CL o quê? 80% dos baianos que passaram a trabalhar no 2º trimestre eram informais

salvador
01.09.2021, 05:00:00
Atualizado: 01.09.2021, 08:26:08
Mercado informal de Salvador é saída para quem precisa sobreviver (Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

CL o quê? 80% dos baianos que passaram a trabalhar no 2º trimestre eram informais

Mercado informal dispara e empregos CLT são os menores da série histórica na Bahia 

Após dois anos como Jovem Aprendiz, Winie Vitória, 20 anos, passou a vender petiscos feitos em casa para os vizinhos quando seu contrato acabou, em junho. “Vou continuar assim até ter minha carteira de trabalho assinada novamente”, diz. O caso dela reflete o que acontece na Bahia, atualmente, um aumento no mercado informal e queda nos ‘empregos CLT’ (com carteira assinada). No segundo trimestre, 80% dos baianos que passaram a trabalhar encontraram ocupações na informalidade.  

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada nesta terá-feira (31). Segundo a pesquisa, 2,970 milhões de baianos tinham trabalhos informais no segundo trimestre de 2021, aumento de 7,5% em comparação com o primeiro trimestre do ano. Os informais representavam 55,1% de toda a população ocupada no estado. A maior taxa de informalidade desde 2019.  

Em paralelo, caiu pela segunda vez consecutiva o número de trabalhadores com carteira assinada. Dessa vez, a queda foi de 3,1%, o que representa 40 mil empregos a menos. A Bahia tem apenas 1,231 milhão de trabalhadores em regime CLT, o menor contingente em nove anos de realização da PNAD Contínua, iniciada em 2012. Naquela época, o estado tinha 800 mil habitantes a menos do que em 2021, de acordo com os dados de população do IBGE. 

Para Guillermo Etkin, coordenador de Pesquisas Sociais da Superintendência De Estudos Econômicos E Sociais (SEI), esses dados eram esperados. “Como a queda da ocupação em território baiano atingiu com mais força os informais durante a pandemia, é natural que o aumento da ocupação siga em sentido contrário essa mesma via”, diz. No entanto, embora previstos, os números são preocupantes.  

“Não se pode deixar de registrar que esse crescimento da informalidade se revela preocupante, pois aponta que a precarização das relações de trabalho na Bahia, que já era bastante intensa, tende a se agravar. Esse movimento indica a dificuldade em se gerar postos de trabalho formais e renda. Resulta de transformações estruturais no mercado de trabalho que já estavam em curso e, com a pandemia, se tornaram mais aceleradas, aumentando a desigualdade e a pobreza extrema”, argumenta.  

Diretor de Relações Institucionais do Sindicato da Indústria da Construção do Estado da Bahia (Sinduscon-BA) e presidente da Comissão da Habitação de Interesse Social (CHIS) da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Carlos Henrique Passos concorda que o aumento da informalidade é um problema. “Historicamente, antes da pandemia, a informalidade no nosso setor era de 62%. Isso é péssimo para os trabalhadores, que não usam equipamentos de segurança e deixam de ter seus direitos garantidos, e ao governo, que deixa de arrecadar impostos”, diz.  

O levantamento do IBGE é diferente do realizado com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e divulgado na semana passada pela SEI. Na ocasião, foi demonstrado que a Bahia gerou 11.373 postos com carteira assinada em julho de 2021, decorrente da diferença entre 57.409 admissões e 46.036 desligamentos. No levantamento do Caged não estão inclusos dados da informalidade, algo que faz parte da PNADC.  

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Ser informal para driblar a pobreza 
No caso de Winie, que você conheceu no início da reportagem, ela consegue faturar R$ 200 por semana na venda dos petiscos. “O que mais sai é pititinga e carne do sol. Estou até pensando em começar a entregar por delivery para atender a pessoas fora do meu condomínio”, explica. Ela utiliza esse dinheiro para necessidades básicas, momentos de lazer e ajudar na casa, o que ela considera como principal. 

Antes jovem aprendiz, Winie (esquerda) passou a vender pititinga (direita) aos vizinhos para sobreviver 

(Foto: arquivo pessoal)

“Nos dias de semana, vou colocando currículo, dando entrevistas, tentando achar outro emprego, mas está difícil. Desde fevereiro que procuro, pois já sabia que em junho ia ser encerrado o contrato de jovem aprendiz. De lá para cá, enviei meu currículo 132 vezes e em menos de 50% dos casos tive retorno. Fiz ainda duas entrevistas online e uma presencial”, relata a jovem, que vive com os pais e um irmão.  

Winie tem experiência no setor administrativo e financeiro e pretende se consolidar no mercado de trabalho como uma empegada de carteira assinada. “Eu quero um emprego fixo, pois a venda de petiscos é uma aventura. Nunca sei ao certo quanto vou ganhar no final do mês ou se vou vender o suficiente”, diz. Caso você tenha ou saiba de uma oportunidade de emprego para a jovem, ela pede que entre em contato pelo telefone (71) 98646-9164.  

Guillermo Etkin vê sentido nesse desejo da moça em um emprego formal. “Esse tipo de vínculo garante direitos aos trabalhadores para que, por exemplo, em momentos de crise, não tenhamos ampliação tão grande da desigualdade, para que as condições de vida sejam dignas”, explica. O coordenador de Pesquisas Sociais da SEI aponta ainda o que deve ser feito para a geração de novos postos de trabalho no estado. 

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“Para estimular os empregos formais, é preciso fortalecer o mercado interno, criando um ambiente favorável à inovação, estimulando indústrias de base para que se inverta a lógica de exportar produtos de baixo valor agregado e importar produtos de alto valor agregado”, aponta. Guillermo defende que a geração de empregos formais se dê a partir da mescla de iniciativas nacionais e estaduais.  

“Tudo isso com a forte participação do poder público investindo pesado em infraestrutura e empresas nacionais, aliada, também à qualificação de mão-de-obra a ampliação do crédito. No momento, vemos redução do crédito (com alta dos juros) e alta da inflação, apontando caminho inverso do que seria uma trajetória de geração de empregos formais como a vivenciada no país no início deste milênio”, argumenta. 

Jovem quer emprego para pagar a faculdade; mãe quer pagar escola do filho 
A estudante Jéssica Evelyn, 21 anos, foi desligada esse ano de uma empresa de comercialização de mão de obras depois que o contrato de jovem aprendiz foi encerrado. Era com o salário desse serviço que ela pagava a mensalidade da faculdade EAD de Gestão de Recursos Humanos. Sem emprego, o curso teve que ser trancado. “Hoje, o que eu mais quero é ter um emprego CLT para voltar a estudar”, diz.  

Jéssica afirma topar qualquer oportunidade, embora sua experiência seja como auxiliar administrativa, nos departamentos pessoal e financeiro. “Só nesse mês de agosto, mandei meu currículo para mais de 100 empresas. Enquanto não realizo meu sonho, fico ajudando minha mãe na venda de bolos, que é o que sustenta nossa casa”, relata. Jéssica também pede que entrem em contato com ela pelo telefone (71) 98256-4978 caso possa oferecer uma oportunidade de trabalho.  

Jéssica está confiante que vai ter a carteira assinada ainda em 2021 

(Foto: arquivo pessoal)

Já Maria Chabi, 46 anos, demitida em fevereiro de 2021, precisava de um emprego novo para pagar a escola particular do filho de 16 anos. Para não interromper as aulas do jovem, ela também entrou na informalidade e começou a vender bolos caseiros aos seus vizinhos do bairro de Canabrava. Isso vai durar até o dia 15 de setembro, quando Chabi iniciará no seu novo trabalho de carteira assinada.     

“A venda de bolos estava dando certo e muita gente começou a encomendar. É algo que eu sempre gostei de fazer, mas ter o seu emprego fixo, de carteira assinada, é o melhor. Desejo que todos consigam essa oportunidade”, relata.  

Crescimento do mercado informal impulsiona queda na desocupação para 19,7% 
De acordo com a PNADC, a Bahia teve queda no índice de desocupação, que foi de 21,3% no primeiro trimestre de 2021 para 19,7% nesse segundo trimestre, o menor índice desde o início da pandemia. Com isso, a Bahia deixou de ter a maior taxa de desocupação do país, mas ainda ficou no segundo lugar, atrás de Pernambuco (21,6%) e superior à média nacional de 14,1%.  

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O recuo na taxa de desocupação na Bahia se deu pelo crescimento na população ocupada, principalmente com o mercado informal. Entre abril e junho, 5,395 milhões de pessoas de 14 anos ou mais de idade trabalhavam na Bahia, 5,1% a mais do que no primeiro trimestre, o que representou mais 260 mil trabalhadores nesse período. Desses, 208 mil eram informais (80%). Isso significa que oito em cada 10 empregos gerados na Bahia são informais.  

Para Guillermo Etkin, ainda não é possível afirmar que a taxa de desemprego no estado caiu, já que a queda na desocupação não é estatisticamente significativa. “Essa variação é resultado do retorno à atividade laboral da população que estava inativa (nem trabalhando, nem procurando trabalho), que voltou a suas ocupações, especialmente o contingente do setor informal, como os trabalhadores de rua. A atividade econômica não está sendo retomada, ela está crescendo por consequência da imunização e também por conta de uma base de comparação bastante deprimida”, explica.  

Variação no número de ocupados

Alojamento e alimentação: +24,8% 
Transporte: +13,8% 
Construção: +9,0% 
Industria: +6,8%  
Administração pública: +6,5% 
Agropecuária: +5,8% 
Serviço doméstico: +4,9% 
Comunicação, atividades financeiras, imobiliárias e administrativas: +4,4% 
Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas: -0,6% 
Outros serviços: -16,3% 

Para Carlos Henrique, do Sinduscom, os dados mostram o crescimento do setor de construção, uma vez que isso diz respeito, na categoria, ao surgimento de vagas no mercado formal. “Em termos de empregos formais, a Bahia vem mostrando um desempenho expressivo na construção civil. São 9.700 vagas geradas de janeiro a julho de 2021. O Brasil está aos poucos recuperando a economia informal e a tendência é que nosso setor também se recupere nessa área”, diz.  

Marcus Verhine, gerente executivo de Desenvolvimento Industrial da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), também está otimista. “Tanto os dados do Caged como os da PNADC sinalizam a recuperação do emprego, o que já era esperado. Os números de 2021 tendem a ser melhores dos de 2020, pois tivemos muito impacto na pandemia. Nós esperamos que haja geração de empregos na medida em que a economia se desenvolve”, relata.  

Guilherme Dietze, consultor econômico da Federação do Comércio do Estado da Bahia (Fecomércio-BA), apontou que a leve queda registrada na geração de empregos pelo setor tem relação com a segunda onda da pandemia. “Foi exatamente no segundo trimestre que teve um novo fechamento do comércio. Antes disso, a economia estava um pouco melhor e nós fomos o setor mais afetado por essa inatividade econômica”, diz.   

Rendimento médio dos trabalhadores na Bahia é o quarto mais baixo do país 
No segundo trimestre de 2021, o rendimento médio real (descontados os efeitos da inflação) mensal habitualmente recebido por todos os trabalhos na Bahia ficou em R$ 1.675. Foi o quarto mais baixo entre as 27 unidades da Federação, acima apenas dos registrados no Maranhão (R$ 1.478), Piauí (R$ 1.508) e Alagoas (R$ 1.652).  

O valor mostrou aumento frente ao do primeiro trimestre de 2021, que havia sido de R$ 1.628 (mais R$ 47), mas recuou na comparação com o segundo trimestre de 2020, que havia sido de R$ 1.902 (menos R$ 227).  

Com os aumentos no número de trabalhadores e no rendimento médio, a massa de rendimento real habitual de todos os trabalhos, na Bahia, também avançou e ficou em R$ 8,564 bilhões no segundo trimestre deste ano. Essa é a soma dos rendimentos de trabalho de todas as pessoas ocupadas e indica o volume de dinheiro em circulação no estado.  

A massa de rendimentos baiana aumentou 7,6% em relação ao trimestre anterior (quando havia sido de R$ 8,041 bilhões, em valores corrigidos), mas ainda ficou 3,8% menor do que um ano atrás, quando havia sido de R$ 8,991 bilhões no segundo trimestre de 2020.  

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