Encomenda proibida: como os Correios viraram canal para o tráfico de drogas

salvador
25.08.2021, 05:00:00
(Foto: Receita Federal )

Encomenda proibida: como os Correios viraram canal para o tráfico de drogas

Entenda motivos que levaram serviço a ser o queridinho dos criminosos

No ar, no mar, nas estradas e agora através das encomendas. Além dos navios, aeroportos e rodovias, as correspondências enviadas pelos Correios são mais uma via de alternativa para o tráfico de drogas na Bahia. Duas operações de órgãos distintos foram realizadas nesta terça-feira (24) no combate da modalidade. 

A primeira foi Polícia Federal (PF), que cumpriu mandados de busca e apreensão nas cidades de Feira de Santana e Curitiba, no Paraná, contra grupo que atuava traficando drogas através de correspondências enviadas pelos Correios. Praticamente ao mesmo tempo, a Receita Federal realizou uma fiscalização no Centro de Distribuição dos Correios, na Via Parafuso, onde chega todas as encomendas, para posteriormente serem distribuídas para todo o estado. Além das mercadorias irregulares, a ação dos auditores ficais visa também o tráfico de entorpecentes.  

“É uma porta pela facilidade de estar em todos os lugares do país. Onde o cara estiver, de qualquer ponto, ele vai encontrar alguma agência credenciada ou franqueada dos Correios para enviar e receber uma encomenda. Quando encontramos algum entorpecente, do tipo maconha, acionamos imediatamente a Polícia Federal”, declarou auditor fiscal da Divisão de repressão ao Contrabando e Descaminho da 5ª Região Bahia e Sergipe, Marconi Andrade, à frente da operação realizada no Centro de Distribuição dos Correios no Cia.  

A operação começou por volta das 8h. “Até agora a gente pegou medicamentos proibidos, como anabolizantes e comprimidos”, disse o auditor fiscal, por volta das 11h desta terça. Esta foi a quarta operação da Receita Federal realizada neste ano no centro de distribuição.  Mas numa ação em maio deste ano, a Polícia Civil localizou no centro drogas, arma e munições – uma apreensão avaliada em R$ 100 mil (Leia abaixo)  

A fiscalização da Receita é feita por amostragem. As correspondências são passadas num scanner. Para o tal procedimento, são selecionadas principalmente encomendas vinda de locais suspeitos. “Regiões de fronteira, como Paraná, que é um lugar que envia droga, por exemplo. Geralmente tudo o que a gente pega aqui do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Manaus, além de São Paulo”, explicou o auditor fiscal.  

Receita Federal durante operação no Centro de Distribuição dos Correios (foto: Receita Federal) 

Numa operação semelhante da Receita no mesmo centro de distribuição dos Correios, houve uma apreensão de cerca de R$ 150 mil em produtos, em abril deste ano. A equipe de Repressão ao Contrabando e Descaminho apreendeu celulares, videogames, Ipad, medicamentos, tênis e roupas falsificadas. Foram encontrados aproximadamente 45 volumes de mercadorias sem nota fiscal, entre artigos originais e produtos falsificados.

Um fator que facilita a vida dos bandidos no uso dos Correios para traficar é que a Receita Federal não possui uma equipe de cães farejadores para fazer grandes apreensões nesse âmbito.

Grupo
Na manhã desta terça, a PF deflagrou a Operação Frutas Exóticas, cumprindo dois mandados de busca e apreensão nas cidades de Feira de Santana e Curitiba, no Paraná contra grupo que traficava drogas através de correspondências enviadas pelos Correios. A investigação começou no dia 6 de maio desse ano, quando a PF interceptou uma correspondência que seria entregue em Feira de Santana contendo maconha e haxixe.

Na ocasião, três pessoas foram identificadas como destinatários da encomenda e confessaram que a adquiriram as drogas através de contato com o responsável por um perfil de uma rede social, que contava com mais de 26 mil seguidores. Na ocasião foram apreendidos os aparelhos celulares dos compradores e com a análise de seu conteúdo conseguiu-se identificar o responsável pela venda do entorpecente na cidade de Curitiba/PR além de outras pessoas que poderiam estar negociando a droga em Feira de Santana.

Os mandados que estão sendo cumpridos nessa terça-feira (24) foram expedidos pela 1ª Vara de Tóxico de Feira de Santana. Os investigados irão responder pelos crimes de tráfico de drogas.

Salvador
No final de maio desse ano, uma 'encomenda' nada convencional foi encontrada no Centro de Distribuição dos Correios, na Via Parafuso. No local, a polícia encontrou drogas, arma e munições avaliados em R$ 100 mil. 

Entre os itens apreendidos, havia uma submetralhadora artesanal, 500 papelotes de cocaína, 250 comprimidos de anabolizantes, 44 munições, 900 sementes de maconha, uma pedra de pasta-base de cocaína, outras porções maiores da mesma substância e tabletes de maconha acoplados dentro de uma panela de pressão, de um carro infantil e de objetos de pelúcia.

A ação contou com a 1ª Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes (DTE), equipes da Coordenação de Narcóticos do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), e com os cães farejadores da Coordenação de Operações Especiais (COE). "Essa é a terceira fase da Operação Correios. Na primeira, três destinatários foram presos. Agora o trabalho é identificar essas pessoas, intimá-las e buscar elementos para indiciar. Trata-se de tráfico de drogas interestadual", explicou na época o coordenador de Narcóticos, delegado Yves Correia. 

Ainda segundo o delegado, a polícia ficou surpresa com os objetos utilizados para burlar a fiscalização. "Encontramos drogas dentro de panela de pressão, carrinho de criança e, desta vez, por conta do Dia dos Namorados, veio droga dentro de uma pelúcia de coração. Por isso, é fundamental a participação da cadela da COE na identificação das drogas", afirmou.

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