Mercado de opções: o que os nerds do caso GameStop podem te ensinar sobre a bolsa

economia
06.02.2021, 05:59:00
Nerds "degenerados", como se chamam, conseguiram lucrar e impor prejuízo bilionário ao mercado (Reprodução Reddit)

Mercado de opções: o que os nerds do caso GameStop podem te ensinar sobre a bolsa

'Degenerados' do submundo da internet criaram bolha e quebraram fundos bilionários de investimento

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Até janeiro deste ano, a GameStop (na bolsa, GME) era apenas mais uma rede de lojas físicas de jogos e de consoles de videogame que estava em profunda decadência no mercado. Porém, no primeiro mês dessa nova década, a empresa virou notícia mundial ao protagonizar um dos maiores casos de bolha especulativa da história do mercado financeiro.

Tudo começou por conta de nerds "degenerados", como eles mesmos se descrevem, usuários do fórum WallStreetBets (WSB), sobre o mercado financeiro na plataforma Reddit. Pessoas com pouquíssimo poder de investimento, mas que se juntaram para comprar ações e opções de compra de ações em enxurrada. E assim, lucraram até mesmo 700% na bolsa de valores e impuseram um prejuízo bilionário aos maiores fundos do mundo.

Esses "degenerados" conseguiram isso a partir do seu quarto, operando o mercado financeiro através do celular. Essa história pode ser explicada daqui a pouco. Antes, vale a pena entender o que podemos aprender com ela.

Usuários do WallStreetBets (WSB) gravaram no corpo a decolagem da ação GameStop (GME) (Foto: Reddit)

Apesar da aparente complexidade do caso - e é complexo, de fato -, o caso GameStop atraiu a atenção de muitos leigos do mercado financeiro. E esse interesse, tão repentino quanto o crescimento do valor das ações da empresa, pode ensinar muito sobre o mercado de ativos de renda variável para quem está apenas dando os primeiros passos nesse universo.

Aproveitando a repercussão do caso GameStop (vamos resumi-lo ao final da matéria), traremos aqui um conteúdo bem introdutório sobre dois mercados fundamentais para a bolha especulativa que foi criada. São eles o mercado de opções e o mercado de venda a descoberto.

Esse é mais um capítulo da série elaborada pelo CORREIO voltada para quem quer dar os primeiros passos no mercado financeiro. Clique aqui para conferir as demais matérias.

Mercado de opções
“Opções” são contratos que garantem ao investidor o direito de comprar ou vender um lote de ações por um preço predeterminado dentro de um determinado período. Esse preço fixado da ação chama-se “preço de exercício” ou “strike”.

Esses contratos são negociados por um determinado valor, chamado de “prêmio”. O valor do prêmio deriva do valor da ação ao qual ele se refere. Ou seja: se a ação de uma determinada empresa for valorizada durante um pregão, o valor do prêmio também será valorizado.

Importante diferenciar os mercados. Quando se fala do mercado de ações, fala-se da compra e da venda de papéis que dão direito ao titular de uma porcentagem da propriedade da companhia. Quando se fala do mercado de opções, fala-se de contratos que permitem comprar e vender ações por um preço pré-determinado.

Em outras palavras: se você deseja comprar uma ação de uma empresa, terá que comprá-la ao preço de mercado de hoje, ou seja, de acordo com a cotação atual dela na bolsa. Porém, ao adquirir uma “opção”, você pode fazer essa mesma compra no futuro pelo mesmo preço de hoje.

Como assim?
Ficou confuso? Normal. Nessas horas, nada melhor do que um exemplo do dia a dia. Imagine que um conhecido seu, chamado Hebert, possui um terreno num condomínio, avaliado em R$ 200 mil. Porém, Hebert precisa de um dinheiro agora, e não tem condições de vender o terreno.

Você acredita no potencial do terreno, e acredita que em dois anos ele valerá muito mais. Então, você propõe a Hebert o seguinte: adquire hoje, por R$ 20 mil, o direito de comprar, daqui a dois anos, o terreno dele por R$ 230 mil.

Digamos que após esses dois anos a sua previsão deu certo, e o terreno foi valorizado. Você o adquire por R$ 230 mil e o vende a preço de mercado da época, que é, digamos, R$ 300 mil. Então você tem um lucro de R$ 50 mil (já que seu custo total foi R$ 230 mil + R$ 20 mil).

Mas e se o condomínio não vingar e o terreno, depois de dois anos, for avaliado em R$ 180 mil? Ora, basta você não exercer o direito de compra. E Hebert terá saído com R$ 20 mil no bolso.

Em termos do mercado de opções, fica assim: Hebert é o “lançador”, o terreno é o “ativo” e você é o “titular” da opção de compra, chamada de “call”. Os R$ 20 mil pagos pelo “call” é o “prêmio” e o valor de R$ 230 mil acertado é o “preço de exercício” ou “strike”.

A opção não é só de compra, ou “call”. Existe também a opção de venda, chamada pelo mercado de “put”. Digamos que dessa vez você foi quem adquiriu o terreno por R$ 200 mil, mas está com medo dele ser desvalorizado.

Então você paga R$ 20 mil a Hebert para ter a opção de vender (put) o terreno a ele por R$ 200 mil em até dois anos. Digamos que depois desse prazo o terreno realmente se desvalorize até R$ 150 mil. Então, você exerce seu direito a venda e reduz seu prejuízo aos R$ 20 mil do prêmio - e não a R$ 50 mil, que seria o caso de vender a casa pelo novo valor de mercado.

Pois bem: como dito antes, o valor do “prêmio” pela opção de compra ou de venda de determinada ação deriva do preço da própria ação. Se determinada empresa está em alta, o valor de suas ações também está em alta na bolsa de valores. E o “prêmio” para obter uma opção sobre ela sobe junto.

Mercado de venda a descoberto
No linguajar do mercado financeiro, esse tipo de operação chama-se “short”. Basicamente, trata-se de um operador que vende a propriedade de uma ação que ele não possui. E como ele faz isso? Alugando a ação de alguém que a possua e pagando uma taxa em troca.

A essa altura, você deve se perguntar: pra que alguém faria isso? Basicamente, essa é uma estratégia muito usada quando percebe-se que uma determinada empresa está em queda no mercado, e suas ações estão em ritmo acelerado de desvalorização e é possível lucrar em cima disso.

Como? Bom, digamos que Hebert é dono de uma cota de 100 ações de uma empresa que está em queda na bolsa. Você aluga a cota de 100 ações dele por uma determinada taxa e vende essas 100 ações no mercado pelo preço atual, de R$ 10 cada. Logo, você levantará R$ 1 mil de patrimônio.

Dois meses depois, as ações da empresa de fato se desvalorizaram e passaram a valer R$ 8, cada. Você então vai ao mercado, recompra as 100 ações por R$ 8 cada, gastando ao todo R$ 800 e devolve as 100 ações a Hebert.

Seu lucro, portanto, foi de R$ 200. E Hebert, por sua vez, continuou com o mesmo patrimônio de 100 ações e ainda receberá a taxa que vocês combinaram (que pode ser calculada sobre os R$ 200 que você arrecadou com a operação).

Mas, e se o mercado mudar repentinamente e a empresa for valorizada, ao passo que suas ações passem a custar R$ 12? Isso significa que, para devolver as 100 ações a Hebert, você terá que pagar R$ 1,2 mil para adquiri-las no mercado, assumindo assim o prejuízo de R$ 200.

Geralmente, nesses casos, os operadores que vendem a descoberto correm ao mercado no primeiro sinal de aumento dos valores das ações, a fim de “zerar” o quanto antes o número que tinham vendido pelo menor prejuízo possível.

Ou seja, no seu caso, você correria ao mercado para comprar as 100 ações e devolvê-las a Hebert o quanto antes. Afinal, é melhor comprá-las logo, ao custo unitário de R$ 10,01, por exemplo, do que esperar chegar a R$ 12 cada, não é mesmo?

Obviamente, trata-se de uma operação em que há um risco enorme, bem diferente do mercado de opções, que visa reduzir o risco. Ainda assim, a venda a descoberto é amplamente praticada pelos maiores fundos de investimento do mundo, já que é comum que ações se desvalorizem.

O preço da ação da GameStop disparou no dia 27 de janeiro (Foto: Reprodução Google)

O que houve com a GameStop?

Esse tópico será um resumo - resumo mesmo - de tudo o que aconteceu ao longo de janeiro na maior bolha do mercado financeiro dos últimos tempos. A GameStop é uma rede norte-americana muito antiga de varejo de games e consoles de videogame, de venda presencial e pouca presença digital.

A empresa foi fortemente abalada pela pandemia da covid-19. Não só por conta da crise econômica que assolou os EUA, mas também porque os consoles mais modernos lançados no mercado nesse período - Playstation 5 e XBox Series X - permitem a aquisição dos jogos por meio totalmente digital, baixando-os direto de lojas virtuais.

Obviamente, as ações da companhia vinham em forte queda. Alguns rumores de troca de diretoria, rumores de um novo investidor que mudaria a cara da empresa, mas nada que a tornasse lucrativa no mercado financeiro.

Existe um fórum chamado WallStreetBets, hospedado na plataforma Reddit. Atualmente, são mais de 9 milhões de “degenerados” (é assim que eles mesmos se chamam). Até janeiro, eram 5 milhões.

Os “degenerados” são pessoas físicas, investidores sem muita experiência no mercado financeiro e que possuem pouco capital para investir. O fórum serve para trocar informações sobre a bolsa, apontar ações que vale a pena comprar e por aí vai.

Os degenerados do WallStreetBets adoram atuar no mercado de opções, justamente por ser mais barato - o valor do prêmio pelo direito de compra ou de venda da ação geralmente é uma fração pequena do valor da própria ação - e por garantir mais segurança na operação.

Quando se negocia uma série de opções de compra de uma ação, a alta demanda faz com que o próprio valor da ação também suba. E se, ao mesmo tempo, os mesmos investidores começarem a adquirir as ações - mesmo que seja pelo valor mais baixo, predeterminado na opção -, a alta demanda também fará com que o valor da ação suba.

A bolha começou quando os usuários do WallStreetBets identificaram que grandes fundos de investimento, em especial o Melvin Capital, um dos maiores players do mercado financeiro mundial, estavam vendendo a descoberto ações da GameStop apostando na contínua desvalorização delas.

Os degenerados então se mobilizaram e começaram a comprar, em massa, ações e opções de compra da GameStop. Devido à alta demanda, o valor das ações no mercado começou a disparar. Olhando o valor subindo tão rapidamente, os fundos de investimento que estavam vendendo a descoberto tiveram que agir rapidamente.

Ou seja: os grandes fundos de investimento tiveram que ir rapidamente ao mercado, comprando ações em massa na tentativa de “zerar” suas vendas em descoberto. Mas coprando de quem? Dos próprios degenerados. Só que a compra em massa por parte dos fundos também aumentava a demanda, portanto, os próprios fundios elevaram ainda mais o valor das ações.

O resultado foi uma valorização 700% só em janeiro. Os pequenos investidores, quase amadores, do WallStreetBets, tiveram lucros jamais vistos por pessoas físicas. Por outro lado, os grandes fundos ficaram perdidos. O Melvin Capital, que já administrou mais de 2,5 bilhões de dólares, teve um prejuízo bilionário e teve que ser socorrido financeiramente por outros fundo.

Nos termos dos degenerados do Reddit: o dia em que as sardinhas venceram os tubarões.

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