Especialistas baianos demonstram preocupação com nova variante sul africana

salvador
27.11.2021, 07:00:00
Atualizado: 28.11.2021, 21:29:22
(Reprodução/Pixabay)

Especialistas baianos demonstram preocupação com nova variante sul africana

Vacina pode perder eficácia com nova cepa

Mais uma variante da covid-19 preocupa o mundo: a B.1.1.529, encontrada pela primeira vez na África do Sul. Vários países da Europa, como Itália, Alemanha e Inglaterra, além de Israel, o primeiro país a conseguir controlar o novo coronavírus, já anunciaram a suspensão de voos sulafricanos. Especialistas da Bahia demonstram a mesma preocupação, pois é uma cepa de muitas mutações e que se liga à proteína spike, ou seja, pode desfazer o trabalho da maioria das vacinas, com diminuição da eficácia. Enquanto isso, as fronteiras do Brasil permanecem abertas, mesmo após recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. 

A assessoria do aeroporto de Salvador informou que não existem voos diretos da capital baiana para nenhum país africano. Contudo, a nova mutação do vírus pode chegar através de escalas, conexões aéreas, transportes marítimo e rodoviário. A Secretaria de Comunicação do governo estadual disse não ter responsabilidade em fiscalizar ou controlar os portos e aeroportos, somente o transporte terrestre intermunicipal, através da Agerba. A responsabilidade seria, então, da Anvisa, segundo a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab).

A Agência emitiu uma nota técnica, na manhã desta sexta-feira (26), para que o governo federal suspenda imediatamente os voos procedentes da África do Sul, Botsuana, Eswatini (antiga Suazilândia), Lesoto, Namíbia e Zimbábue. Além disso, ela recomenda a proibição, em caráter temporário, do desembarque, no Brasil, de qualquer turista com passagem por algum desses seis países africanos. Para os brasileiros que passarem por essas localidades, é previsto, ainda, uma quarentena de 14 dias. 

Veja nota técnica da Anvisa na íntegra:

A efetivação dessas medidas, contudo, não é competência da Anvisa. Ela afirma que isso depende de uma portaria interministerial editada conjuntamente pela Casa Civil, pelo Ministério da Saúde, pelo Ministério da Infraestrutura e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A Casa Civil disse que depende dos outros ministérios para emitir a portaria. O Ministério da Saúde não respondeu ao CORREIO até o fechamento desta matéria. 

Com as portas abertas para o novo vírus, que já chegou na Europa, com um primeiro caso confirmado na Bélgica, o próprio governador da Bahia, Rui Costa, reconheceu, pelo Twitter, nesta sexta, a gravidade da situação. “As notícias sobre a pandemia no mundo são preocupantes. Temos hoje a confirmação de uma nova variante, descoberta na África do Sul. Aqui há muitos baianos sem tomar a segunda ou a terceira dose da vacina. Nós não podemos perder mais vidas”, alertou. Um dia antes, ele decretou a exigência do comprovante de vacinação no transporte intermunicipal.

Variante de 32 mutações
A infectologista Ceuci Nunes, diretora do Instituto Couto Maia, hospital referência no tratamento de doenças infecto-contagiosas na América Latina, explica que a nova variante sul africana tem 32 tipos de mutações. “Ela tem 32 mutações na proteína spike, que é o alvo das vacinas. Isso pode resultar em maior resistência aos imunizantes. Por isso que ela é muito preocupante. E parece ser mais transmissível, porque entrou, rapidamente, na África do Sul e aumentou o número de casos”, afirma Ceuci, acrescentando que ainda faltam estudos para comprovar a maior transmissibilidade. 

Ceuci Nunes pontua que, para proteger a Bahia da cepa, é preciso impedir que ela chegue ao Brasil. “A Bahia não tem autonomia para fechar as fronteiras, isso é da competência do governo federal. Então, para impedir que chegue à Bahia, é preciso, antes, impedir que ela chegue ao Brasil. Isso é o que a Anvisa propõe, exigir o passaporte vacinal de turistas e restringir a entrada de pessoas advindas de países com grande quantidade de infectados com a nova variante, não só dos países africanos, mas quem tenha feito escala lá”, orienta a infectologista. 

Pandemia ainda ativa
A pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Fernanda Grassi, relembra que, apesar da manutenção do número de casos desde agosto, a covid-19 não foi embora. “O estado vem mantendo uma situação, relativamente, confortável, mas a Bahia tem 1.500 novos casos por dia e uma positividade de testes muito alta. A cada 100 pessoas testadas pelo Lacen, 10 positivam para covid. Para ser considerada controlada a pandemia, esse índice teria que ser menor de 5%. Ou seja, a pandemia ainda está ativa e, enquanto o vírus estiver circulando, há a possibilidade de aparecimento de variantes”, destaca.

Fernanda ratifica que essa nova mutação pode comprometer a eficácia das vacinas, principalmente, a Oxford e Pfizer. “As vacinas foram criadas a partir do isolamento da cepa de Wuhan, na China. Se existirem mutações que modifiquem a proteína spike, que é uma sequência de aminoácidos, existe o risco de as vacinas não funcionarem”, pontua. Ela lembra, contudo, que a África do Sul é um país com baixa cobertura vacinal, com menos de 30%. Na África como um todo, a cobertura é de 7%. 

Por isso que, segundo o imunologista Celso Sant’Anna, professor da UniFTC, é preciso avançar na vacinação. “É preciso que a gente continue com um ritmo de vacinação sem parar e convença as pessoas que estão se recusando a tomar a vacina a tomarem, incluindo as crianças, e dar a dose de reforço para todos, principalmente idosos, em seis meses”, defende Sant’Anna. 

Como a nova variante pode reduzir a eficácia das vacinas, ele argumenta a necessidade de manter os protocolos sanitários. “Não podemos baixar a guarda. Estamos vendo as pessoas deixando de usar a máscara, inclusive em lugares fechados. Mas usar máscara, manter o distanciamento e não aglomerar são medidas importantes até atingirmos 90 a 95% da população vacinada, porque o vírus se aproveita justamente dessas brechas e falhas individuais e coletivas. Estamos vencendo batalhas, mas ainda não ganhamos a guerra”, alerta. 

A Sesab reforçou que, enquanto houver vírus circulante, existirão novos casos da covid-19 no estado. “Estamos em um momento de platô, ou seja, a tendência de redução que vinha sendo observada, não mais acontece. Isto pode ser atribuído a diversos fatores a exemplo de não cumprimento de recomendação de distanciamento físico e uso de máscara. Outro fator que pode ser apontado é a falta de adesão de algumas pessoas à segunda dose e à dose de reforço”, informa a secretaria. 

De acordo com as últimas amostras de sequenciamento do Laboratório Central de Saúde Pública da Bahia (Lacen-BA), foram encontrados 936 casos de variantes de preocupação. A maior parte é da Gamma (569), seguido da Delta (326), Alpha (40) e Beta (1).  A pasta ainda diz que a Vigilância à Saúde do Estado, em parceria com as vigilâncias municipais, “continua o monitoramento de casos na expectativa de reduzir o espalhamento do vírus. A principal ação continua sendo a vacinação”.

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) foi procurada, autorizou entrevista com o secretário municipal da saúde, Leo Prates, mas o mesmo não atendeu, pois estava na estrada. 

O que deve ser feito?
1) Bloquear entrada de estrangeiros de países contaminados com nova variante pelos portos, aeroportos e rodoviárias
2) Obrigar brasileiros advindos de países com nova variante a fazer quarentena de 14 dias
3) Exigir passaporte de vacinação com duas doses da covid-19
4) Convencer pessoas que ainda não tomaram a vacina a se vacinarem
5) Dar a dose de reforço para toda a população em seis meses
6) Ampliar a capacidade de testes de covid-19

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