Desde o retorno das aulas presenciais, Ufba já teve 3 assaltos e 3 tentativas

salvador
25.05.2022, 05:00:00
Uma das entradas principais do campus de Ondina. Por ser entidade pública, que presta serviços à comunidade, Ufba é aberta a todos (Paula Fróes/CORREIO)

Desde o retorno das aulas presenciais, Ufba já teve 3 assaltos e 3 tentativas

Estudantes e professores são vítimas de ação de criminosos

A sensação de insegurança nas instalações da Universidade Federal da Bahia (Ufba) voltou a assombrar estudantes e funcionários com o retorno às aulas presenciais. Na última sexta-feira (20), uma jovem teve o carro roubado no estacionamento da Faculdade de Direito. No dia 28 de abril, um homem armado tentou levar o carro de um professor da Faculdade de Comunicação. De março a maio deste ano, a Ufba foi palco de pelo menos três assaltos e três outras tentativas, de acordo com levantamento feito pela reportagem em publicações na imprensa e monitoramento de postagens de vítimas nas redes sociais.

O levantamento não leva em consideração o período das aulas à distância, quando no campus de Ondina ocorreu um tiroteio entre cinco suspeitos armados e policiais militares (relembre mais abaixo). Dois dias depois desse fato, uma professora e seu auxiliar foram assaltados, após dois homens armados acessarem o mesmo local.

Mencionando a escalada de violência que acontece em  toda a cidade, a Ufba recomendou aos professores, no último dia 10 de maio, a flexibilização do programa de aulas presenciais, em relação aos critérios de frequência, prazos de entrega de trabalhos e realização de provas.

A medida foi tomada após a tentativa de assalto contra o professor no estacionamento ao lado da Biblioteca Central, em 28 de abril, e após o fim de semana em que dois policiais militares foram atacados por criminosos quando retornavam do velório de um colega, também PM, morto enquanto trabalhava no bairro de Águas Claras.

Apesar da tentativa da universidade, os estudantes negam que estejam se sentindo mais seguros. Matheus Caldas, calouro do curso de Engenharia Mecânica, conta que embora não tenha aulas das disciplinas à noite, faz parte de um projeto de extensão aos sábados na Faculdade Politécnica, na Federação, onde estuda das 17h às 22h.

“Desço a escada da Politécnica para pegar Bicicletas Itaú no campus de Ondina esse horário. Aquela escada é o retrato da insegurança da Ufba, porque além de não ter iluminação eficiente no período noturno, possui insegurança até estruturalmente falando, sem contar que ela é extremamente deserta”, afirma.

Matheus explica que a sensação de insegurança vem também dos relatos dos veteranos. “Ouço falar desde assalto até assédio naquela região da Ondina-Poli, tendo como exemplo uma menina que me contou ter tido amiga assediada verbalmente na descida da escada”.

Já o estudante de Comunicação Marcelo Azevedo relata que deixou de cursar uma disciplina justamente por ser ministrada no turno da  noite, no campus de São Lázaro (Federação). “Tenho uma sensação de insegurança muito forte e a falta de controle de quem entra e quem sai contribui muito para isso. Já deixei de pegar uma matéria que queria muito por medo de sair às 21h da faculdade”.

Portões abertos

A facilidade na entrada e saída de pessoas também é enfatizada pelo estudante de Engenharia Química Sam Hiddekel. No último dia 16, o clima de medo e desconfiança no campus o fez notar um homem que rondou durante cerca de 15 minutos pelo estacionamento do Instituto Politécnico com um passarinho na mão. Suspeitando do desconhecido, esperou que ele saísse para pegar sua moto e ir embora.

“A Ufba é aberta para todos sob o pretexto de ser espaço público, mas quem em sã consciência vai numa universidade sem ser aluno dela? Vai fazer o que lá? Ciranda? Acho que isso torna tudo perigoso”, diz o estudante.

Insegurança geral

Os casos mais frequentes de insegurança na Universidade vêm acompanhados de um contexto que envolve a segurança pública em Salvador e na Bahia. O coordenador da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia, Dudu Ribeiro, explica que a instituição tem acompanhado com atenção a cobertura que sugere um aumento de casos de violência,principalmente em bairros tradicionalmente de classe média, nos últimos meses, na cidade. 

As instalações da Ufba na cidade, vale lembrar,  ficam justamente, em sua maioria, em Ondina e na Federação, regiões da capital consideradas de classe média e alta.

"Nos cabe lembrar que os territórios negros da cidade de Salvador sofrem com índices alarmantes de violência há muito tempo e isso tem relação direta com as opções feitas pela política de segurança pública que se baseia na lógica do confronto e da ocupação de território, do descontrole ao acesso de armamentos", enfatiza.

A Polícia Federal é a responsável por crimes contra patrimônios da União, como no caso das instalações das universidades federais. Em nota, a PF afirmou que as ocorrências de assalto às pessoas físicas, mesmo dentro da Ufba, dizem respeito às Polícias Civil e Militar.

Questionada sobre o que está sendo feito para reduzir o problema, a Polícia Civil afirmou que o policiamento ostensivo é de responsabilidade da Polícia Militar.

Já a Polícia Militar afirmou, através de nota, que atua em vias públicas, por meio das unidades convencionais dos bairros que realizam rondas preventivas ou através de acionamento pelo 190 ou 181 (disque-denúncia). “A respeito das medidas adotadas no interior dos campi, locais onde ocorreram os fatos a que se refere [a reportagem], sugerimos contato com a Ufba”, afirma o texto da nota enviada pela corporação.

Resposta da Ufba

Sobre as medidas adotadas para a redução da criminalidade dentro da instituição e sobre se está sendo aplicada a flexibilização das aulas, a Ufba esclareceu que a Coordenação de Segurança registra e acompanha todas as ocorrências na universidade e que os dados são utilizados no aprimoramento do monitoramento por câmeras e equipes de segurança e no auxílio às autoridades policiais em investigações.

A universidade ressaltou que é um espaço integrado ao conjunto dos espaços públicos da cidade e da sociedade brasileira, cuja criminalidade se acentua com a "grave crise política, econômica e moral que o país atravessa nos últimos anos".

Por fim, explicou as medidas de segurança que têm sido tomadas no interior dos campi: reforço e qualificação das equipes de vigilância e portaria e dos recursos desses serviços como motos, automóveis, equipamentos de comunicação, sistema de câmeras de vigilância, além de iluminação das fachadas, entornos e vias de acesso aos prédios, reparo no cercamento externo e interno e limpeza e poda regular das áreas verdes.

A universidade afirmou que mantém diálogo com as polícias Civil e Militar para melhorar a investigação das ocorrências, identificação e prisão dos autores de delitos, e a intensificação do patrulhamento no entorno dos campi, através da Ronda Universitária, "programa da PM que atende a todas as instituições de ensino superior sediadas em  Salvador".

Relembre o tiroteio

Em 27 de julho de 2021, a Ufba foi invadida por um grupo de pelo menos cinco criminosos. Com metralhadoras e fuzis, o grupo rendeu três funcionários da manutenção e roubou as camisas da empresa com a intenção de se passar pelos servidores. Eles fugiam do Calabar em direção a São Lázaro quando entraram no campus. Embora a Ufba estivesse fechada para estudantes, o local era ponto de vacinação da covid. Ninguém ficou ferido.

Dois dias depois, dois homens armados acessaram o campus de Ondina sob o pretexto de se dirigir a uma das agências bancárias eo local, mas foram para a área do Instituto de Física, onde assaltaram uma professora e seu auxiliar, tomando os celulares. 

A Ufba afirmou que o monitoramento eletrônico identificou a movimentação dos suspeitos e alertou a segurança, que enviou uma equipe para a verificação.  Os  vigilantes foram rendidos pelos assaltantes, que fugiram.

Novas medidas de segurança foram tomadas após os casos. Um posto de monitoramento foi instalado para identificar os veículos que pretendam transitar na universidade, seja na área dos bancos, ou em direção às unidades acadêmicas, em Ondina.

À época, a universidade disse lamentar “a proliferação descontrolada de armas de fogo, que muito contribui para a violência e a insegurança da população”.

Os casos em 2022:

20/05 - O caso mais recente de assalto na Ufba ocorreu na sexta-feira, 20, uma estudante de Direito teve o carro levado por volta das 9h, após ser ameaçada com uma faca. O assaltante circulava pelo campus, na Graça, disfarçado de catador de materiais recicláveis. Segundo nota da Ufba, o homem vestia colete identificador e portava um saco com latas de alumínio;

19/05 - Um estudante sofreu uma tentativa de furto, no turno da tarde,  quando um homem colocou a mão no bolso de sua calça para retirar o celular, guardado ali. O criminoso ainda perseguiu o estudante repetindo uma frase  com conotação homofóbica;

28/04 - Um professor sofreu uma tentativa de assalto quando um homem armado entrou no campus de Ondina e tentou levar seu carro, estacionado ao lado da Biblioteca Central da Ufba. O professor acionou a segurança e os portões principais do campus foram fechados. Impedido de sair de carro, o assaltante abandonou o veículo e os pertences da vítima, fugindo a pé. A Polícia Militar foi acionada e chegou a perseguir o assaltante no local, segundo nota da Ufba;

24/04 - O mesmo estudante de Economia  do caso ocorrido em 19/05 sofreu uma primeira tentativa de furto quando se dirigia para a reunião do seu grupo de pesquisa. "Dois homens me encurralaram botando a mão para que eu não passasse, além de segurarem minha bolsa. Diante da abordagem, eu bati na mão de um deles e saí correndo até o portão", relatou Adilson Barbosa, relembrando o primeiro caso;

28/03 - Um estudante relatou nas redes sociais, em 28 de março,  que teve o carro e celular levados nesse mesmo dia  por um assaltante armado, no campus de Ondina, na área da biblioteca do PAF IV. “Volta às aulas em grande estilo, botaram uma arma em minha cabeça e roubaram meu carro e celular dentro da Ufba”, diz a postagem. A reportagem tentou contato com esse estudante, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição,  23h; 

25/03 - Uma estudante do Bacharelado Interdisciplinar (BI) também relatou nas redes ter sido assaltada, em Ondina, no PAV 5. Diana Miranda e a amiga, Vivian Cintra, saíam do prédio de aulas em direção ao portão  principal, quando foram abordadas por um homem que saiu do meio das árvores e pediu os celulares das duas.

*Com a orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo.

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