Filhotes órfãos de lobo-guará são soltos na natureza, no Oeste Baiano

bahia
20.07.2021, 06:00:00
Atualizado: 20.07.2021, 12:09:02
Baru, Seriguela e Caliandra foram levados para propriedades em Luís Eduardo Magalhães (Acervo Parque Vida Cerrado)

Filhotes órfãos de lobo-guará são soltos na natureza, no Oeste Baiano

Iniciativa é a segunda a ocorrer no Brasil e tem monitoramento dos espécimes

O lobo-guará é uma espécie considerada vulnerável na categoria de ameaçadas. É o único grande canídeo da América do Sul nesta situação, cujo maior problema hoje é a "remoção de filhotes”. Os lobinhos abandonados, por vezes, tiveram os pais mortos ou levados para zoológicos. O resultado é a diminuição considerável da espécie na natureza. Por isso, iniciativas como a reintrodução dos animais no ambiente de origem, aos poucos ganham força.

Em uma propriedade rural de Luís Eduardo Magalhães, no oeste baiano, três filhotes serão reintroduzidos em seu habitat natural, na segunda experiência desta natureza realizada no Brasil. A primeira ocorreu na Serra da Canastra, em Minas Gerais, em 2016.

Baru, Seriguela e Caliandra, os três lobinhos, foram levados do Parque Vida Cerrado, em Barreiras, para a propriedade agrícola referência na adoção de práticas sustentáveis. O local tem uma área de 2.875 m², pouco maior que ¼ de um campo de futebol e pertence à Oilema/grupo Irmãos Gato. O projeto também tem patrocínio da Galvani Fertilizantes, no início da fase de pré-soltura.

“Nós chamamos de soltura branda. Não vamos simplesmente soltar eles. Vamos colocar colares de GPS e transmissores de satélite, eles vão continuar recebendo a oferta de água e alimentação no recinto por mais dois ou três meses e, pelo monitoramento do rádio colar, a gente vai acompanhar o deslocamento deles para saber se eles estão usando ainda o recinto ou se eles estão conseguindo caçar e se alimentar na natureza. A partir dessa avaliação, a gente reduz as ofertas de alimento no recinto até eles irem embora”, explica a bióloga e coordenadora do projeto pelo Parque Vida Cerrado, Gabrielle Bes da Rosa.

(Acervo Parque Vida Cerrado)
(Acervo Parque Vida Cerrado)

Transferência

Em Barreiras, os lobos-guará eram alimentados uma vez por dia e pesados uma vez por mês. Eles eram monitorados por câmeras, para o mínimo de contato possível com os seres humanos, e permaneciam sob os cuidados da médica veterinária Paula Damasceno e de Gabrielle.

Agora, a nova casa dos filhotes tem alta incidência de outros animais da mesma espécie. Ela foi monitorada por um ano antes de recebê-los. “A gente fez campanha de captura de lobos no ano passado, fizemos o check up dos animais capturados e não foi registrada nenhuma doença contagiosa que pudesse colocar em risco os filhotes. Então, essa área foi eleita como uma das prioritárias entre as diversas áreas do país para recebê-los”, diz a bióloga.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) estima que no Brasil existem 21.746 indivíduos adultos da espécie. Segundo Gabrielle, esses indivíduos vivem em situação precária. “Todos os anos, temos o registro de 3 a 12 animais mortos por atropelamento ou caça. São números que chegam aos órgãos ambientais. Essa é a importância de um evento de reintrodução como esse, que é raro no país. Faz parte de uma linha de ação que não beneficiará um único animal e, sim, uma espécie inteira, símbolo do Cerrado e maior canídeo das américas. A ação é de extrema importância para o manejo e conservação da espécie”.

Parque Vida Cerrado

O Parque Vida Cerrado é o primeiro e único centro de conservação e educação socioambiental do oeste da Bahia e fica em área preservada de 20 hectares do bioma Cerrado, a savana mais rica em biodiversidade do mundo. O local possui criadouro científico para fins de conservação e não tem visitação livre do público, apenas monitorada, o que o diferencia dos zoológicos. 

O Parque completou, em setembro, 14 anos de atividades e, atualmente, trabalha com 28 animais de nove espécies, sendo cinco delas ameaçadas de extinção.

O projeto com os lobinhos teve início no segundo semestre do ano passado. Na oportunidade, o Vida Cerrado foi escolhido, após acordo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA). 

O projeto tem apoio da Galvani Fertilizantes, Sementes Oilema, Irmãos Gatto Agro e Condomínio Agrícola Santa Carmem; e parceria do Instituto Pró-Carnívoros com transferência em expertise, ICMBio, CENAP, UNB e Inema.

*Com a orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo

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