Como os tambores do candomblé da Bahia tocaram os Rolling Stones

correio afro
17.07.2021, 06:00:00

Como os tambores do candomblé da Bahia tocaram os Rolling Stones

Baú do Marrom conta história da viagem de Mick Jagger e Keith Richard a Arembepe

O Baú do Marrom hoje vai ser diferente. Na verdade, vou contar uma história que não é segredo para as pessoas com mais de 50 anos, afinal muita gente já falou e escreveu sobre, mas ainda é inédita para os mais jovens.

Digo isso porque, semana passada, um amigo meu na faixa dos 25 anos descobriu na internet a música 'Simpathy for the Devil' (Simpatia pelo Demônio), do disco Beggars Banquet (Banquete dos Mendigos) dos Rolling Stones. Impressionado, ele me ligou querendo saber mais informação porque achou a música muito parecida com um samba brasileiro.

De pronto, eu fui logo respondendo: "não chega a ser um samba genuíno, mas tem elementos" do ritmo autenticamente brasileiro, e o melhor: a música foi feita depois de uma visita à Bahia de Mick Jagger e Keith Richards, os principais nomes e compositores da banda. Eles são uma espécie do que foram Lennon e McCartney para os Beatles.

O fato é que antes mesmo de se apresentarem no Brasil pela primeira vez, em São Paulo, 1995, com os Rolling Stones (e no caso de Mick Jagger ter um filho brasileiro com a modelo e atual apresentadora da Rede TV, Luciana Jimenez), eles já tinham visitado o país por diversas vezes.

Em 1968, além do Rio de Janeiro, os dois deram uma esticada a Salvador, onde ficaram no bairro de Itapuã, então bem distante da “cidade”, e de lá foram para a então bucólica Arembepe, no Litoral Norte.

Naquela época, a aldeia de pescadores, que pertence à cidade de Camaçari, era um paraíso quase intocado que estava despertando o interesse de “malucos” de todo o mundo.

Essa história mais detalhada você pode encontrar num livro que Sérgio Siqueira coordenou chamado 'Bahia Anos 70' ou pesquisando em matérias de jornais antigos. Arembepe receberia depois mais visitas ilustres como Janis Joplin, o ator Jack Nicholson, o cineasta Roman Polanski, entre outros.

Em solo baiano, Mick Jagger e Keith Richards, acompanhados de suas então mulheres, a cantora Marianne Faithfull e Anita Pallenberg, circularam à vontade. Anônimos, para a maioria que não os conhecia. Por isso puderam saracotear.

E entre as descobertas, eles foram levados a um terreiro de candomblé, em Salvador, como o próprio Jagger comentou anos depois. Fato que impressionou muito os dois artistas que, no disco seguinte, compuseram a música 'Sympathy for the Devil'.

Um adendo: no ano 2009, eu assisti um show de Marianne Faithfull no Festival de Jazz em Montreux, na Suíça francesa.

Voltemos à música. Numa entrevista à revista americana Esquire, em 1969, Jagger falou:

"Ficávamos deitados na praia ou brincando com as crianças de uma casa próxima, curtindo. Tocávamos tambores com os negros do candomblé."

Já para a revista brasileira Manchete, no mesmo ano, ele comentou:

“Passamos lá na Bahia um tempão. Todas as noites ficávamos até o nascer do sol tocando música brasileira, principalmente com tambores. Gente genial aquela”.

Para dar um molho brasileiro na música, e por que não o que hoje chamaríamos de suingue baiano, os Stones convidaram um percussionista africano de Gana. Seu nome era Kwasi "Rocky" Dzidzornu, morto em 13 de março de 1993, conhecido como Rocky Dijon.

Coube a ele tornar a música bem suingada capaz de balançar qualquer um que a escutasse. Como pode ser visto no vídeo de apresentação dos Stones durante o 'Rolling Stones Rock and Roll Circus', que contou com as presenças de nomes como John Lennon, Eric Clapton, e integrantes da banda inglesa The Who.

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