Es-go-ta-das: quando ligar o alerta para o risco do Bournout Parental?

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16.10.2021, 07:00:00
Mãe de Arthur, 7 anos, Roberta Amorim passou a desenvolver quadros de ansiedade diante da de toda a sobrecarga casa, maternidade e trabalho (Foto: Nara Gentil/ CORREIO)

Es-go-ta-das: quando ligar o alerta para o risco do Bournout Parental?

Especialistas comentam os efeitos dessa sobrecarga intensa que afeta a saúde mental das mães e como a pandemia escancarou o peso da maternidade real

Sensação de cansaço, exaustão, invisibilidade, desgaste. O tempo todo. Não foi uma nem duas vezes que a jornalista Aline Caravina sentou e chorou. Mãe de João Pedro, 10 meses, e Alice, 6 anos, a pressão de cuidar dos filhos em uma pandemia, diante de uma sobrecarga intensificada, escancarou que as mães das novas gerações não querem ser vistas como heroínas, mas como mulheres que precisam de ajuda e apoio para manter a saúde física e mental, principalmente, nos primeiros anos de vida das crianças.  

Foram meses “enlouquecedores”, como a própria Aline define. “Fiquei em home office e vivia com a pressão que eu estabeleci para mim mesma de que tinha que mostrar trabalho o tempo todo. Então, trabalhei dobrado”. Foram inúmeros os momentos que ela chegou a questionar se era uma boa mãe.  

“Por vários momentos eu surtei. Me achava uma péssima mãe porque andava cansada e irritada com tudo. Sempre me cobrei muito para dar o meu melhor. Queria continuar sendo uma profissional exemplar, queria ser uma boa dona de casa, uma boa esposa e ser uma excelente mãe. Porém, me dar conta de que eu não sou uma super mulher me deixou abalada”, diz.  

Para ela, a sensação que fica é que mãe carrega eternamente o sentimento de culpa. “Desabafei muito com minhas amigas e uma ia consolando as outras. Meu marido se desdobrou para me ajudar nessa nova rotina. Até quando a gente acerta, se cobra e diz que não está bom. A lição que ficou é de que as crianças se adaptam muito melhor do que nós mães imaginamos. E que não precisa se cobrar tanto. Com paciência e dedicação tudo se ajeita”.  

Sim, está puxado. Que mulher não passou por esse ‘looping’ de sofrimento e de culpa no último ano? Provavelmente, muitas mães vão se identificar com o relato de Aline em meio ao ciclo de estresse acumulado e de cobranças ilimitadas. O fato é que o mantra do ‘eu dou conta’ vai além do esgotamento e pode esconder o burnout parental, problema que se intensificou na pandemia diante da sobrecarga elevada à exaustão de uma maternidade real.  

Diferente da Síndrome de Burnout – classificada como um fenômeno ocupacional pela Organização Mundial de Saúde (OMS) – o burnout parental ainda não foi caracterizado pela organização na Classificação internacional de Doenças (CID), porém, apresenta sintomas parecidos e se refere ao esgotamento mental e físico associado a criação dos filhos.  

A psicóloga sistêmica especialista em casal e família, Rebeca Oliveira, explica que entre os principais sintomas estão o cansaço tanto físico quanto mental de força excessiva, dor de cabeça frequente, fadiga, alterações de apetite e humor, insônia, dificuldade de concentração em atividades, sentimentos de fracasso e insegurança, pensamento negativo com constância, emoções relacionadas a derrota.  

“Muitas mulheres viveram a sobrecarga do trabalho ali no home office, parando, dando conta de criança, das aulas online, e-mail de chefe, reunião, criança que fica doente, isolamento social. Tive uma demanda acrescida de 50% no aumento de quadros de ansiedade e 30% de depressão, sobretudo, de mulheres que são mães.  Vejo essas duas crescentes como possíveis quadros posteriores de burnout materno. Em muitos dos relatos, elas acumulam vulnerabilidades em torno dessa maternidade: as altas expectativas, a invisibilidade, autonomia, a falta de uma rede de apoio”.  

Chama atenção também entre os principais sintomas, a negligência do cuidado consigo mesma. “São mães que deixam de lado o autocuidado, se isolam. Existem casos em há um distanciamento na relação com seus filhos e que impactam diretamente na sua afetividade com eles”.  

Rebeca tem prestado acolhimento gratuito para essas mães durante a pandemia. É necessário entrar em contato via direct no perfil do Instagram @falaserio_puerpério.“O tratamento para o burnout parental é basicamente psicoterapêutico, mas algumas situações exigem a prescrição de medicações antidepressivas e ansiolíticas para quadros de ansiedade. A terapia ajuda a criar ferramentas dentro dela para o enfrentamento disso”, complementa a especialista.    

Responsabilidade do cuidado  
No caso da contadora e mãe de Arthur, 7 anos, Roberta Amorim, chegou um momento que ela começou a desenvolver quadros de ansiedade.  

“Estava muito ansiosa e percebi que se não procurasse ajuda, minha situação iria se agravar. Comecei a fazer análise, apoio psicológico, para poder sabe direcionar e dirigir todo esse processo. Trabalhamos, estudamos, cuidamos dos filhos com muito amor e precisamos de uma parceria que chegue junto, que corresponda”.  

No meio do caos, Roberta teve que se tornar dona de casa, professora, profissional, cuidar dela mesma e do filho, ser esposa. “Ficamos domesticadas em meio todo esse cenário. Me via como uma governanta. Reprogramei o cérebro e a rotina para a sobrevivência do lar e do relacionamento”, completa.  

A psicóloga especialista em Teoria Junguiana e criadora do projeto AcolherPsi, em Salvador, Isabella Barreto, destaca que são as ‘super mães’ que estão mais suscetíveis a desenvolver um quadro de sobrecarga em excesso, o que pode acarretar um burnout  parental.

“Esse é um aspecto muito marcante. Uma queixa das mais comuns que ouvi é de que ‘só porque eu estou em casa, parece que eu não estou trabalhando. Sou eu para tudo?' Outro relato é o de solidão, não ter uma parceria nessa jornada”.  

Quanto maior a cobrança, maior o sofrimento, como acrescenta Isabella: “Ela pensa que não pode mostrar fraqueza ou fragilidade, tem que mostrar grande competência e eficiência, ser a melhor, mãe, profissional e esposa. Essa mulher que se exige demais sofre, com certeza, de maneira mais pesada. E esse é um aspecto muito mais adoecedor que potencializa o sofrimento e o desenvolvimento de outros transtornos, entre eles, a depressão e a ansiedade”, ressalta.  

A gerente financeira e mãe de Don, 7 anos, Mabel Carvalho, além de ter um filho cheio de energia em casa, perdeu o pai para covid-19 no ano passado. “Muita gente estava dependendo dos meus esforços nos últimos tempos. Me vi obrigada a trabalhar remotamente, meu filho querendo toda atenção do mundo. Meu pai morava com minha tia que é deficiente. Então, tive também que resolver as burocracias e ajustar a nova vida dela. Ficamos todos emocionalmente abalados”.   

Desamparo  
De acordo com um estudo feito no último ano pela Sempreviva Organização Feminista (SOF), sobre o Trabalho e a Vida das Mulheres na Pandemia, com mais de 2,6 mil brasileiras, 47% das entrevistadas afirmaram ser responsáveis pelo cuidado de outra pessoa. Destas,  57% são responsáveis por filhos de até 12 anos. Outro dado que reforça a pressão do cuidado é que 42% das mulheres responsáveis pelo cuidado de outra pessoa o fazem sem apoio de pessoas de fora do núcleo familiar. No período de isolamento social, 51% das mulheres que contam com algum apoio para o cuidado afirmaram que o apoio diminuiu.  

A falta dessa rede de apoio é mais um fator que coloca as mães nessa situação, como destaca a psicóloga sistêmica especialista em casal e família, Rebeca Oliveira, principalmente diante de uma maternidade que ainda é romantizada.

“A função materna na nossa sociedade já tem uma sobrecarga, que é exatamente esse papel de ser mãe. Nós temos uma função sociocultural que exige muito e há toda uma romantização em torno disso. Não se acessa os sacrifícios, o abdicar da sua dinâmica de vida, a responsabilidade de ter um ser para criar, manter vivo, dar afeto, cultura, sustentar”.  

Há famílias que perderam a escola, o suporte de uma babá ou precisaram se distanciar de familiares devido à pandemia, o que fez com que muitas mulheres se sentissem desamparadas. “Sabemos que existem alguns pais que são parceiros, no entanto, homens que se dividem na criação dos filhos e afazeres da casa ainda não é uma regra geral. Vimos mulheres perderam empregos e outras estavam em ascensão em suas carreiras. Por outro lado, toda a sobrecarga levou as mães a se defender, pedir socorro e passar por cima dos tabus de que é tudo lindo, um mar de rosas. De fato, ser mãe tem muita beleza, mas cuidar de uma criança não é uma tarefa fácil”, pontua.   

Mãe de Silvanildo, 12 anos, a auxiliar administrativa Ingridir Santos segurou o peso de não ter a escola no formato presencial. “Muitas vezes, me senti incapaz e tanto eu, como meu filho buscamos uma ajuda psicológica. Descobri que manter a atenção e disciplina de uma criança é complicado, imagina para uma sala com mais de 20 alunos. Antes da pandemia, a gente vivia um pouco longe e eu achava que dar uma boa escola, brinquedos, roupas, fazer as vontades, era não deixar faltar ‘nada’. Faltava, na verdade, ouvir meu filho, ver as dificuldades emocionais, acolher o sentimento dele”.  

Já a professora Erika Hayne, mãe de Anna Paula, 10 anos e Anna Julia, 8 anos, sentiu a falta de um escape, principalmente, porque enfrentava em meio a esse turbilhão, a doença terminal do pai. “Além de tudo que tinha que fazer para suprir meu trabalho e as necessidades das crianças, no auge da pandemia, meu pai sucumbia cada dia, em razão de um câncer. Depois que quase pirei, pensei: vou fazer o que for possível. Aceitei as falhas, sejam elas de onde vieram”, afirma.  

Saúde mental materna importa  
A saída está não perder de vista o autocuidado e com isso, criar ferramentas que possam auxiliar no enfrentamento dessas angústias, como aconselha a psicóloga Isabella Barreto:

“O autocuidado se refere, principalmente, a uma saúde psíquica e emocional. Alcançar a compreensão da importância de se cuidar, de colocar um limite, compartilhar essas responsabilidades”.  

E como ajudá-las?  Quando cada um participa, não sobrecarrega o outro. “Todos precisam participar e estar integrados as novas estratégias e demandas da nova realidade. Permitir a colaboração dos integrantes da família, inclusive, as crianças, naquilo que está dentro da possibilidade de cada um. É a consciência de que quando a gente sobrecarrega alguém e esse alguém adoece fica mais complicado e pesado para todo mundo”, defende. 


Rede de apoio online  

O aplicativo Benditas Mães (@benditasmaesoficial) é uma comunidade de mulheres onde é possível participar de grupos, compartilhar informações sobre a maternidade real e se ajudar. A ferramenta é gratuita e está disponível tanto para no Google Play como na App Store. 


Consumo de álcool por mães com filhos menores aumenta 323% na pandemia 

Estresse e ansiedade são alguns dos fatores associados ao aumento consumo de álcool por mães com filhos menores de 5 anos na pandemia. É o que aponta uma pesquisa divulgada, no último mês, pela organização sem fins lucrativos RTI International, em parceria com Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo dos EUA, que constatou um crescimento de 323% de ingestão de bebidas alcoólicas por esse grupo.  

Os resultados mostraram que o maior aumento foi entre as que tem filhos menores de 5 anos (323%), seguido por mulheres negras (173%) e hispânicas (148%). O estudo analisou, desde o início do isolamento social até novembro do ano passado, como o álcool se mostrou presente como um recurso para lidar com a sobrecarga que as mães têm vivido no último ano.  

Para a psicóloga com formação em terapia psicanalítica, Paola Kolberg, a ‘gratificação’ começa com uma taça de vinho, um drink, uma cervejinha a mais.

“O álcool passou a representar um espaço de tranquilidade e uma recompensa, ou seja, tornando-se um aliado positivo para enfrentar a nova rotina pandêmica”.  

O sinal de alerta surge quando o uso do álcool passa a funcionar como um escape para aliviar a tensão. “Isso pode ser um perigo, pois a sensação de bem-estar e conforto passa e a 'vida real' conturbada segue existindo. Esse comportamento tende a crescer e a pessoa passar a aumentar a dose e, até mesmo, desenvolver um vício”, chama atenção. 


CINCO CONSELHOS PARA FORTALECER AS MÃES

1.O primeiro é buscar ajuda. Seja de um psicoterapeuta, um grupo ou comunidade onde as pessoas vão te ouvir, sem julgamento, em um lugar se sinta segura. É importante não enfrentar isso sozinha.   

2. Busque atividades em que possa dissolver as tensões. Grupos de mães, dança, arte e música, meditação, yoga, reike, acupuntura, por exemplo.   

3. Prioridade: desenvolva uma rotina de auto cuidado e não abra mão disso. Seja justa com você. Diminua a autocobrança, escolha as atividades que serão feitas naquele dia e se libere das que não serão possíveis.   

4. Tenha momentos seus, exclusivamente afetivos com o seu filho.  É deixar o celular de lado, o e-mail que ficou pendente. Se conecte em uma brincadeira afetiva, tenha momentos de prazer e de conexão com a sua criança.   

5. Não precisa dar conta de tudo. Abra mão dessa necessidade que foi imposta de buscar a perfeição em uma rotina tão pesada e tão rígida.

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