Donas do guidão: mulheres motociclistas superam machismo e fazem renda com entregas

salvador
24.03.2021, 05:15:00
Atualizado: 24.03.2021, 06:13:59
(Foto: Paula Froés/CORREIO)

Donas do guidão: mulheres motociclistas superam machismo e fazem renda com entregas

De acordo com o Denatran, o número de mulheres habilitadas para pilotar motos cresceu 95,7% de 2011 até 2020

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Em frente ao Shopping Barra, entre dezenas e dezenas de motocicletas e entregadores, está Denise Oliveira, 22 anos, ocupando há três anos um espaço pouco comum para mulheres: o de entregadora de delivery. É a única ali e em tantos outros pontos de recebimento de entregas por onde já passou, o que a fez ter dificuldades no início da sua jornada pilotando. É que, para unir o prazer de navegar pelas ruas de Salvador em cima de uma moto com o seu ganha pão, Denise teve que enfrentar a falta de acolhimento e atitudes que a inferiorizavam pelo seu gênero em um ambiente machista. 

"Muitos olhavam torto, achavam que eu não era capaz. Só passaram a me respeitar, a baixar a cabeça quando viram eu produzindo tanto quanto ou bem mais que eles", conta a motociclista, que nunca se viu obrigada a provar nada para ninguém, mas obteve o reconhecimento dos colegas depois de muito tempo nas ruas, onde começou a trabalhar ainda de bicicleta.

Denise se sente realizada fazendo entregas (Foto: Paula Froés/CORREIO)

E a produção foi tanta que, nesse meio tempo, ela se estabeleceu e trocou as pedaladas pela aceleração em punho de uma moto que facilita o seu dia a dia e otimiza o seu trabalho. Assim como Denise, muitas brasileiras passaram a pilotar nos últimos anos. De acordo com o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), em dados colhidos até o fim de 2020, o número de motociclistas do sexo feminino cresceu 95,7% em comparação ao ano de 2011. Ainda segundo essa pesquisa, o número de motociclistas mulheres no Brasil chegou a 7,8 milhões. Só na Bahia, segundo o Departamento de Trânsito do Estado da Bahia (Detran), são 789 mil motociclistas mulheres registradas até fevereiro de 2021. Mas, apesar do crescimento nacional e o número considerável de habilitadas no estado, ainda é raro ver mulheres de bag nas costas, mesmo com muita gente desempregada e com moto em casa. 

Machismo

A principal barreira não é difícil de imaginar. Em um círculo profissional com imensa maioria masculina, o machismo atravessa as relações. Colegas, clientes e até aplicativos causam problemas às mulheres na profissão. É o que conta Sônia Lombardi, 34, que mora em Feira de Santana e teve a ideia de virar entregadora na pandemia, mas quase desistiu por conta da negativas de vários aplicativos.

"Enfrentei dificuldades. Nos pontos, quando eu chegava, ficava excluída. Os homens não se sentiam confortáveis com a minha presença ali e eu não era acolhida. Fora o assédio de clientes. Já teve caso de quem receber perguntar se eu entrava junto com a entrega, como se eu fosse um prato. Até antes de trabalhar, tive problema. Com documento certo, moto em ótimo estado, aplicativos me dispensavam sem nenhuma justificativa, mas eu sabia bem o porquê", conta Sônia, que continuou tentando em aplicativos até encontrar a Giross, onde está até hoje. 

A Giross é uma startup de entregas que surgiu no interior e está em cerca de 30 cidades da Bahia. Segundo Filipe Martins, CEO da empresa, dos 8.000 entregadores cadastrados na plataforma, apenas 30 são mulheres. Número bem aquém do que a startup idealiza segundo ele, que trabalha para que mais mulheres ingressem na plataforma. "Tem muitas mulheres, assim como homem também, que perderam empregos na pandemia, têm moto e precisam de uma renda. Até por isso, trabalhamos para deixar as mulheres confortáveis para entrar no mundo das entregas, mostrando que tem espaço, que tem segurança através do monitoramento e todos os protocolos necessários que adotamos com os nossos servidores", declara.

Filipe Martins é CEO da Giross e quer que mais mulheres se sintam à vontade para trabalhar com entregas (Foto: Reprodução/Divulgação)

É munida desses protocolos e de uma atenção extra que Denise, que também é entregadora da Giross, encara riscos. Ela, que no começo trabalhava somente das 9h às 18h, orienta que as iniciantes façam o mesmo até se acostumarem com a profissão."A gente tem que se proteger, se cuidar. De certa forma, somos também mais visadas nas ruas. Assalto e violência estão aí. Por isso, no início, nem queria saber de trabalhar a noite. Antes de 18h, tava no caminho de casa. Foi assim até ter mais atenção e pegar as manhas. Hoje, faço de 9h às 22h", afirma.

Rentabilidade e prazer

E, para ela, é o trabalho perfeito. Muito porque une a paixão pela pilotagem com a possibilidade de fazer renda até mesmo no meio da pandemia, quando a demanda por entregas aumentou. Em cima da moto, Denise faz R$ 700 por semana, o que contempla suas necessidades."Eu gosto muito de pilotar, é muito bom. Ganhando dinheiro é ainda melhor. Eu me sinto feliz em cima da moto, fazendo entrega, eu gosto. É uma profissão que eu amo, não me vejo em outra. Aconteceu de fazer por necessidade e, de repente, me encontrei no melhor trabalho da minha vida, que eu não vou largar tão cedo", relata.

Sônia é outra apaixonada pelas motocicletas. Formada em administração, ela afirma não se vê mais dentro de um escritório. Para ela, além do prazer e a rentabilidade, ser entregadora a faz ser mais livre, definindo quando entra no trabalho, quando sai e até quando faz um intervalo."Olha que antes da pandemia eu nem me imaginava nisso, mas não posso nem pensar em parar de fazer o que eu faço hoje. Estar na moto sempre me deu uma sensação boa de liberdade. Hoje, eu tenho essa sensação enquanto tô no serviço. Não quero nem saber de escritório, até porque as entregas são mais lucrativas", conta ela, que afirma tirar, por dia trabalhado, R$ 75.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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