Ensino remoto e terceira idade: como quem já passou dos 60 está aprendendo em 2021?

bahia
01.10.2021, 05:45:00
Atualizado: 01.10.2021, 05:55:36
Vera Spinola faz graduação em Letras aos 67 anos (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Ensino remoto e terceira idade: como quem já passou dos 60 está aprendendo em 2021?

Público mais velho vem invadindo as redes na Bahia

Para quem já nasceu na frente de um computador ou com um celular na mão, fica bem mais fácil, mas para aqueles que são do tempo do telegrama e do fax, participar de uma aula virtual e criar uma apresentação de slides pode ser um bicho de sete cabeças. Enfrentar o ensino remoto tem sido um desafio para a grande maioria dos estudantes universitários por diversos motivos, mas o pessoal da terceira idade ainda ficou com um obstáculo a mais: desvendar os mistérios do mundo digital. 

Segundo dados do IBGE, de 2018 para 2019, 860 mil baianos passaram a usar a internet. Ao contrário do que se pode pensar, essa evolução do dado não é puxada pelo público jovem e sim pelo público idoso, que representa 37% desse total. Seja para ter acesso aos serviços, viabilizar a solução de problemas do sofá de casa ou facilitar o contato com familiares e amigos à distância, fato é que o público mais velho vem invadindo as redes na Bahia. Com a pandemia e o ensino remoto, esse número pode ter crescido ainda mais com o propósito de acompanhar as aulas. 

Josélia Rodrigues é uma das pessoas que incrementa esse montante. Hoje, aposentada mas ainda sem nenhum diploma de graduação, aos 62 anos ela cursa Direito na Universidade Federal da Bahia (Ufba) no turno da noite desde 2018.  Além dos cabelos brancos, ela assume também a resistência e os problemas que enfrenta com as novas tecnologias, mas não se deixa vencer. 

“Tive muita dificuldade para me adaptar, relutei bastante, mas não teve jeito. Hoje eu já me acostumei e aprendi. Até reunião por vídeo chamada eu já sei marcar e já consigo também fazer apresentações. Faço o básico, não sou nenhuma especialista, mas consigo participar e acompanhar as coisas”, diz, orgulhosa. “Quero manter a mente ocupada, fazer alguma atividade enquanto o Alzheimer não me pega e, quem sabe, trabalhar na área”, acrescenta.

Josélia não é a única. Na Ufba, o número de alunos a partir dos 60 anos matriculados nos cursos de graduação no primeiro semestre de 2019 estava em 232. No segundo semestre, eram 240. No início de 2020, as aulas foram interrompidas e só retomadas com o semestre suplementar, que teve início em setembro. O esquema não foi obrigatório e contou com 152 alunos dessa faixa etária. No início deste ano, eram 222 e, agora no segundo semestre de 2021, são 209. No total, a universidade tem 414 alunos ativos na graduação com mais de 60 anos. 

O caminho de Josélia, como já anunciado, não foi tão fácil. Ela não tinha Facebook, Instagram e nem mesmo um Gmail. “Só o básico: WhatsApp”. Mas a graduação, antes mesmo do ensino remoto, já a pressionou a explorar o ambiente digital. Os professores começaram a criar grupos no Facebook e exigir atividades que precisavam do Instagram.

“Eu achava um absurdo! Tive que criar uma conta, mas não coloquei foto, nem informação nenhuma minha. Não uso muito e não gosto”, opina. “Os mais novos já cresceram no digital. O povo hoje antes de nascer de verdade nasce no Instagram. Eu costumo dizer que essas coisas são para quem não tem boleto para pagar”, brinca ela. 

A necessidade de adentrar cada vez mais o mundo digital foi aparecendo aos poucos com o ingresso na faculdade, mas o ensino remoto acelerou essa mudança e não deu muito tempo e nem ferramentas para o processo de adaptação. A filha de Josélia mora em São Paulo, então ela não tinha a quem pedir socorro em casa se o computador travasse, a conta não entrasse ou o link não abrisse, por exemplo. O jeito foi assistir a tutoriais e contar com a ajuda dos colegas. 

Josélia Rodrigues cura Direito aos 62 anos e percorreu um longo caminho até se adaptar ao mundo digital (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

“No primeiro semestre foi bastante complicado, eu ficava me batendo com as coisas. E a gente tem um monte de plataformas, então alguns professores usam o Moodle, outros o Zoom, o Google Meet, tem o Google Sala de Aula e a gente vai se virando. A dificuldade maior foi baixar as coisas no computador e criar as contas”, relata. 

Hoje ela participa das aulas e até de atividades de extensão, mas as ressalvas sobre o mundo dos novinhos millennials e geração Z continuam. “Brigo com minha filha porque quero falar com ela todo dia, mas ela fica mandando mensagem. Gosto de ouvir a voz e de ver o rosto porque eu consigo saber se ela está bem mesmo. Prefiro fazer uma ligação quando ela tiver mais tempo para falar comigo de verdade”, destaca Josélia. 

A professora da Faculdade de Educação (Faced) da Ufba, Karina Menezes, é especialista em educação e tecnologias e cita alguns dos desafios que alunos com mais de 60 anos enfrentam no ensino remoto. De acordo com uma pesquisa feita em 2020 com estudantes de pedagogia, a maioria deles só têm o celular disponível para acessar aulas e materiais. Para a professora, esse é um grande ponto de dificuldade. 

“Além dos limites de aprendizagem numa idade avançada, principalmente em relação às tecnologias, que é algo que muitos deles têm pouco contato, existem os limites físicos que se relacionam à postura de permanecer diante dos aparelhos e a dificuldade de visualizar materiais e ler textos em telas”, aponta Karina. 

Mas o ensino remoto também traz outra limitação: a de socialização. Para a maioria daqueles que habitam a casa da terceira idade, o contato presencial é fundamental e, para muitos, a interação com os colegas de curso e ambientes diferentes é, na verdade, o principal objetivo da graduação. “Já ouvi de alguns estudantes dessa idade que seria mais interessante para eles esperar o retorno presencial porque fazem o curso com objetivos que vão além de aprender e conseguir um diploma. A universidade é um espaço para socializar, mudar de rotina, se ocupar”, completa a professora. 

Para a estudante do curso de Letras Vernáculas com Português da Ufba Ângela Belas, de 63 anos, esse é o grande ponto negativo do ensino remoto. Ela lida com computadores desde os anos 80, domina o YouTube, curte jogos digitais e até ajuda os colegas da mesma idade que têm mais dificuldade com as novas tecnologias, mas o que aperta mesmo é a saudade do campus.  ngela sempre foi apaixonada pelo ambiente universitário, é graduada em Ciências Sociais pela Ufba e foi professora da Uneb. 

“Sempre gostei da universidade. Participava de grupo de estudos e de quase todas as atividades culturais que ocorriam. Era uma rotina bem movimentada dentro do campus. Sinto falta de frequentar a biblioteca, de tomar café na cantina, de ter contato com professores e colegas e poder prosear sobre assuntos diversos. É uma saudade dos espaços, do transitar e do astral e da energia gostosa do campus”, conta a estudante.

Ela diz que adora interagir com os outros estudantes, inclusive os mais novos, mas nem sempre é bem recebida. O ensino remoto ampliou ainda mais essa barreira de contato. “Algumas vezes eu senti um certo estranhamento, preconceito mesmo por parte dos mais novos, sobretudo quando não conhecem a gente. Eles já pensam que seremos um estorvo na equipe, até perceberem o que temos para oferecer”, relata  ngela. 
 
O principal objetivo de cursar uma graduação já durante a aposentadoria é “não ficar isolada apenas na vida doméstica”. A pandemia cortou o barato de  ngela e trouxe consequências. “O ensino remoto exige mais disciplina e eu estava muito dispersa no começo. A pandemia provocou um abalo emocional e tive que trancar o primeiro semestre remoto”, desabafa.

Mas ela ressalta também aspectos positivos, que giram em torno da flexibilidade. “Enquanto estou tendo aula, posso pesquisar na internet sobre o que está sendo dito. Também dá para administrar melhor o tempo. As aulas gravadas são muito interessantes porque, quando não é possível assistir ao vivo, você pode acessar quando der”, defende.

A colega de curso, Vera Spinola, de 67 anos, concorda. Ela ainda diz que as aulas remotas prendem muito mais a sua atenção e não ter que se deslocar até a sala de aula “é bem mais confortável”. Mas há ressalvas: é preciso ter uma boa estrutura em casa. “Eu não gosto de ler pelo celular, acho desconfortável porque tenho problema de vista cansada. Leio pelo computador, mas gosto mesmo é do Kindle. Acho que até me viciei um pouco, já acho melhor que o papel porque posso colocar letra grande, fazer marcações e buscas”, diz Vera. 

Assim como  ngela, ela já tinha facilidade em transitar pelo ambiente digital, mas esse universo sempre traz novos mistérios. “O avanço é muito rápido e a gente não consegue acompanhar tudo. Tem que parar para aprender. No início das aulas remotas era mais difícil, eu pedia ajuda do meu filho, mas depois fui ganhando independência. Me surpreendi por ter gostado e por ter funcionado bem. Consegui sobreviver”, diz ela, que já defendeu sua monografia (de forma remota), foi aprovada e aguarda receber o diploma. 

Vera, que já era formada em economia e em Letras com Inglês, tem mestrado em economia e doutorado em administração, agora vai dar um tempo da universidade. Seu plano é publicar o livro que escreveu e planejar o próximo da lista. Mas a paixão pela sala de aula não foi abandonada e ainda tem chance de voltar a falar mais alto. Seja de forma remota ou presencial, ela aceita o desafio. “Talvez eu ainda faça um mestrado em história. Eu gosto muito dessas experiências, quando a gente volta para estudar já mais madura é uma delícia”, finaliza Vera.  

Segundo o psicólogo Mateus Vieira, especialista e atuante no atendimento de idosos, a relação intergeracional promovida pelo ambiente universitário, ou seja, entre alunos mais velhos e mais novos, é um grande benefício para aqueles que estão na terceira idade. “Isso acaba favorecendo o estabelecimento de um ambiente de troca e aprendizado em diversos níveis. E o aluno idoso pode levar todos esses conhecimentos e habilidades, inclusive com a tecnologia, também para sua vida pessoal”, afirma Vieira.

O psicólogo ressalta que incluir o idoso no ambiente digital é incluir o idoso na sociedade como um todo. “É importante dizer que, assim como o estatuto do idoso prevê, a integração da pessoa idosa diante dos meios digitais é também uma forma de socialização e integração na sociedade e de promoção de saúde. A grande dificuldade de inserção é por se tratar de algo novo, da ordem do desconhecido. Cabe à sociedade em geral promover um espaço de acolhimento para que o idoso se sinta pertencente e consiga fazer um uso seguro das redes”, completa ele. 

Qual o caminho para fazer os +60 desvendarem os mistérios do mundo digital? 

Para o diretor de tecnologia da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (Semit), Ricardo Seixas, a pandemia deixou a tecnologia ainda mais evidente do que já estava; quem já era ativo nas redes avançou e, quem não tinha entrado ainda teve que se digitalizar a todo custo. Mas ele ressalta as limitações que o ambiente digital ainda coloca. “O ensino remoto depende de conectividade, aparelhos e ferramentas. Acesso a isso tudo já é considerado por muitos como direito básico, mas, em Salvador, a cada 100 domicílios, apenas 49 têm banda-larga”, aponta.

Seixas coloca que, para que ninguém seja deixado para trás, inclusive os idosos, é preciso unir esforços de políticas públicas, iniciativas das empresas responsáveis pelas ferramentas digitais e atitudes de professores e da sociedade como um todo. “A ideia é universalizar a internet para todos. Para os idosos, além de possibilitar o acesso, é preciso ensinar como fazer e criar um ambiente em que eles se sintam seguros para usar a internet. Existe uma desconfiança muito grande e é, então, preciso quebrar um costume, um paradigma, uma tradição mesmo”, opina.  

A professora da Faced, Karina Menezes defende que é preciso ter uma atenção a mais com esse público na hora de ensinar. “Precisamos ter uma preocupação com as plataformas de educação online adotadas porque a linguagem que elas usam é muito importante. O mundo digital é feito de ícones, links, palavras e imagens que, muitas vezes, não são comuns para esse público. Ninguém nasce sabendo essa linguagem e nem aprende na escola. É o que chamamos de desafio da alfabetização digital”, aponta Karina.

A professora ainda diz que é importante tentar padronizar o máximo possível e evitar mudanças, além de buscar facilitadores que parecem simples, mas fazem grande diferença e podem contribuir para a inclusão não somente de pessoas de idade avançada. “Nós discutimos isso e foi recomendado que trabalhássemos com textos que permitissem a leitura de tela, ou seja, material que possa ser lido por leitores automatizados em voz alta. Isso é muito bacana porque representa uma preocupação com estudantes em geral, seja para quem não pode enxergar ou para quem não tem condições adequadas para fazer uma leitura”, finaliza.  
 

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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