Imagens usadas em oferendas são achadas em rio perto de convento em Cachoeira

bahia
31.03.2022, 05:30:00
(Reprodução/Leitor CORREIO)

Imagens usadas em oferendas são achadas em rio perto de convento em Cachoeira

Santos e orixás apareceram nas margens e devem ter caído de um balaio

Imagens de santos e orixás foram encontradas, aparentemente abandonadas, nas margens do rio Paraguaçu, em Cachoeira, na área próxima às ruínas do antigo convento de Santo Antônio situado no povoado de São Francisco do Paraguaçu. Mas, o que parecia um mistério ou descaso, na verdade trata-se de objetos de culto que se separaram de seus balaios de oferenda. 

De acordo com imagens enviadas por um leitor do CORREIO, é possível identificar pelo menos, quatro imagens e um livreto com figuras de santos nas margens do rio nas imediações da foz – ligação do Paraguaçu com a baía de Todos-os-Santos, onde ficam as ruínas do convento. Uma das representações aparenta medir quase um metro de comprimento. 

O padre Adeilson dos Santos Pugas, que administra a Igreja do antigo convento do Paraguaçu, informou que as imagens dos santos encontradas na beira do rio não fazem parte do acervo da Igreja. Segundo o religioso, as imagens seriam utilizadas em rituais por fiéis do candomblé. Em vídeo enviado por um funcionário da Diocese de Cruz das Almas – que é responsável pela administração do convento -, outras cinco imagens e um balaio são identificados nas margens do rio e em pedras que circundam o manancial. 

“Além das imagens, tem balaios e potes que fazem referência a esse culto [candomblé]. As imagens que fazem parte do acervo da Igreja são de madeira policromada, datadas do século XVIII, e são conservadas com muito cuidado, pois fazem parte da história do convento”, destaca o padre Adeilson, que acrescentou respeitar todas as religiões de matriz africana.

Ainda de acordo com o religioso católico, a igreja e as ruínas do convento estão abertas para visitação. No local, há um funcionário que atende aos turistas e responde diretamente à Diocese de Cruz das Almas por meio da Paróquia de São Tiago do Iguape.

Este funcionário é Meeno Garcia, segurança da Diocese de Cruz das Almas e responsável pela vigilância das ruínas do convento; além de guia turístico no local. Ele tem conhecimento de que os objetos no rio são uma oferenda, mas desconhece os autores do presente.

“Trata-se de uma oferenda, mas não sabemos por quem foi feita. Isso [as cenas enviadas ao CORREIO pelo leitor] aconteceu na semana passada. Já houve outras vezes em que foram feitos trabalhos de religiosos do candomblé aqui [na área onde ficam as ruinas do antigo convento], mas sem imagens”, contou Meeno. 

A localização do antigo noviciado do Paraguaçu, às margens do rio e em local de vegetação, também é considerado local sagrado para fiéis das religiões de matriz africana. O recôncavo baiano têm muitos terreiros de diversas nações do povo de santo.

Abandono não é prática do candomblé 

Robson Duagogô, integrante do candomblé que vive em Cachoeira - ele faz parte do terreiro Ilê Axé Ibece Alaketu -  explica que os santos fazem parte de uma oferenda chamada ‘carrego’. É através dela que o povo de axé limpa as energias que se deseja deixar para trás. 

 “O carrego é como um presente, uma obrigação com as coisas do orixá, assim como se deposita para Iemanjá, sempre em um lugar sagrado e sem a intenção de sujar ou degradar”, afirma Robson.

O filho de santo acredita que a intenção de quem fez a oferenda não foi ofender outras religiões ou sujar o rio, uma vez que essa atitude não condiz com a educação religiosa orientada pelo candomblé. O que, segundo ele, pode ter ocorrido é o presente ter sido levado pela correnteza até a margem do rio. 

“Nós seguimos uma conduta de preservação religiosa e não depositamos nossas oferendas em qualquer lugar. Quando não há floresta, nem água, temos um lugar destinado para isso. Quem depositou o presente não teve o cuidado de ir longe o suficiente”, opina o religioso.

O que muita gente não sabe, completa Robson, é que dentro da religião, o retorno do presente também tem um simbolismo. Ela pode representar um desejo do orixá. ”Se voltar é porque o santo quer continuar sendo cuidado pela pessoa de axé. Orixá é vida, é natureza, e manifestação do bem”, enfatizou o filho de santo.  

História do convento começou no século XVII

O Convento de Santo Antônio do Paraguaçu foi fundado em 1649, pela Ordem Religiosa Franciscana, mas sua construção só começou de fato em 1658, quando foi lançada a pedra fundamental, e foi feita em etapas, primeiro a igreja, que levou dois anos para ficar pronta, e depois as demais dependências, que demoraram 28 anos para serem concluídas. 

Durante os séculos XVII e XVIII, o convento abrigou um noviciado, o segundo construído no Brasil, para admitir jovens que desejavam abraçar a vida religiosa; e o Hospital de N. Srª de Belém, que em 1686 foi fundamental para combater uma epidemia de febre amarela no recôncavo. 

A partir de 1855, com a proibição do Império de que as ordens religiosas recebessem noviços, vários conventos foram abandonados no interior do Brasil, inclusive o de Santo Antônio de Paraguaçu.

O conjunto arquitetônico é tombado com todo o seu acervo pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), desde 1941. Mas, ao longo dos anos, as dependências do convento ficaram reduzidas a ruínas e parte do acervo – incluindo retábulos, lavabo e imagens – desapareceu. As ruínas do convento ainda preservam as escadarias que descem até as águas do rio Paraguaçu.

Atualmente, o monumento é canonicamente vinculado à paróquia da Matriz de Santiago do Iguape, pertencente ao clero Arquidiocesano de Salvador, que administrou o local até 2018. depois dessa época, a responsabilidade foi transferida para a Diocese de Cruz das Almas, fundada para atender as demandas dos monumentos localizados no recôncavo baiano.

*Com a orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo

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