Fé na educação: quem foi José Gumercindo, padre de Tucano que é 'candidato' a beato

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27.11.2021, 11:00:00
No dia da fundação da Sociedade Joseleitos de Cristo, em 1950 (Sociedade Joseleitos de Cristo/Divulgação)

Fé na educação: quem foi José Gumercindo, padre de Tucano que é 'candidato' a beato

Sergipano de Itabaiana foi pároco de Tucano, na Bahia; ele fundou escolas, creches, um asilo e três congregações religiosas

Durante praticamente toda a vida, o padre José Gumercindo Santos cuidou de quem mais precisava: crianças, idosos, mulheres ou jovens que necessitavam de abrigo, comida, trabalho, educação – ou de um palavra de conforto. Descansar dessa missão não fazia parte dos planos dele, nem mesmo depois de morto. Às vezes, dizia aos mais próximos: “Quando eu for pro céu, eu não vou ficar lá olhando de braços cruzados, não! Eu vou continuar trabalhando por vocês”. Padre Gumercindo morreu em Feira de Santana, aos 84 anos, em setembro de 1991. Hoje, 30 anos depois, a história da vida do sergipano que elegeu Tucano, na Bahia, como sua Belém, começa a ser catalogada. É o início de uma longa caminhada para tentar torná-lo um beato e, quem sabe, santo.

“Eu não sei para Deus, mas para a gente, ele merece ser santo com certeza! Ele é meu pai espiritual, meu e de toda a minha família”, atesta a professora Vilma Miranda de Almeida, 68 anos, que foi por muitos anos vizinha do padre José Gumercindo na cidade de Tucano, Nordeste da Bahia.

Vilma e boa parte da geração dela tiveram acesso a uma educação de qualidade graças aos esforços do padre, que ao longo de 57 anos de sacerdócio fundou três congregações – duas femininas e uma masculina –, um abrigo de idosos, creches e escolas, onde se aprendia de tudo: de português a francês, latim e grego, mas também como plantar, colher e organizar o tempo. 

“A história das congregações – Santa Teresinha, de 1947; Joseleitos de Cristo, de 1950; e Divino Mestre, de 1960 – mostra ele muito voltado aos pobres, às crianças e aos idosos. Ele era muito sensível ao sofrimento do próximo. As pessoas relatam que dificilmente o procuravam e não encontravam alguma ajuda”, lembra o padre Júlio César de Mello Almo, diretor geral da Sociedade Joseleitos de Cristo.

Padre Gumercindo entre as irmãs da congregação Divino Mestre, que fica em Tucano, no Nordeste da Bahia
(Foto: Sociedade Joseleitos de Cristo/Divulgação)

Neste sábado (27), a cidade de Tucano, de pouco mais de 50 mil habitantes, foi palco do ato jurídico que marcou a abertura do inquérito diocesano sobre a vida, a virtude e a fama de santidade do Padre José Gumercindo Santos, já considerado um Servo de Deus desde o momento em que o Vaticano autorizou a abertura do processo, em 2016. No domingo (28), uma celebração será feita pelo arcebispo de Feira de Santana, Dom Zanoni Demettino Castro, também em Tucano.

O postulador da causa do Padre Gumercindo, ou seja, o responsável por levantar minuciosamente as informações sobre a vida dele e os motivos pelos quais ele deve ser beato, é o italiano Paolo Vilotta, o mesmo que atuou por dez anos na causa da canonização de Santa Dulce dos Pobres. Hoje, ele trabalha nas causas de 45 candidatos a santos em todo o Brasil, mas o trabalho de pesquisa para a beatificação do Padre Gumercindo é o único que ele desenvolve na Bahia.

Para ele, agora é o momento inicial de causa, de fazer muita pesquisa para entrar, de fato, na história e na figura do Padre Gumercindo. Vilotta afirma que vem contando com a colaboração da diocese de Serrinha e destaca um aspecto que chama sua atenção no caso do padre:

“Ele foi um padre salesiano e continuou as suas congregações no mesmo carisma, isso é uma coisa muito linda. As suas congregações são presentes em vários lugares do Brasil e também da Europa, eu conheço em Roma e perto de Roma. É uma grande difusão desse carisma e também dessa figura”, afirma.

Sem prazo
O trabalho que acabou de começar é uma caminhada longa, sem prazo para acabar. É que o candidato a beato viveu em muitos lugares. Nasceu em Itabaiana (SE), onde começou a ser coroinha aos 7 anos, num família pobre que sofria com o abandono do pai. Aos 8, foi convidado para entrar na congregação dos Salesianos e, de lá, foi estudar em São Paulo. Também atuou em Pernambuco e no Amazonas, até chegar à Bahia, em 1953, em Tucano, onde 'se encontrou' de fato.

Em Tucano, cidade onde chegou em 1953 e onde foi pároco
(Foto: Sociedade Joseleitos de Cristo/Divulgação)

Ele também fez suas andanças pelo mundo, inclusive para angariar fundos para seus trabalhos. Tudo terá que ser pesquisado e documentado. Há canonizações rápidas, como a de Santa Dulce dos Pobres, apenas 27 anos após a morte. Outras demoram muito mais, como o arcebispo da Bahia Dom José Botelho de Mattos, que morreu em 1767 e o processo ainda nem foi aberto, embora as pesquisas sobre a vida tenham dado uma acelerada (leia mais abaixo).

Sensibilidade
No caso do Padre José Gumercindo, não devem faltar testemunhos de gente viva. Um deles é o da Irmã Santina Ribeiro da Silva, superiora geral da Congregação Divino Mestre, fundada por ele em 1960, que fica em Tucano. Ela conviveu com o religioso por alguns anos. “Eu cheguei à congregação em 1985 e ele faleceu em 1991, mas eu tive a oportunidade de morar aqui em Tucano e morei no Lar Dona Ritinha, que leva o nome da mãe dele. Ele ficou tão feliz na época de ver uma juventude querendo cuidar de idosos. Me apoiava em tudo o que eu precisasse. A gente chamava ele de pai, de mãe, de melhor amigo”, lembra.

A congregação que ela dirige, hoje, é responsável por um abrigo de idosos, mas o trabalho do religioso também tem um viés mais educacional, a cargo da Sociedade Santa Teresinha: além de escolas na região de Tucano, que hoje funcionam com parcerias com os municípios, há creches espalhadas pelo Brasil.

“Ele acolheu todas as pessoas, principalmente as crianças, mesmo sabendo que não seriam futuros padres, mas ele investiu na educação dessas crianças. Essas pessoas vêm nele um pai. Ele tinha muita sensibilidade em enxergar a necessidade das pessoas. Quando chegava um jovem mais tristinho, ele ia oferecer conforto, carinho, ou então determinava um seminarista para fazer companhia para alguém que precisava de ajuda”, conta a Irmã Santina.

Quem conviveu com o religioso conta que ele estava sempre disposto a ajudar os mais necessitados e se preocupava com educação das crianças
(Foto: Sociedade Joseleitos de Cristo/Divulgação)

Na casa da professora Vilma, inclusive, era ao padre que o irmão dela recorria sempre que levava uma bronca mais dura da mãe. “A parede da casa era fina, a gente ouvia tudo que acontecia lá e ele também ouvia tudo que acontecia na minha casa. Quando minha mãe começava a brigar com meu irmão, ele gritava: ‘Me acuda, padre José!’, e ele respondia de lá: ‘Larga o menino, Dona Bela!’”, lembra, aos risos, a professora que foi vizinha do religioso.

É possível que ele tenha acudido muita gente, de fato. Aos poucos, relatos de graças alcançadas começam a chegar até as congregações fundadas pelo religioso. Ainda não dá para dizer que são milagres, já que tudo ainda precisa ser provado, mas não falta fé.

“Uma ex-paroquiana teve esse ano uma enfermidade com aparente gravidade. Houve enorme preocupação, especialmente devido a dramáticas consequências para filhos que dependem totalmente dela, se viesse a não se restabelecer. Por uma intuição, pedi o auxílio do Padre José Gumercindo e assim me senti confiante e tranquilizado. Depois, sem que ela soubesse do que fiz, relatou-me que fizera o mesmo pedido, continuou seu tratamento e se foi recuperando até ficar inteiramente boa”, conta o padre Raimundo Ribeiro, membro da Sociedade Joseleitos de Cristo, a segunda congregação fundada por Gumercindo, em 1950.

A partir de agora, mais relatos devem surgir e já existem outros como esse, principalmente relacionados à cura de enfermidades. A comissão que cuida do processo de beatificação, inclusive, pede que as pessoas enviem seus relatos pelo e-mail beatificacaopadregumercindo@gmail.com ou pelo telefone (79) 3215-2317.

Incomum
Quem conviveu com o religioso costuma descrevê-lo como um homem incomum. “Estava sempre pronto a atender quem o procurasse e reservava todos os sábados para atender o povo, conforme suas mais variadas necessidades: desde ajuda para comida, medicamentos, a ouvir suas lamúrias decorrentes de outros problemas”, conta o padre Raimundo.

A mãe do religioso, Dona Ritinha, costumava perguntá-lo às sextas-feiras o que seria do dia seguinte, dia de fazer feira, para comprar alimentos para as pessoas que ele costumava ajudar. “Ele ficava se balançando na rede e a mãe, que chamava ele de Nozinho, falava: ‘Nozinho, Nozinho, hoje é sexta-feira, amanhã é sábado, o que a gente vai fazer?’. E ele respondia: ‘Calma, minha mãe, que São José vai resolver...’”, lembra Vilma. E, pelo visto, resolvia.

Padre Gumercindo viveu em muitas cidades do Brasil e também foi ao exterior angariar fundos para os trabalhos que fazia
(Foto: Sociedade Joseleitos de Cristo/Divulgação)

Não era apenas para emergências que as pessoas podiam contar com o religioso. Ele costumava ensinar seus alunos até mesmo a plantar, a organizar o tempo e a ocupá-lo ao longo do dia.

“Quando eu entrei no seminário, eu ganhei um pedaço de terra, eu plantava, cuidava. O Padre Gumercindo ajudava a gente a desenvolver as capacidades que tinha a gente tinha. Quando a gente desenvolvia, a gente já ajudava nas aulas de francês, de português. Talvez até porque faltavam professores, então ele pedia a colaboração de todo mundo”, recorda o padre Antônio de Oliveira, natural de Tucano, que foi padre da congregação dos Joseleitos de Cristo por oito anos.

Para ele, ficou a memória de um homem dinâmico e também muito acessível.

“Quando eu cheguei no seminário, ele era bem jovem. Ele até entrava no campo para jogar futebol com a gente, de batina. Ele não tirava a batina dele para nada”, conta. 

Idioma próprio
O religioso sergipano que deixou sua marca em Tucano havia feito sua formação escolar na Congregação dos Salesianos, entre Sergipe, Pernambuco e São Paulo. Ainda estudou Filosofia e Teologia e, nas escolas que fundou também dava aulas de português, grego e latim. Talvez por transitar entre tantas línguas, acabou criando seu próprio idioma, com gramática e tudo, chamado Lizu – ou Língua Relâmpago.

Em seu último livro, Quarenta Dias no Deserto, há uma referência ao idioma criado pelo padre. Ele dizia que quem fundava uma organização de fundo internacional, como eram suas três congregações, sentia a necessidade de pensar numa língua que fosse a forma de comunicação entre todos os sócios. “Como o Latim é a língua oficial da Igreja, o Português seria a língua oficial nas nossas três Sociedades. A língua portuguesa, no entanto, é uma das mais difíceis do globo. Pensei então numa língua fácil, que pela sua simplicidade pudesse tornar mais facilmente o veículos de nossas comunicações oficiais”, escreveu. 

O padre Raimundo Ribeiro foi um dos que teve contato com a língua, quando a gramática ainda estava sendo elaborada. A base era o Português, o Latim, o Grego e até o Tupi-guarani, que ele havia estudado a fundo.

“Ele pensava que a Congregação deveria um dia se espalhar pelo mundo, então lançou-se à criação de uma língua, segundo ele com uma estrutura simples, fácil de aprender”, lembra.

Em seu último livro, Quarenta anos no deserto, Padre Gumercindo falou sobre a Lizu, língua que criou para se comunicar com membros das congregações
(Foto: Reprodução)

Ele também conta que o religioso chegou a preparar, na década de 1930, uma lista de cerca de 5 mil verbetes para um futuro dicionário de Tupi-guarani, mas um incidente transformou o trabalho de anos em cinzas. “Não há registro oficial dessa informação, apenas testemunho oral dele, que ouvi várias vezes em meio a um grande sentimento de dor e frustração”, conta.

Este é, provavelmente, um dos feitos do Padre Gumercindo que será levado em conta na pesquisa que faz parte do caminho até a beatificação. A primeira fase do processo é a diocesana, instalada nesta sexta-feira na Diocese de Serrinha, da qual Tucano faz parte. De acordo com o Padre Júlio César de Mello Almo, a partir de agora, além da coleta de testemunhos, inclusive sobre possíveis milagres, começa também o trabalho da comissão de teólogos e da comissão histórica.

“Teólogos independentes vão ler os escritos dele para constatar se existia alguma heresia, alguma coisa que não condizia com a fé, com a doutrina, e também algum registro de sobrenatural. Já a comissão histórica, presidida por um historiador, vai contextualizar a vida dele com a época a partir de documentos. Vai ser como a biografia oficial dele”, explica.

Só após essa fase é que o inquérito é analisado em Roma e o Vaticano decide se há elementos para que o Padre Gumercindo passe de Servo de Deus a beato.

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Comissão avança em pesquisas para abrir causa de beatificação de Dom José Botelho de Mattos

A causa da beatificação do Padre José Gumercindo Santos não é a única em andamento na Bahia. Por aqui, também está aberto processo da Madre Vitória da Encarnação. Alem disso, a Irmã Lindalva Justo de Oliveira já é considerada beata - para a canonização, é necessária a comprovação de um milagre após a beatificação. Mas existe um caso cujas pesquisas ganharam força recentemente - é o de Dom José Botelho de Mattos, que foi arcebispo da Bahia entre 1741 e 1760. Ele morreu em 1767 e está enterrado na Igreja da Penha, na Cidade Baixa. É de lá que vem o empenho para tentar a canonização dele.

O caminho, contudo, ainda deve ser bastante longo. É que o processo dele ainda nem foi aberto oficialmente, embora as primeiras pesquisas sobre a vida do arcebispo, com o intuito de uma futura canonização, tenham começado na década de 1960. Quem encabeçou a missão de resgatar a memória do arcebispo foi o padre Jerônimo Moreira, tudo por conta do bicentenário da Irmandade da Penha, celebrado em 1964.

“A partir desse bicentenário, em 1964, foi-se pensando também o bicentenário da morte de Dom Botelho. O padre Jerônimo era uma pessoa muito culta, de família conhecida. Em 1967, no bicentenário da morte, houve uma programação que envolveu todo o estado da Bahia, com conferências de professores renomados, apresentações culturais, concertos”, lembra Luan Sacramento, membro da Irmandade da Penha.

A partir de 1967, então, começou a ganhar força uma devoção em torno da figura do arcebispo. “Em 1980, foram relatados oito milagres em que as pessoas pediram a intercessão de Dom Botelho e alcançaram graças. Os relatos foram encaminhados para o Núncio Apostólico [representante do papa]. Mas, depois disso, a gente não tem mais notícias”, comenta Luan.

Dom José Botelho de Mattos, retratado pelo pintor João José Rescala
(Foto: Arquidiocese de Salvador/Divulgação)

A falta de continuidade no processo pode ter relação com a morte do padre Jerônimo, no início dos anos 1980. Depois dele, nenhum outro padre se interessou pela causa, até a chegada do padre Jair Arlego, em 2003. “Em 2014, a história se repetiu: chegaram os 250 anos da Irmandade da Penha e a gente começou a pensar nos 250 anos da morte de Dom Botelho. De lá para cá, estamos num constante trabalho de divulgar a história dele”, conta Luan.

Segundo a Arquidiocese de Salvador, o processo de beatificação, que antecedente a  canonização, ainda não foi aberto para o arcebispo, mas as pesquisas começaram a avançar. O atual arcebispo, Dom Sergio da Rocha, nomeou o bispo auxiliar, Dom Dorival Barreto Júnior, para auxiliar na causa. Ele formou uma comissão para cuidar do caso junto com membros da Irmandade.

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Outras causas na Bahia

  • Dom José Botelho de Mattos - O português foi arcebispo da Bahia entre 1741 e 1760. O processo para tentar torná-lo beato ainda não foi aberto, mas pesquisas avançam com comissão da Arquidiocese e Irmandade da Penha.
  • Serva de Deus Madre Vitória da Encarnação - Baiana de Salvador, Madre Vitória morreu em 1715, aos 54 anos, no Convento de Santa Clara do Desterro. A fama de santidade é antiga, desde que ela ainda vivia no convento. Em 2019, quando o Vaticano autorizou a abertura do processo de beatificação, passou a ser considerada Serva de Deus.
  • Beata Lindalva Justo de Oliveira - Natural do Rio Grande do Norte, Irmã Lindalva é considerada mártir pela Igreja Católica e beata desde 2007. Em 1993, foi assassinada por um interno do Asilo Dom Pedro II, que não aceitava ser rejeitado. Para ser canonizada, é preciso que se confirme um milagre após a beatificação. Esse milagre está sendo analisado pelo Vaticano.

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