Eles também sentem: como a pandemia está afetando crianças e adolescentes

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12.09.2021, 07:00:00
(Morgana Lima)

Eles também sentem: como a pandemia está afetando crianças e adolescentes

Uma a cada quatro crianças e adolescentes brasileiras na pandemia tem sintomas de ansiedade e depressão, mostra pesquisa

Uma menina usando máscara e uma farda escolar chora enquanto anda por uma calçada de Salvador. Nos pensamentos, o coronavírus, o aumento do número de casos, pessoas doentes e uma grande confusão. Às vezes, para crianças e adolescentes, não é tão fácil expressar os sentimentos em palavras, mas desenhar ajuda a colocar para fora aquilo que incomoda. Esta, por exemplo, é a descrição de um desenho feito por uma menina de 12 anos nesse período de pandemia e, embora não indique, necessariamente, que ela passe por sofrimento psíquico, chama a atenção para algo: aquilo que não era preocupação de pessoas dessa idade há um ano e meio, agora faz parte do cotidiano e as afeta, de alguma forma.

Para uns, vem como preocupação com o futuro, gerando algum tipo de ansiedade. Em outros, a pandemia desencadeia ou escancara quadros de depressão. No Brasil e no mundo, estudos investigam como a pandemia do coronavírus vem afetando os mais jovens. Em São Paulo, pesquisadores do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Ipq/FMUSP) já conseguem ver que, a cada quatro crianças e adolescentes monitoradas por um estudo em andamento em todo o Brasil, uma tem quadro de ansiedade e depressão em níveis clínicos.

Esses meninos e meninas não são os únicos que precisa lidar com esse turbilhão. A mãe de Clara*, uma adolescente de 13 anos que só muito recentemente começou a ir à, discutiu na própria terapia como lidar com os sentimentos da filha.

“Ela sente muita ansiedade, muita tristeza, muita solidão, tédio, dores no corpo, medo. Foi ficando tão tensa a situação da ansiedade e da tristeza que eu precisei colocar ela para fazer terapia. Agora, ela está começando a entrar no processo terapêutico, mas ainda está muitíssimo ansiosa, com o relógio biológico trocado, dormindo e comendo de forma desorganizada”, conta a mãe.

As queixas de Clara são muito comuns. Aliás, elas aparecem em uma pesquisa recente feita pelo Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria) a pedido do Unicef com jovens de todo o Brasil e também na fala de profissionais da área, quando perguntados sobre os sinais mais comuns de que algo não vai bem (veja ao lado). Os números apontam que 26% dos adolescentes do país, durante a pandemia, demonstram preocupação excessiva com o futuro.

E se queixam das mesmas coisas que a mãe de Clara observa: problemas com o sono, com a alimentação, tristeza, sintomas de ansiedade, medo e até casos mais graves, como ideias ou pensamentos relacionados com a própria morte ou de pessoas queridas (17%). O mesmo Ipec fez uma pesquisa com maiores de 18 anos, a pedido da Pfizer, e apontou que 39% dos brasileiros de 18 a 24 anos consideram sua saúde mental durante a pandemia como “muito ruim”.

Problema silencioso
Os dados dos estudiosos de São Paulo aparecem nos resultados preliminares da pesquisa Jovens na Pandemia, coordenada por Guilherme Polanczyk, psiquiatra da infância e adolescência e professor do Departamento de Psiquiatria da FMUsp, e foram apresentados em uma sessão da Comissão Externa de Enfrentamento à Covid-19 na Câmara dos Deputados em junho. Segundo pais de cerca de 7 mil crianças e adolescentes monitorados no país, 26,7% têm sintomas que indicam a necessidade de acompanhamento de profissionais especializados em saúde mental, e 55% têm sinais altos ou muito alvos de sofrimento.

Pesquisadores da Universidade de Calgary, no Canadá, chegaram a uma conclusão bem parecida ao fazerem uma metanálise de estudos que analisaram o comportamento de mais de 80 mil jovens no mundo na pandemia. Os resultados, que apontam que um a cada quatro tem sintomas elevados de depressão (25,2%) e um a cada cinco sentem ansiedade (20,5%), foram publicados na revista cientifica JAMA Pediatrics no dia 9 de agosto.

Mas, quem tem condições, de fato, de receber acompanhamento especializado e cuidar dessa dor? Na apresentação aos parlamentares, o professor Guilherme chamou a atenção para o quanto a saúde mental de crianças e adolescentes é negligenciada no Brasil, o que torna o problema silencioso.

“Pandemia gera situação de estresse, gera sofrimento emocional, pode causar transtornos mentais em indivíduos mais suscetíveis. Com o acúmulo de eventos graves associados à pandemia, o potencial de gerar transtornos em um número crescente de indivíduos aumenta ao longo do tempo. Obviamente, sentem maiores efeitos as crianças mais vulneráveis”, completou.

Desigualdades
Por aqui, pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e da Federal do Recôncavo (UFRB) conduzem o estudo Infância em Tempos de Pandemia – desenvolvido pela Federal de Minas Gerais (UFMG) em Belo Horizonte –, ouvindo meninos e meninas de 8 a 12 anos em Salvador e Região Metropolitana – com o consentimento dos responsáveis.

Uma das coordenadoras da pesquisa na Bahia é a professora Juliana Prates Santana, do Instituto de Psicologia da Ufba. O trabalho não busca investigar traços de sofrimento psíquico, mas é possível perceber, pelas respostas aos mais de mil questionários já aplicados, como as tensões e preocupações durante a pandemia que atingem esses meninos e meninas são atravessadas por questões sociais e estruturais como, racismo, machismo, violência de gênero, capacitismo.

“Essas análises preliminares mostram que as crianças, assim como todos nós, tiveram um aumento das suas preocupações em tempos de pandemia. Estão preocupados se os pais teriam trabalho ou não, se elas voltariam a brincar com os amigos, se os pais perderiam o emprego, se teriam o que comer”, aponta.

Desenhar pode ser uma forma mais tranquila para crianças de expressar o que estão sentindo; este foi feito por uma mneina de 12 anos para o projeto Infância em tempos de pandemia, da Ufba
(Foto: Reprodução)

Isso chama a atenção, afirma Juliana, para o grande problema de acesso a recursos básicos, como saneamento, moradia de qualidade e até alimentação. Os pais, principalmente das crianças pretas e pobres, não puderem deixar de ir para o trabalho e, em ambientes familiares mais restritos, não há sequer como cumprir as medidas como o distanciamento social, uso de máscara, higiene das mãos.

“A situação de distanciamento social, principalmente o afastamento da escola, as aulas virtuais, a hiper vigilância familiar – ou seja, o tempo apenas com a família e não mais com a escola e outros contextos de desenvolvimento – modificam muito os comportamentos das crianças, os sentimentos, o aumento dos medos, dos próprios sintomas de ansiedade, de mudança no padrão de sono, no padrão alimentar”, enumera.

Esse afastamento da escola foi um dos grandes motores da ansiedade de Clara. A mãe conta que, aos 13 anos, na idade da socialização, a menina acabou privada disso. Há três semanas, a garota encontrou as três melhores amigas pela primeira vez, num passeio no shopping. “Foi ótimo, no dia seguinte ela estava superfeliz, mas no segundo dia ela já estava de banzo de novo, porque ela se deu conta de que aquilo era uma exceção”, lembra a mãe.

Hiper convivência e violência
Por mais contraditório que possa parecer, o convívio aumentado no ambiente familiar tem se mostrado um fator de sofrimento para algumas crianças e adolescentes. É que, assim como a hiper convivência fez aumentar os casos de violência contra as mulheres, a hiper convivência familiar também fez crescerem os casos de violência intrafamiliar.

Coordenadora do Grupo de Trabalho de Defesa dos Direitos da Criança e da/o Adolescente do Conselho Regional de Psicologia da Bahia, a psicóloga Manoela de Oliveira Lainetti fala desse crescimento. “O aumento compulsório do tempo que se fica junto dentro de casa faz com que as pessoas estejam mais tempo juntas e, com isso, a gente percebeu um aumento de todos os tipos e violência”, afirma.

“A violência – física, sexual e psicológica – é uma das grandes motivações de ansiedade e depressão em crianças e adolescentes”, completa Manoela.

Para ela, além de tudo isso, a permanência em casa e o afastamento da escola ainda tiram esses meninos e meninas de um espaço de proteção. “Nesses espaços, tanto os profissionais podem perceber [alguma violência], como eles, através de uma relação de confiança, podem relatar o que está acontecendo”, pontua.

Falta de convívio social
Para as psicólogas clínicas Candice Santana e Carolina Pinheiro Moreira, que atendem crianças e adolescentes, a falta de interação social e esse maior convívio em casa estão mesmo causando mais sofrimento.

“Essas fases são marcadas pela exploração do mundo e pela conformação de grupos indenitários. A suspensão abrupta dessas ações somada à necessidade de criação de novas rotinas como o ensino remoto (ou a falta dele), além da convivência em um tempo maior no ambiente doméstico, tem causado sofrimento psíquico para muitas crianças e adolescentes”, afirmam.

A escola, explicam, é um espaço importante, inclusive para a construção de vínculos, para uma troca afetiva-social. E ainda há outro fator relacionado à educação que pode desencadear sintomas de ansiedade: a falta de adaptação ao ensino remoto e até a impossibilidade de acompanhá-lo, por não haver acesso às ferramentas tecnológicas exigidas. Isso diminui o rendimento escolar, um dos sinais que devem ser observados por pais e responsáveis nesse período.

“No final das contas, essa questão da pandemia trouxe uma mudança de cotidiano muito grande e de repente, não teve um tempo de preparação para isso acontecer. Num dia, as crianças estavam indo para a escola e no outro não estavam mais. Tiveram crianças e famílias que se adaptaram muito bem a isso; outras, não”, observa Manoela.

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Automutilação e pensamentos sobre a morte também acometem crianças

Há muitos sinais que indicam que crianças e adolescentes estão passando por algum tipo de sofrimento psíquico e precisam de ajuda. Para as psicólogas clínicas Candice Santana e Carolina Pinheiro Moreira, que trabalham com o atendimento justamente desse público, esses sinais podem variar com a idade, a dinâmica familiar e os determinantes de gênero, raça e classe social.

“Mas, entre os mais comuns, podemos citar o embotamento afetivo [dificuldade de expressar emoções e sentimentos], medo, humor rebaixado, enurese [xixi na cama], dificuldade de dormir, de cumprir as atividades da vida diária, comportamentos de isolamento, a perda de interesse por atividades antes consideradas prazerosas”, enumeram.

Manoela de Oliveira Lainetti, coordenadora do Grupo de Trabalho de Defesa dos Direitos da Criança e da/o Adolescente do Conselho Regional de Psicologia da Bahia, também lista uma série de sinais [veja nos quadros ao lado como identificá-los e como amenizar as situações]. E ela chama a atenção para uma questão importante em que os pais devem ficar ainda mais atentos: são os casos mais graves, de automutilação, pensamentos sobre suicídio e até a presença de situações em que a criança ou o adolescente se coloca em perigo.

“A gente parte do princípio de que crianças, principalmente as menores, não tentam suicídio. E elas pensam nisso, algumas tentam e algumas têm sucesso. A gente tem um caso recente de um adolescente de 12 anos que, pelo bullying postado na internet, acabou se suicidando. Mas, como a gente não pensa que isso pode acontecer, que as crianças pequenas podem pensar nesse tipo de coisa, a gente não presta atenção: diz que isso é frescura, que é falta do que fazer... E não: isso, muitas vezes é uma expressão muito intensificada de um sofrimento mental muito grande”, alerta.

A professora Juliana Prates Santana, do Instituto de Psicologia da Ufba, ainda observa outra questão. Para as crianças, de um modo geral, existe um temor pela perda dos pais. Mas, antes da pandemia, esse era um não era um medo tão palpável. “Na pandemia, o medo diante da possibilidade da morte não é um medo abstrato, é algo que de fato pode acontecer. Os dados sobre orfandade na pandemia são muito assustadores e vamos ter uma geração marcada pela perda dos pais, dos avós”, aponta. Pesquisa da cientista americana Susan Hillis aponta que, de março de 2020 a abril de 2021, 113 mil crianças brasileiras perderam o pai, a mãe ou ambos na pandemia.

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Atenção aos sinais:

A psicóloga Manoela de Oliveira Lainetti, do Conselho Regional de Psicologia da Bahia, chama a atenção para sinais que podem indicar que a criança ou adolescente precisa de ajuda. Abaixo, veja digas da profissional de como amenizar a situação.

Problemas com o sono: A criança e o adolescente estão dormindo pouco ou dormindo demais, tendo muito pesadelo, enurese noturna (faz xixi na cama). Ansiedade e depressão influenciam no sono.

Mudanças no padrão de alimentação: A criança não quer comer ou está comendo demais. Ou, ainda, passa a ter uma preocupação excessiva com o peso e a imagem corporal. O tempo de ficar na internet aumentou muito e a internet é o lugar que mostra um tipo ideal de beleza. As meninas e os meninos, principalmente adolescentes, começam a se comparar bastante. Isso influencia numa autoimagem corporal mais negativa e pode ser um componente para a ansiedade.

Insegurança alimentar: Muitas crianças e adolescentes estão passando por restrição alimentar ou insegurança no sentido de não ter certeza se a família vai ter o que comer. 

Menor rendimento escolar: Teve criança que se adaptou muito bem às mudanças, mas outras não conseguiram fazer uma boa adaptação por questões como a falta de acesso a recursos tecnológicos.

Sinais físicos: Tiques, o ato de roer as unhas, ranger os dentes, problemas de pele, respiratórios, dores de uma forma geral - de cabeça e estômago.

Automutilação: São situações mais graves e que acontecem mais em adolescentes, mas também em crianças. 

Agressividade: Agressividade e irritabilidade muito constantes acabam prejudicando a criança. 

Passividade: Eles podem estar muito apáticos, perderam o interesse pelo que gostam.

Exacerbação de medos: Medo do escuro, de dormir sozinho, de monstros. Isso torna o momento de dormir uma coisa extremamente estressante.

Isolamento: A criança ou adolescente não quer conversar com ninguém, fica bastante no quarto de porta fechada, não quer sair nem interagir.

Comportamentos de risco: Qualquer situação que a criança ou adolescente traga risco para si mesmo.

Choro intenso e necessidade de atenção: Em bebês e crianças menores, pode ser um choro mais intenso, necessidade de atenção e de ficar no colo. É uma tentativa confusa e frustrada de se comunicar.


Como amenizar a situalão atual?

Focar numa boa alimentação: A forma como a gente se alimenta, como e de que forma, tem uma ligação direta com a nossa saúde mental, tanto em termos de nutrientes como em termos de relações interpessoais. Nosso comer é um comer social. É importante observar se a gente faz isso na frente da TV ou com a família na mesa?

Praticar exercícios físicos: Não precisa ter aquela obrigação de sair para fazer uma caminhada, mas pode-se sair com máscara, dando preferência a lugares abertos para um passeio no parque, na praia e, lógico, mantendo um distanciamento social.

Investir na resolução não violenta de conflitos: O conflito que é resolvido com violência significa mais conflitos, sempre. Então, esta é uma boa oportunidade de as pessoas começarem a treinar aprender a fazer uma resolução de conflitos que não envolva nem violência física e nem psicológica.

Conversar com crianças e adolescentes: Escutar o que eles têm a dizer, responder às dúvidas que eles têm. Eles precisam saber que podem contar com você, que eles podem ter em você uma pessoa com quem podem conversar sobre as angústias, que eles não vão ser julgados e nem diminuídos.

Ajudar a encontrar outras maneiras de expressar: Uma alternativa pode ser fazer um diário, fazer desenhos, coisas que não sejam tão diretas. Crianças pequenas têm mais dificuldade de dizerem o que sentem, mas nos desenhos elas conseguem se expressar melhor.

Buscar interações de boa qualidade: Quando acaba a energia, todo mundo é obrigado a sair das telas e aí aparecem aquelas coisas que a gente fazia quando era criança: brincar de baralho, de mímica, jogos de tabuleiro, contar histórias da família, coisas antigas. É priorizar uma interação que não tenha a questão tecnológica envolvida ou que ela não seja o fator principal.

Limitar a exposição às notícias:  Não é preciso proibir o acesso às notícias, porque eles já sabem o que está acontecendo. É necessário informar, mas sem o excesso, porque ele pode aumentar essa ansiedade.


Onde encontrar ajuda:

- Centro de Atenção Psicossocial Professor Luiz Meira Lessa - Infantojuvenil (CAPSi)

Rua das Mangaloeiras, 32, Jaguaribe, Salvador - (71) 3335-6827

- Centro de Atenção Psicossocial Liberdade - Infantojuvenil (CAPSi)

Rua Conde de Porto Alegre, 11, IAPI, Salvador - (71) 3202-1596

- Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas Gregório de Mattos (CAPS Ad)

Largo Terreiro de Jesus – Faculdade de Medicina da Bahia (Ufba), Pelourinho, Salvador - (71) 3322-0235

Atende crianças e adolescentes que fazem uso abusivo de drogas

- Serviço de Psicologia Prof. João Ignácio de Mendonça (Ufba)

Pertence ao Instituto de Psicologia da Ufba, em São Lázaro, mas está fazendo atendimentos online. É preciso consultar a disponibilidade para crianças e adolescentes – (71) 98522-8306

- Crianças na Ufba

Atividade de Extensão do Instituto de Psicologia da Ufba. Durante a pandemia, fez uma série de lives, disponíveis no Instagram @criancasnaufba.

- Pode Falar

Canal da Unicef de ajuda em saúde mental para quem tem entre 13 e 24 anos de idade. Há conteúdo sobre como se ajudar e ajudar outras pessoas; depoimentos de adolescentes e jovens que conseguiram superar as dificuldades; e espaço de escuta individual oferecido por associações na área de saúde mental. O site é o www.podfalar.org.br

*Nome fictício

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