Cientistas projetam novas 3 mil mortes por covid na Bahia até junho

coronavírus
21.04.2021, 05:00:00
(Paula Froes/CORREIO)

Cientistas projetam novas 3 mil mortes por covid na Bahia até junho

Se houver expressiva redução no contágio, número de novos óbitos será 63% menor

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A pandemia está longe de ser controlada na Bahia. Novas 3 mil mortes por covid são projetadas para acontecer no estado até 12 de junho de 2021, segundo os dados do Portal Geocovid, liderado por cientistas da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). O cálculo feito leva em conta uma série de dados e parâmetros epidemiológicos, como a taxa de infecção, tempo de internação e o número diários de casos e óbitos de todas as cidades brasileiras.  

Atualmente, o ritmo de contágio (Rt) da covid-19 na Bahia é de 1,03, ou seja, cada 100 doentes podem contaminar outras 103 pessoas. Nessa velocidade, os cálculos mostram que mais de 159 mil novos casos de covid serão diagnosticados na Bahia nos próximos dois meses. Isso vai fazer com que o estado chegue no início de junho com 1 milhão de contaminados e 20 mil mortos, no total. Essa quantidade de óbitos já é superior à população de cinco cidades baianas juntas.  

Caso haja uma aceleração na taxa de contágio nos próximos das, a tragédia pode ser ainda pior: 432 mil novos casos e 7,3 mil novas mortes até 12 de junho. Já se a contaminação diminuir, com o uso de máscara, distanciamento e aceleração da vacinação, a Bahia terá apenas mais 35 mil casos e 1,1 mil mortes nos próximos dois meses, o que evitaria que atingíssemos a marca de 1 milhão de contaminados.  

Segundo Mateus Souza da Silva, estudante da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e pesquisador do portal, são inúmeras bases de dados coletadas diariamente, associadas a um conjunto de técnicas de modelagem de dados, que permitem os cientistas descreverem o comportamento da pandemia no futuro. “A gente sempre utiliza no cálculo os dados mais novos possíveis. Por isso, fazemos um esforço diário de atualização da plataforma”, garante.  

Tudo isso só funciona com a parceria do grupo com outras instituições, com o Senai Cimatec, a rede Mapbiomas Brasil e o Portal Brasil IO. Além dos cientistas da Ufba e da própria Uefs, que lidera o projeto, há a presença de pesquisadores da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) e Instituto Federal da Bahia (Ifba).  

“O grupo já existia antes da pandemia, focado nas questões ambientais de queimadas e incêndios. Com a covid, pegamos uma tecnologia de monitoramento ambiental e adaptamos com a modelagem criada pelo pessoal da Ufba. Com o tempo outros pesquisadores foram sendo agregados”, conta o professor Washington Franca-Rocha, coordenador do projeto.  

Leitos 
Com base nos prováveis números futuros de casos e óbitos, o grupo também consegue projetar a demanda por leitos de UTI e enfermaria na Bahia com diferentes cenários de velocidade de contágio. Se mantido como atualmente, 543 leitos de UTI e 1,2 mil leitos de enfermaria serão precisos em 12 de junho, mas se o estado consegui reduzir a contaminação, os números vão cair para apenas 70 leitos de UTI e 175 leitos de enfermaria.  

Por outro lado, o aumento na taxa de contágio nos próximos dias pode resultar no colapso do sistema de saúde. Serão quase 2 mil leitos de UTI e 4 mil de enfermaria necessários para dar conta da quantidade de contaminados no estado, em junho. Atualmente, a Bahia tem 1.574 UTIs e 1.845 leitos de enfermaria, com ocupações em 80% e 60%, respectivamente.  

Leia mais: Só resta uma cidade na Bahia sem mortes por covid; entenda por que lugar é 'blindado'

Professor da Uefs e membro do portal, o cientista de dados Ângelo Loula não tem uma boa notícia. Segundo seus cálculos, a projeção de óbitos está subestimada ou por subnotificação ou por aumento da letalidade em relação aos casos. Isso significa que, na prática, o número de óbitos futuros será maior do que foi informado. “Estamos fazendo ajustes no modelo de projeção esta semana, justamente por conta dessa subestimativa”, diz.  

Gesil Sampaio Amarante, professor da Uesc e também pesquisador do Geocovid, lembra que os cientistas não conseguem cravar um número exato de novos casos e óbitos que o estado vai ter. “Nunca batem exatamente com o projetado, pois os cálculos são feitos levando em conta o comportamento das pessoas a partir da informação que temos hoje. Tem também a qualidade dos dados disponibilizados pelas autoridades de saúde, que nem sempre são bons”, afirma. Uma das ocasionalidades que a projeção não consegue prever é o surgimento de novas variantes, por exemplo.

“Quando você tem muita gente sendo infectada, a probabilidade de surgimento de uma variante é maior. O risco não é essa variante atual, que já está causando a segunda onda, mas sim o surgimento de uma pior, que possa até ser menos agressiva, mas escape da vacina. E aí voltaremos ao início. Teremos que começar a luta toda de novo”, argumenta.  

Todos os cientistas entrevistados concordam que as projeções feitas para a Bahia não afirmam que teremos um cenário positivo nos próximos dias. “O cenário da Bahia é muito feio. Falece um número alto de pessoas diariamente por covid, são mais de 100 mortes por dia, em média. Na primeira onda, o máximo que a gente tinha chegado eram 70 mortes por dia. E o pior que a situação é feia, mas as pessoas estão normalizando a vida”, critica Ângelo Loula. 

Cenário  
Com tantas mortes, a cientista Margareth Dalcolmo afirmou, em artigo publicado no jornal O Globo, que os dados demonstram que a covid-19 é a terceira causa de morte no mundo, superando doenças cardiovasculares, o câncer e outras endêmicas.

“No Brasil, o número de mortes supera o de nascimentos em algumas regiões em 2021. O colapso do sistema hospitalar se materializou nesta segunda onda, com a falta de oxigênio, até a falta de kits de intubação, a exigir o uso de alternativas por parte dos profissionais, nem sempre as mais seguras, mas as possíveis”, descreveu. 

Mesmo com o cenário negativo, a Bahia é o estado que possui a segunda menor taxa de mortalidade do Brasil. São 116,8 mortes por 100 mil habitantes, perdendo apenas para o Maranhão, que tem 97,6 mortes para cada 100 mil pessoas. A taxa de letalidade da covid-19 na Bahia é de 2%, menor do que a do país como um todo, que tem 2,7%.  

Segundo a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia, esses números são frutos das medidas de contenção e do esforço de toda a sociedade para evitar e reduzir a contaminação. “Esta é uma doença traiçoeira, que afeta jovens e idosos, com evoluções clínicas que podem levar ao óbito em qualquer faixa etária. O cidadão deve ser um fiscal, garantindo a inexistência de aglomerações e também exigindo que outras pessoas usem a máscara e façam a higiene frequente das mãos”, disseram, em nota.  

Outra medida defendida tanto pela equipe de saúde como os cientistas do Portal Geocovid é a vacinação em massa, para reduzir os casos graves da doença. Para isso, a Sesab defende constantemente o envio de novas doses pelo Governo Federal. “Para acelerar ainda mais a vacinação, o governador Rui Costa adquiriu 9,7 milhões de doses da Sputnik V e aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para importação da vacina russa”, afirmaram.  

O CORREIO também perguntou a Sesab se eles também fazem constantemente projeções do futuro da pandemia na Bahia e como eles analisam o número de possíveis novos casos e óbitos até junho, mas não obteve retorno até o fechamento do texto.   

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

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