Conheça a mãe que caminhou ao lado do assassino da filha na Bahia

bahia
19.06.2021, 11:00:00
(Foto: Arquivo pessoal)

Conheça a mãe que caminhou ao lado do assassino da filha na Bahia

Josenilda ficou frente a frente com serial killer que tirou a vida de sua filha

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Você já se imaginou cara a cara com um serial killer que matou sua própria filha? Só sendo mãe ou adquirindo muita força interior, o que dá no mesmo. Era junho de 2000. Na época não existia coronavírus, podia aglomerar e os jovens se preparavam para curtir o São João no interior. Simone Lima Pinho, na época com 26 anos, estava pronta para passar as festas juninas em Lençóis, na Chapada Diamantina. Até seu periquito de estimação ia junto. Na época, Simone conheceu diversas pessoas, entre elas José Vicente Matias, um homem cabeludo e alternativo, que vendia artesanato. O retorno dela para Salvador estava marcado para dia 28 daquele mesmo mês, mas ela nunca voltou.

Sua mãe, Josenilda Ribeiro Lima, obstinada em achar sua filha, travou uma verdadeira batalha para saber o paradeiro dela. “A busca foi muito dolorida e uma interrogação interminável. Fui para Lençóis sem saber onde ficar. Uma pousada me acolheu e não cobrou nada enquanto estive lá. Os hóspedes saíam pela mata me ajudando a procurar. Minha primeira decepção foi quando cheguei na delegacia para pedir socorro. O delegado disse que minha filha fugiu e foi para o Capão se drogar. Por acaso ele conhecia minha filha para falar algo assim?”, lembra. No período da busca, Josa, como também é conhecida a professora, fundou uma ONG com o nome da filha, onde auxiliava outras mães com filhos desaparecidos. “Enquanto procurava minha filha, ajudava outras pessoas a procurar a delas”, lembra.]

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Cinco anos depois do desaparecimento de sua filha, Josenilda assistia O Fantástico e viu uma reportagem que falava sobre a prisão de um serial killer conhecido como Corumbá. O nome verdadeiro dele era José Vicente Matias. Ele havia violentado e matado seis jovens mulheres que gostavam de uma vida mais perto da natureza. Uma das vítimas ainda estava desaparecida e teria sido morta na Bahia.  Tudo se encaixou como um roteiro de filme de terror.

 

Josenilda com sua filha Simone Pinho, uma das vítimas do serial killer Corumbá. Ela foi morta na Chapada Diamantina (Foto: Acervo pessoal)

“No final de quase seis anos de busca, descobri por meio de uma reportagem que um serial killer tinha matado seis mulheres, sendo uma na Bahia. O delegado Walter Seixas, que investigava o caso, fez uma ligação para onde ele estava preso e pediu mais informações sobre a vítima daqui. Corumbá disse que não sabia quem era, tampouco o nome, mas ela carregava um periquito. Eles mostraram a foto para ele e o assassino confessou.  Ela foi assassinada por um serial killer”, lembra Josenilda.

É preciso muita coragem para encarar um assassino em série, principalmente como Corumbá. Nascido em Firminópolis, Goiás, José Vicente Matias era um artesão e andarilho. Não à toa suas vítimas se espalhavam entre Minas Gerais, Bahia, Goiás e Maranhão, quase sempre em lugares turísticos. Sua primeira vítima foi em Minas, uma garota de 15 anos, em 1999. Um ano depois, seu segundo assassinato foi justamente em Lençóis, aqui na Chapada Diamantina. Ele chegou a matar uma russa, espanhola e outra alemã. Ele violentava as vítimas, matava e esquartejava. Também praticava canibalismo. Apesar de ter sido a segunda vítima do serial killer, Simone Lima Pinho foi a última a ser localizada.

Encontro 
Quando finalmente descobriu o paradeiro da filha, começou outro drama. Corumbá enviava mapas de possíveis localizações do corpo, mas nada. Até que resolveram trazer o assassino para Lençóis. Contudo, levou oito longos meses para que a Secretária de Segurança Pública da Bahia liberasse a verba para trazer o assassino em série. Até que o dia chegou. A Polinter, Coordenação de Polícia Interestadual, não queria deixar que Josenilda fosse junto com o assassino à procura dos restos mortais de sua filha. Mas ela foi. Lá, colocaram um policial ao lado dela, mas não para protegê-la. “Colocaram para proteger ele de mim. Achavam que eu poderia fazer alguma loucura. Jamais me igualaria a ele desta forma”, lembra.

Durante todo caminho, Josa lembra de Corumbá sempre encarando ela, com olhar desconfiado. No local, os policiais começaram a cavar, enquanto o serial indicava com as mãos algemadas. Os agentes estavam sem conseguir encontrar, até que o próprio serial pediu a pá e foi no lugar certo. “Ele sabia centímetro por centímetro tudo que estava ali. Ele mesmo, algemado, tirou a cabeça de minha filha do buraco. Ele mesmo que fez isso. Nessa hora era para eu sentir um ódio desta criatura, né? Aquilo era um bicho, não era um ser humano. Não sei explicar nem o que aconteceu. Ao invés de ficar com raiva, eu senti uma vontade de falar com ele incontrolável. Era sobrenatural. Sentia minha filha pedindo para perdoá-lo”, lembra, emocionada.

Josenilda então se aproximou de Corumbá, pegou no seu ombro e surpreendeu a todos ali: “Disse a ele que queria que Deus o perdoasse, pois de minha parte eu perdoei. Não sei como, mas vi lágrimas caindo dos olhos dele. Era só o que queria. Sai leve, sabendo que finalmente a alma de minha filha descansou. Semana passada completou 21 anos do seu desaparecimento. Eu olho para trás e não acredito que já passou este tempo todo. Ainda parece que ela desapareceu ontem. Ainda dói muito”, completa. Corumbá permanece preso no Maranhão. Aposentada, Josa se casou e vive em Salvador. Ainda com muita saudade, mas seguindo em frente.  

Alguns serial killers brasileiros

Pedro Amaral   - Amaral foi tido por anos como o primeiro serial killer brasileiro, mas uma “reabertura” do caso o inocentou. Segundo o novo julgamento, ele teria sido acusado injustamente de matar três jovens. Ele teria sido vítima de racismo e foi coagido a confessar os crimes. Os três garotos mortos foram estrangulados e estuprados. Contudo, Amaral morreu de tuberculose antes de ocorrer o julgamento. Em 2012, foi feita uma reabertura simbólica do caso, analisando o inquérito da época e noticiário dos jornais. Ele acabou inocentado. Curiosamente, durante sua prisão outros crimes semelhantes continuavam acontecendo.  

Chico Picadinho -   Foram dois assassinatos com um grande intervalo, mas que chocou o país nos anos 60 e 70. A primeira vítima foi uma bailarina austríaca, esquartejada. Cumpriu oito anos e acabou solto. Casou e aparentemente vivia uma vida normal. Quando o primeiro crime completaria 10 anos, ele voltou a matar uma prostituta e também esquartejou, guardando partes do corpo em uma mala. Sua pena teria terminado no final dos anos 90, mas ações judiciais continuam mantendo Chico sob custódia até hoje. 

Maníaco do Parque  - Francisco de Assis Pereira chocou o Brasil no final dos anos 90. Seu ritual era levar mulheres para um matagal em São Paulo sob o pretexto de fazer ensaios fotográficos. Lá, estuprava e matava suas vítimas. Foram sete mortes confirmadas e outros 9 estupros. Em 2000, ele chegou a ser dado como morto após uma rebelião no presídio onde estava preso, mas o PCC preferiu poupar sua vida. Ele continua preso na ala de estupradores, sem amigos, fazendo tricô e lendo a Bíblia.  

Corumbá - José Vicente Mathias confessou ter matado seis mulheres, sendo uma em Lençóis, na Chapada Diamantina (leia acima). Suas vítimas eram hippies e turistas, que gostavam de viajar para locais alternativos. Ele vendia produtos como pulseiras e ganhavam a confiança de suas vítimas, que  matava nas trilhas. O serial ganhou destaque internacional, pois chegou a matar uma espanhola,  outra alemã e uma russa. 

Pedrinho Matador - O serial killer brasileiro com maior número de mortes confirmadas. Está entre os cinco com mais homicídios atribuídos e provados. Oficialmente, são 71 vítimas, mas pode ter mais de 100, incluindo o próprio pai, com 21 facadas. Boa parte destas mortes foram cometidas dentro da cadeia. Atualmente ele está solto e, segundo o próprio Pedrinho nas entrevistas que concede, ressocializado.

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