Matrículas em escolas particulares caem até 70% na Bahia 

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25.01.2021, 06:00:00
(Nara Gentil/CORREIO)

Matrículas em escolas particulares caem até 70% na Bahia 

Categoria mais afetada é a educação infantil, apontam gestores 

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Ainda sem previsão para o retorno das aulas presenciais, as matrículas nas escolas particulares de Salvador e de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana, tiveram, em média, queda de 70% para o ano  letivo de 2021, em relação ao mesmo período de 2020.  No caso da educação infantil, a situação “está catastrófica”, como define a gestora da Cresça e Apareça, Mariana Mongenroth. Segundo ela, nenhuma criança de 0 a 3 anos fez a matrícula na escola, que fica no Rio Vermelho. 

Segundo o diretor do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino da Bahia (Sinepe-BA), Jorge Tadeu Coelho, somente 15% dos alunos da educação infantil estão de fato matriculados para o ano letivo de 2021. Já o Grupo de Valorização da Educação (GVE), que representa mais de 60 unidades privadas  de ensino na capital e RMS, estima que, em média, houve baixa de 30% nas matrículas de estudantes de todas as séries nos estabelecimentos que fazem parte da entidade.

“As matrículas diminuíram bastante, em média 30% menor do que no ano passado. E tem escola que não tem nem 10% dos alunos matriculados. A maioria consegue se recuperar pelos outros ciclos, mas estão tendo muita redução de turmas, o que gera um problema porque temos professores contratados, porém, não temos aluno na sala para pagar a conta”, afirma Wilson Abdon, porta-voz do GVE e diretor do Colégio Perfil e Escola Mais Perfil.  

Abdon explica que, mesmo sem a definição do município e estado, as escolas já estão preparadas, com protocolos sanitários aplicados e calendário letivo definido. A maioria dará início às aulas entre 3 e 10 de fevereiro. Assim que ocorrer a liberação do ano letivo, pequenas adaptações serão realizadas. 

“As escolas já prepararam mais de um modelo e calendário, tanto para o presencial, quanto para o remoto ou o híbrido. O que muda é a carga horária. Se começar 100% remoto, vamos diminuir a carga horária diária para reduzir a exposição às telas, principalmente na educação infantil, e, com isso, alargar o número de aulas”, explica.

A previsão é de que, inicialmente, as aulas retomem ainda na modalidade virtual e, aos poucos, o ensino seja híbrido. Isto é, com 50% das crianças em sala de aula e a outra metade acompanhando a mesma classe de casa. O GVE reforça que a escolha pela modalidade de ensino ficará a critério das famílias.  

De acordo com Jorge Tadeu Coelho, o Sinepe-BA tenta convencer os governos estadual e municipal a liberaram que as séries da educação infantil voltem com 100% dos alunos em regime presencal. “Inicialmente, o governo não deve autorizar o ensino presencial todos os dias e seria com 50% dos alunos em todas as séries. Mas estamos tentando convencer o governo de que a educação infantil não precisaria desse rodízio, como se fez em outros países. Eles são os que se defendem melhor, pegam pouco e transmitem pouco [a covid-19]”, afirma Coelho.  

Crise e demissões 

A diminuição das matrículas tem afetado o quadro de funcionários de algumas escolas. Pela não obrigatoriedade das crianças menores de 4 anos estarem nas instituições de ensino, os pais preferem não inscrevê-las. 

“Como não existe a obrigação legal, os pais estão esperando definição. Como não sabem ainda como vai funcionar, as matriculas da educação infantil estão na ordem de 15%. Dá pena. A situação é lamentável nas escolas de educação infantil”, conta o presidente do Sinepe.  

Na Escola Tempo de Crescer, no Caminho das Árvores, por exemplo, houve somente 50% das matrículas, assim como na Escola Cresça e Apareça e na Escola Lápis de Cor, na Pituba. Ambas iniciam as aulas no dia 8 de fevereiro, de forma remota, se não for autorizado pelos governos o ensino híbrido ou presencial.

 “Houve uma redução na chegada de alunos novos, recebemos visitas de famílias interessadas, mas que condicionam a efetivação da matrícula ao retorno das aulas presenciais”, conta a advogada Aline Pinto, diretora da Escola Lápis de Cor.

O mesmo acontece na Escola Tempo de Crescer. “Meu ensino fundamental está praticamente todo completo, porém, na educação infantil, perdemos muitas crianças e os pais estão receosos de matricular, porque crianças dessa faixa etária precisam de contato físico, precisam estar nas escolas para o desenvolvimento social, apoio emocional, acolhimento e ter a troca entre os colegas e com o professor”, diz Cinthia Garcia, diretora da unidade.

Por conta da redução de alunos, Cinthia teve de demitir 12 funcionários, entre professores e auxiliares. “É uma parte muito chata e que a gente não gosta, mas, nesse momento foi inevitável”, diz a gestora. A capacidade total da unidade  é de 250 alunos. 

Na Escola Cresça e Apareça, a evasão das crianças até 3 anos foi de 100% e também houve demissões, principalmente porque a medida provisória do governo federal, a 936, que permitia a redução de salários, acabou em dezembro do ano passado.

“As matrículas dos pequenos de 0 a 3 anos reduziu drasticamente, tanto é que a gente não tem nenhuma matricula. Temos uma lista enorme de pais que, no dia que retornarem as aulas presenciais, no dia seguinte eu matriculo, mas antes disso não”, revela a diretora Mariana Mongenroth. A maioria dos alunos é justamente os mais jovens. A escola atende bebês a partir de seis meses.

No Educandário Augusto Freitas, em Cajazeiras, a redução de alunos foi de 70%, diz o diretor Mário Sérgio. “A maior redução foi na educação infantil e primeiro ano. Mas, na expectativa de que com o início dos trabalhos, as matrículas melhorem”.  

Em alguns colégios, a matrícula não teve grandes perdas. Foi o caso da Villa Global Education - Avenida Paralela e Litoral Norte -, que já têm 80%  das matriculas.

As escolas que atendem a educação infantil são as mais prejudicadas (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Fator econômico

A recusa dos familiares em matricular crianças pequenas sem ter certeza de quando as aulas recomeçam é também por questões financeiras, diz Mariana Mongenroth.  “A gente tem um perfil de família que matricula no tempo integral, que opta por não ter babá para colocar na escola integral. Todos dizem que querem continuar com a orientação, mesmo no remoto, estão muito satisfeitos com as soluções, mas é questão financeira mesmo, porque ou paga a escola ou paga alguém para ficar com as crianças”, explica a diretora da Cresça e Apareça. 

Por conta da indefinição, a gestora teve que adaptar o contrato com as famílias esse ano, para prever todos os cenários possíveis em que a escola pudesse oferecer o serviço. “A gente colocou as opções para especificar tudo que pode acontecer”.   

Para ela, a angústia é tripla – como mãe, educadora e empresária. “Sofro de múltiplas angústias. Como empresária, vejo meu CNPJ na UTI. Como mãe, me vejo desesperada por minhas filhas porque tenho família de outros estados e outros países e as crianças já começaram a ir para a escola, e, enquanto educadora, por saber o quão isso é prejudicial para a saúde das crianças”, avalia.

No colégio Nossa Senhora do Resgate, que tem unidades no Cabula, São Lázaro e Brotas, o receio maior ainda são os números da pandemia. “Estamos passando por um momento atípico. Na educação infantil, as escolas estão sofrendo muito porque os pais estão muito receosos em confirmar a matricula nesse período, enquanto não há vacina disponível para todos, enquanto os números de contaminação não passarem e quanto ao acesso da criança à tecnologia”, explica o direto geral Sérgio Pires.

Na Villa Global Education, a CEO Viviane Brito diz que entre as crianças de 0 e 3 anos, os pais ainda aguardam uma melhor definição da situação da pandemia para fechar a matrícula. “Temos matrículas para todas as séries. O ensino médio e fundamental, temos quase todos os alunos matriculados”, afirma.

A CEO do Villa explica que a espera se dá por vários fatores. “O ensino remoto é complicado para crianças pequenas porque depende dos adultos para acompanhar e as famílias já voltaram a trabalhar. A segunda questão é que as crianças estão precisando socializar". 

Rede Municipal

A volta às aulas presenciais, segundo o secretário municipal de educação de Salvador, Marcelo Oliveira, deve ocorrer entre a segunda quinzena de fevereiro e 01 de março. “Nossa intenção é iniciar as aulas presenciais com a maior brevidade possível, com os professores fazendo o acompanhamento dos alunos. Temos ainda uma expectativa de início no final de fevereiro e início de março, se não houver evolução da curva de contágio e aumento da taxa de ocupação de leitos”, afirma.  

O secretário estima que até a quarta-feira (27), o protocolo sanitário definido será publicado e, possivelmente, a data exata de retorno das aulas será divulgada. Segundo ele, só faltam ajustes entre o setor de saúde e o governo estadual. 

O calendário do ano letivo de 2021 para a rede municipal também foi definido, porém, sem estabelecer a data de início. Se as aulas começaram depois de março, o secretário diz que o calendário invadirá  2022. Não haverá rematrícula dos alunos da rede que já estavam matriculados em 2020, porque a carga horária total não foi cumprida, ou seja, ainda é preciso finalizar o ano letivo de 2020. Se as aulas recomeçarem em março, as matrículas para 2021 devem acontecer em maio, pois, em abril, deve ter sido concluído o ano de 2020, de acordo com o secretário. 

Dois anos em um

Marcelo Oliveira esclarece que foram elaborados dois protocolos: o físico, sobre as regras sanitárias e adaptação do espaço das escolas; e o pedagógico, com as especificidades do calendário. Entre elas está a inclusão de alguns sábados no ano letivo e as atividades remotas como obrigatórias. Em 2020, elas tinham função complementar.

“Como só aproveitamos 118 horas do ano de 2020, temos que somar com as 800 horas do ano letivo de 2021. Então vão ser mais de 200 dias letivos, o ensino remoto vai ser considerado atividade pedagógica e vai compor o calendário. Vamos incluir os sábados com atividades e, com isso, conseguimos vencer esses dois anos em um”.  

As atividades remotas serão ampliadas para as outras séries com a criação de novos canais de televisão a fim de que o ensino seja híbrido e atenda a todos os alunos. A defesa do secretário é que as crianças do ensino infantil voltem 100% presencial. “Os estudos com base científica têm mostrado que o risco de contaminação de crianças abaixo de 10 anos entre si e delas para os adultos é muito baixo”, justifica.

Em relação ao protocolo físico, elaborado em conjunto com o governo estadual, Oliveira disse que as escolas municipais já estão adaptadas às exigências sanitárias e que a última inspeção foi feita na sexta-feira (22). As crianças farão o lanche nas salas de aula e o recreio será escalonado, tendo cada turma um horário diferente, com uma duração de 10 minutos. Só serão testados os alunos que apresentarem sintomas gripais.

Ao todo, são 163 mil alunos matriculados na rede municipal de ensino de Salvador e 8 mil professores, distribuídos em 433 escolas. Os chips de internet, disponibilizados pela prefeitura para os estudantes acompanharem as aulas napandemia, continuarão.  

O secretário também ponderou que não é ideal esperar até que os profissionais de educação sejam vacinados para dar início às aulas. Ele ressalta que poderá não haver vacinas e a demora é prejudicial aos estudantes.

"A gente não conta com essa possibilidade e temos que nos preparar para voltar mesmo sem que haja vacina porque senão o prejuízo para os alunos seria irreparável, principalmente para aqueles da rede municipal de ensino, que atende principalmente crianças e jovens de famílias mais humildades e vulneráveis socialmente”, conclui.

Rede Estadual

A Secretaria de Educação do Estado da Bahia lembra que as aulas presenciais nas escolas públicas e particulares de todo o estado permanecem suspensas por decreto até 30 de janeiro de 2021.  “A expectativa é de retorno assim que as taxas de contaminação da covid-19 diminuírem”, informou a secretaria, por meio de nota. 

Os calendários letivos e os protocolos sanitários, de infraestrutura e pedagógicos já estão prontos, mas ainda não serão divulgados. A secretaria não deu estimativa de data de divulgação.  
Ainda segundo a pasta, a proposta é “fazer uma recomposição mínima da carga horária, com plano de trabalho e diversas outras atividades, observando o que permite a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LBDE)”. A secretaria comunicou ainda que as escolas estaduais estão adaptadas, com mais lavabos, dispensadores de álcool em gel e ventiladores, “para acolher a comunidade escolar com segurança”. A rede estadual de ensino possui 1.111 escolas, 671 anexos e 786.097 estudantes matriculados.

*Com a orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo

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