Danilo: a intimidade do baiano campeão da Libertadores pelo Palmeiras

ba-vi
06.02.2021, 06:09:00

Danilo: a intimidade do baiano campeão da Libertadores pelo Palmeiras

Volante de 19 anos fala de pagode, praias do Subúrbio, dispensa do Bahia e o desejo de enfrentar o Bayern na final do Mundial

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Danilo beija a taça da Libertadores - segunda na história do Palmeiras (Foto: Divulgação/Conmebol)

São menos de duas décadas de vida, mas Danilo já viveu muita coisa. A trajetória mudou de dispensado na base do Bahia a campeão da Libertadores jogando como titular na final em menos de cinco anos. Em entrevista exclusiva ao CORREIO, o volante do Palmeiras mostrou que a leveza em sua cabeça e o jeito de ser vão além do que é expressado pelos cabelos platinados em homenagem ao título que o time paulistano não conquistava há 21 anos.

Horas antes de embarcar para o Catar, onde o Palmeiras disputa o Mundial de Clubes a partir de domingo (7), contra o mexicano Tigres, Danilo falou sobre o sentimento em relação ao Bahia, valorização de atletas locais pelos clubes do estado, abriu um pouco da sua intimidade e apreço pelo Subúrbio Ferroviário e falou também do gosto pelo pagode baiano - que não saiu dos ouvidos e faz parte da playlist no vestiário alviverde durante a final contra o Santos, sábado passado, no Maracanã. 

Gabriel Veron e Danilo, de cabelo platinado e na beca antes de viajar para a disputa do Mundial
(Foto: Cesar Greco/Palmeiras)

CORREIO: Em menos de cinco anos, muita coisa mudou em sua vida. Dispensa na base do Bahia, saída de casa, mudança para São Paulo... Se pudesse voltar no tempo, o que falaria para o Danilo de cinco anos atrás? Ele acreditaria que seria titular do Palmeiras e campeão da Libertadores aos 19?
Danilo
: Ele sempre acreditou que ia ganhar a Libertadores, mas não sabia quando ia surgir essa oportunidade, não sabia se seria como titular ou não, mas sempre pediu a Deus para poder realizar os sonhos que teve desde moleque e agora está realizando pouco a pouco.

Como eram o dia a dia e os treinos com Vanderlei Luxemburgo e a diferença agora com Abel Ferreira?
Sou muito grato a Luxa. Ele sempre me chamava, falava comigo, deu atenção e eu sempre escutei. A melhor coisa é escutar, pegar as coisas e melhorar. Ele era mais na dele, mas sempre falava que as coisas mudaram, estavam diferentes de antes. O Abel sempre chega junto, os dois me ensinaram muita coisa.

Você lembra quando recebeu a notícia que foi promovido para o time profisisonal?
Eu fiquei uma semana sem treinar. No sábado teve coletivo contra o profissional e, quando cheguei ao hotel, tinha a mensagem falando para voltar no outro dia para concentrar e jogar contra o Internacional. Preferi não contar para ninguém, guardei pra mim mesmo. Só avisei a meus parentes quando já estava com a roupa, concentrado. Meu pai não acreditou de primeira, minha mãe também não. Depois eles acreditaram, ficaram muito felizes. 

Qual a importância de Wesley Carvalho (ex-treinador do Vitória e atual do Palmeiras sub-20) para sua adaptação a São Paulo e ao Palmeiras?
Professor Wesley, sempre tive uma relação normal. Ele sempre passava feedbacks, apontava onde tinha que melhorar, dava uns toques a mais pra mim. Mas quem começou a me colocar de volante foi Gilmey Aimberê. Wesley começou a me colocar na posição para substituir o Patrick. Até hoje a gente dá muita risada, conversa. Tenho uma relação forte com a base.

Nota da redação: O também baiano Gilmey Aimberê é auxiliar do sub-20 palmeirense e comanda o time em alguams competições.

Na base você jogou em várias posições até parar de primeiro volante. É o lugar onde se sente mais confortável?
Quando eu jogava no ataque, pensei que não ia ter mudança nenhuma. Mas depois da passagem no exterior (em excursões com o Palmeiras pela Ásia) tudo mudou. Encaixei na posição, ali tenho conforto, sei que vou render mais. No meio-campo vou querer aproveitar o máximo dos conselhos e ensinamentos para melhorar a cada dia.

Danilo em ação pelo Palmeiras
(Foto: Cesar Greco/Palmeiras)

Como foi sua passagem pelo Bahia e a saída do clube?
Eu joguei no Bahia depois de entrar com uns 8 ou 7 anos. Fiz minha base quase toda lá. Quando fiz de 16 para 17 recebi uma folga, me ligaram e o diretor, que não lembro o nome, ele falou que fui dispensado, disse as coisas que sempre falam e pediu o telefone de meu pai. Eu estava jogando videogame com os amigos, estava feliz, não tinha nem ligado muito. Não que eu quisesse sair, mas moleque só quer jogar bola, brincar. Mas meus pais sentiram muito quando isso aconteceu.

Seu pai é Bahia fanático. Ele realmente contou que sentiu muito sua dispensa em uma reportagem ao CORREIO  antes da final da Libertadores.
Eu sou sempre elétrico, então isso não me abalou muito. Quando você amadurece e para pra ver, percebi a tristeza de meu pai porque ele é Bahia doente. Quando eu vim pra cá, parei pra pensar, ia fazer 18 anos, tinha uma mente já de adulto porque já estava de maior e percebi. Falei que depois dali seria tudo por ele. Meu pai, minha mãe e meu irmão. Mas não ficou mágoa. A gente que joga futebol sabe que pra acontecer isso é fácil. A gente já tem o "não" todo dia e estamos buscando o "sim". Não tenho nenhuma mágoa do Bahia, de quem me dispensou. Graças a Deus pude sair tranquilo, sem discussão. Isso é importante pra mim, pra minha família e principalmente pro meu pai, que é Bahia.


Danilo foi dispensado do Bahia na categoria infantil
(Fotos: Acervo pessoal)

Ainda tem contato com alguém da época de base?
Jeferson Douglas (atacante do Bahia sub-20) é meu irmãozão. A gente fica ligando um pro outro, troca resenha direto. Tinha mais gente, que já saiu. Também sou muito parceiro de Ramires, que está aqui perto agora (emprestado ao Bragantino).

Como foi sua infância? Onde andava aqui em Salvador?
Não fazia muita coisa, não (risos). Saía para jogar bastante na várzea. Ia muito para a praia de Tubarão, Base Naval. No Natal eu fui pra Base quando saí de folga. Parei um pouco de jogar, colo muito em Paripe, Tubarão, às vezes na Praia da Pipa (em Tubarão), fui lá depois do Ano Novo. É onde minha família curte.

A família vai seguir por aqui?
Estão felizes, estão bem onde estão. A gente vai ver aí um local bom para poder se mudar. Sem muita pressa, sempre conversado, tendo acordo dos dois lados. Não adianta nada tirar eles do lugar e não estarem felizes. Eles estão felizes por lá.

Quais suas próximas motivações na carreira? Ainda segue motivado depois de ganhar tanta coisa logo de cara?
Agora é trabalho de formiguinha. Devagarinho sem querer adiantar nada. Deus vem me honrando a cada passadinha que dou. Quatro meses de profissional e já sou campeão da Libertadores, vou disputar Mundial, com chance de pegar o Bayern na final do Mundial. Estamos vivendo o sonho de pouquinho em pouquinho. Sei que Deus vai abençoar.

Os clubes daqui dão pouca oportunidade para quem é da terra?
Como eu falei numa outra entrevista, a gente que é de Salvador, da comunidade. A minha comunidade (Fazenda Coutos), poucos sabem onde é. A gente não tem muita opção para jogar aí. Só Bahia, Vitória e Jacuipense, que estão sempre com a gente. O Bahia e o Vitória a gente vê, pelo menos no meu tempo, tinha muito jogador de empresário, que tem dinheiro. Para mim que sou de comunidade, não tenho essa força, não dá. Teve um tempo no Bahia que eu era titular, mas aí chegou um cara de empresário forte, eu não tinha isso e perdi a vaga no time. Teve influência na minha dispensa. Exigiam força, altura, eu jogava de meia e não era tão forte. É complicado para a gente que é de comunidade fazer teste no Bahia ou no Vitória, os pais não têm dinheiro e isso dificulta muito. Estamos acostumados a jogar na rua, jogar toda hora, a gente sabe que é bom, vem da favela e não tem oportundidade. Eu acho isso errado. Acaba ficando difícil de achar um Ronaldinho, um Neymar que pode estar por aí. Pode também achar um cara que não passe essas estrelas aqui no Brasil, mas podem ser bons jogadores. Ainda mais nós da comunidade que estamos querendo sempre vencer, melhorar a vida de nossa família, dar uma casa pra gente...

Você no Bahia jogaria por você, por sua família e pelo clube que torce?
O cara dá um gás a mais. Sabe que ele bom, tem a família, sabe que é o time do coração de seu pai, vai vivendo como eu estava vivendo e eu torcia pro Bahia nessa época. Você sonha em um dia realizar o sonho de seu pai e o seu de jogar no profissional pelo clube da família. A torcida do Bahia é gigante e bonita igual a do Palmeiras. A gente tem bastante dificuldade de se adaptar em outros estados, o clima pesa, a insegurança complica.

Ainda vai jogar no Bahia?
Só Deus sabe. Quem sabe eu possa realizar o sonho de meu pai de jogar no Bahia? 

Dizem que a gente sai da Bahia, mas é difícil a Bahia sair da gente. Como é a sua playlist no vestiário?
Às vezes quando o (Gabriel) Menino não vai eu coloco Léo Santana, Kannário, O Poeta, O Maestro. Tudo de Salvador. E lá eu falo Salvador mesmo, pra saberem de onde eu sou. Sempre que rola coloco meu pagodão, se deu sol, é mar, né? (risos).

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