gerais e Distrito Federal sugeriram o estabelecimento de protocolos mais claros e padronizados.  

O governo de Rondônia, por exemplo, publicou um decreto em que torna o preenchimento do formulário obrigatório para viajantes que chegam ao estado. A responsável pelo Cievs de Florianópolis aconselhou a criação de formulário a nível nacional para facilitar o rastreamento de passageiros e possibilitar as instruções de isolamento. 

O gerente-geral do GGPAF destacou que, se houver suspeita ou confirmação de algum caso, o plano de contingência do aeroporto deve ser acionado, onde, neste caso, o passageiro receberá atendimento médico em caso de sintomas. Para ele, a única forma de se evitar a chegada de variantes em qualquer país é a restrição de entrada de viajantes provenientes de território estrangeiro em território nacional, ação esta que não é de competência da Anvisa. 

Ainda segundo a ata da reunião, a Anvisa agendará uma conferência com as companhias aéreas para articular o fornecimento de dados mais completos sobre os passageiros. Ela pretende articular com órgãos governamentais de controle de fronteira o recebimento dessas informações.  

O documento aponta também que a agência proporá aos ministros a revisão da portaria 653/2021 e protocolos mais rígidos para a quarentena. A portaria, publicada no dia 14 de maio, restringe a entrada de estrangeiros de qualquer nacionalidade, por rodovias, por outros meios terrestres ou por transporte aquaviário. 

Lacen sequencia amostra de suspeita variante indiana 
Para descobrir se a variante indiana da covid-19 chegou à Bahia, a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), através do Laboratório Central de Saúde Pública da Bahia (Lacen-BA), vai sequenciar a amostra da saliva de uma mulher suspeita de ter a contraído o vírus, em Alagoinhas.

A baiana, de 56 anos, morreu, na última terça-feira (25), após testar positivo para covid-19. Ela veio para a Bahia no dia 12 de maio, após passar três meses no Maranhão, primeiro estado do Brasil onde foi confirmado a presença da nova cepa. Segundo especialistas, ela pode ser mais transmissível e mais letal que o novo coronavírus.  

Segundo a Sesab, para o Centro de Informações Estratégicas e Resposta em Vigilância em Saúde (Cievs) estadual e nacional, entidades vinculadas à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que fazem o monitoramento, a mulher não é contactante dos casos da variante indiana no Maranhão. 

“Como a morte foi abrupta, a amostra da paciente será sequenciada pelo Lacen-Bahia, apesar de todos os indícios apontarem para a variante P.1. Portanto, a Sesab está monitorando sim, contudo, não há novos casos suspeitos da variante indiana na Bahia”, informa a pasta.  

A P1 é a variante de Manaus, que é a predominante no território baiano no momento, assim como em todo o Brasil. Ao todo, 21 variantes circulam na Bahia, sendo quatro de preocupação, que causam efeitos mais graves, segundo último boletim técnico do Lacen, publicado no dia 11 de maio.  

Leia mais: Caso suspeito de variante indiana é monitorado em Alagoinhas

Contudo, a para a Vigilância em Saúde de Alagoinhas (Visau), o caso é sim motivo de preocupação. “Os familiares que ela teve contato seguem monitorados. Será realizado hoje à tarde teste RT-PCR em todos os contactantes, que seguem em isolamento. Nenhum deles apresentou sintomas, mas é protocolo testar os contactantes”, explica diretora da Visau, Telma Pio. 

Outro caso suspeito em Alagoinhas, de um baiano que estava no grupo do brasileiro que veio da Índia no último final de semana, foi descartado. Segundo Telma Pio, ele foi testado três vezes e todos os resultados deram negativos. Contudo, ele continuará sob monitoramento por 14 dias.   

O secretário da saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas, reforça que ainda não há casos da variante no estado baiano. “Não temos ainda a identificação até o presente momento, mas isso não é garantia de que ela não virá. Já há relatos de prováveis entradas em outros estados que estão sendo investigadas”, afirma Vilas-Boas.  

Para o titular da Sesab, não há como impedir que a variante da Índia chegue à Bahia. “Infelizmente, o planeta hoje é global. Você não tem como fechar, ainda mais um país como o Brasil, com múltiplas entradas, com fronteiras não monitoradas, é virtualmente impossível. O que a gente precisa fazer é tentar conter o vírus, pelo prazo mais longo possível, nos locais onde forem evidenciadas as suas aparições. Com isso, a gente retarda a transmissão dele, mas tornar sua transmissão inexistente, é impossível”, alerta o secretário. A variante indiana já está presente em 53 países.  

Como conter uma variante 
Para o imunologista Celso Sant’Ana, professor da UniFTC, assim como disse o secretário da saúde da Bahia, Vilas-Boas, é quase impossível impedir que a cepa indiana chegue ao estado baiano. Por isso, é preciso adotar medidas de redução de danos. Segundo ele, o primeiro passo para se conter uma variante é fazer seu sequenciamento genético, o que está em curso pelo Lacen.  

“Depois de sequenciar, que é algo que tem sido feito muito pouco no Brasil, é preciso controlar a entrada e saída de aeroportos, rodoviárias, identificar os casos suspeitos, isolar as pessoas, verificar todos os contatos que ela teve. Se possível, aumentar a vacinação naquele lugar e a testagem, para se ter uma ideia de quantas pessoas estão ainda com o vírus e quantas se recuperaram”, esclarece Sant’Ana.  

O professor também explica que não devem ser testadas somente aqueles com sintomas, o que ainda é o protocolo na Bahia. “A quantidade de pessoas assintomáticas, do ponto de vista do controle da doença, é muito grave. A gente não pode se basear em taxa de ocupação de leitos de UTI para traçar diretrizes, é preciso rastrear o vírus numa quantidade grande de pessoas, além de manter as medidas de distanciamento, uso de máscara”, pontua.  

Sant’Ana também defende que o Brasil virou “um celeiro de variantes”. “Temos um alto número de pessoas circulando com o vírus, com um baixo índice de vacinação, o que faz com que o vírus drible o sistema imunológico e sobreviva. Ele muda seu sistema viral para sobreviver mais tempo e se transmitir de uma forma maior, e pode acabar ou diminuir a proteção a vacina. Com a chegada dessa nova cepa, aumentou muito o número de casos e essa combinação de fatores traz preocupação para o sistema de saúde”, alerta.  

Além de tentar diminuir a circulação do vírus, é imprescindível que se vacine o maior número de pessoas no menor período de tempo possível, de acordo com o especialista. Ele ainda diz que o provável é que a cepa indiana já esteja na Bahia, mas, por conta da demora com o sequenciamento genético, ainda não é possível afirmar com certeza.  

“Não temos um sistema de vigilância para identificar as variantes na velocidade que precisava, então com certeza os novos sequenciamentos desses novos casos já devem aparecer a nova cepa, em cerca de 15 dias. É muito difícil que estejamos livres. Ela provavelmente já está circulando, mas ainda não foi identificada”, defende Sant’Ana.  

Procurada, a Anvisa, mais uma vez, não respondeu ao CORREIO antes do fechamento da matéria. A Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia (Agerba) também não enviou resposta, nem a empresa Sinart, responsável pelo Terminal Rodoviário de Salvador.  

 *Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro 

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