Moradores e trabalhadores relatam mudanças na rotina após morte da estudante Cristal

salvador
05.08.2022, 07:30:00
(Reprodução)

Moradores e trabalhadores relatam mudanças na rotina após morte da estudante Cristal

Violência intimida público que circula na região

Era para ser mais uma semana comum na rotina de Amanda Rosa, 28 anos, auxiliar administrativa, que trabalha diariamente na Ladeira da Barra. Entretanto, após a morte da estudante Cristal Pacheco, de 15 anos, na última terça-feira (2), em frente ao Palácio da Aclamação, próximo ao Campo Grande, a insegura tomou conta da rotina da profissional. 

A auxiliar administrativa, moradora do bairro do Tororó, no Centro de Salvador, realizava todos os dias o trajeto até seu trabalho a pé, como forma de economizar dinheiro e movimentar seu corpo. Nesta quinta-feira (4), Amanda aguardava seu segundo transporte da manhã, ao lado  de uma banca de revista, em frente à Praça do Campo Grande, afastada 500m do ponto de ônibus. “Estou aqui como forma de estratégia. Quem passa, acha que estou me protegendo da chuva, mas é como consigo ter uma visão completa da região. Vejo quem vem de todos os lados e me escondo”, afirma a jovem.

Com o novo trajeto, Amanda gasta uma hora do seu dia para chegar ao trabalho utilizando dois ônibus, tempo esse que era reduzido pela metade quando a moradora do Tororó se sentia apta a fazer sua caminhada. Segundo a profissional, o novo esquema de deslocamento faz parte das suas recentes atividades para driblar possíveis furtos e roubos.

Seu retorno para casa, por volta das 19h30, também não é mais o mesmo: “peço a meu namorado para ir me buscar de moto porque minha volta para casa, normalmente, é pelo Campo Grande, nesse horário as ruas já estão vazias. Fiquei muito abalada com a morte de Cristal e não consigo mais voltar andando sozinha. Por ser mulher, são inúmeros fatores que mexem com meu psicológico, tantos casos ruins e, infelizmente, podem acontecer comigo”.

Ainda reforçando o choque pela vida de uma criança ter sido interrompida por um motivo tão fútil, Amanda se mostra preocupada com sua integridade física nas ruas do centro da cidade. “Minha vida é muito cara para ser tirada por causa de um celular, um bem material. Estou realmente muito em choque”, desabafa.

Nas proximidades da Casa D’Itália, com sua barraca de apostas esportivas, Beatriz Araújo, 25, trabalha de segunda a sábado na região. Há 5 anos no mesmo posto, a jovem afirma que os casos de insegurança não têm influenciado em sua rotina de trabalho. Por outro lado, tendo uma dinâmica que envolve quantias em dinheiro, o medo sempre esteve presente. 

“Meus bens materiais posso trabalhar para conseguir comprar novamente, mas e o dinheiro dos outros? Meu maior medo é não ter como prestar contas e devolver esse dinheiro do trabalho que está sob a minha responsabilidade”, afirma Beatriz. 

Prisão ao ar livre

A violência assusta também aqueles que moram nas imediações do Palácio da Aclamação, no Campo Grande. Isaura de Codes, 69, assistente social, morou 20 anos no Corredor da Vitória. Atualmente, a idosa mora no Campo Grande e afirma que seu prédio foi invadido cerca de quatro vezes desde quando se mudou há 2 anos. 

A assistente social relata que constantemente medidas são tomadas no edifício no qual reside. “Tivemos que redobrar a segurança do prédio, levantar mais o muro e colocar grades na parte do fundo para evitar essas invasões. Felizmente os meliantes só conseguem adentrar a parte do porão, sem conseguir acessar os elevadores e apartamentos.”

Isaura participa do grupo de dança “Agita, Campo Grande” e frequenta as aulas no turno da manhã, preferencialmente às 06h. Diante dos constantes assaltos e pessoas em situação de rua na região, a assistente social tem reforçado seus hábitos de segurança: “não levo celular, nem uso correntes e relógio. Ando sempre com minhas mãos livres, sem levar absolutamente nada. Há anos evito caminhar pelo local onde a estudante Cristal foi morta justamente por não me sentir segura.”

A senhora, que também faz aulas na Casa D’Itália, conta que estende sua caminhada quando precisa sair a pé. “Para mim seria muito rápido andar em linha reta partindo do local onde moro, mas não faço isso. Sempre dou a volta no Relógio de São Pedro, lá tem ambulantes e lojas, que deixam a via mais movimentada. Eu já vinha me precavendo, tentando evitar estar exposta e agora estou redobrando os cuidados”, conta.

Para a jornalista Queila do Val, 46 anos, a segurança nos bairros do Centro da cidade deixa a desejar há anos. Segundo ela, após a pandemia, o número de pessoas em situação de rua aumentou nas avenidas e praças. Ainda no dia em que Cristal Pacheco foi morta, a jornalista participou de uma aula coletiva de funcional na Praça do Campo Grande.

“O grupo que faço essa atividade costuma se reunir no final das aulas para ficar conversando, resenhando por um tempo. Naquela terça, em especial, fizemos uma aula mais silenciosa, com volume do som reduzido. No final da aula, guardamos os equipamentos e cada um foi para sua casa de maneira rápida. Quem tem o hábito de ir a pé, pegou carona com um dos colegas ou foi de carro, evitamos ao máximo a exposição naquele momento”, afirma a comunicadora.

Sobre os cuidados com sua segurança, Queila diz que tem pavor de andar de ônibus e prefere realizar suas atividades do dia a dia andando, sem levar bolsa e escondendo seu celular na roupa.

“Espero realmente que a questão da segurança seja revista para que possamos continuar seguindo nossa vida, ir e vir sem se preocupar em ser atacada pelo caminho. Por enquanto vou seguir com minhas atividades, saindo em horários de maior movimentação, principalmente com meus cachorros - que são de raça - e podem também virar alvos de bandidos. Evitar também andar com coisas valiosas à vista, infelizmente acaba sendo uma prisão ao ar livre”, desabafa a jornalista.

Policiamento
Procurada para falar sobre a sensação de insegurança de quem frequenta a região, a Polícia Militar informou, através de nota, que atua preventivamente com rondas nas vias públicas ou através de denúncias feitas por quem frequenta o local. Acrescentou ainda que o policiamento no Campo Grande é realizado pelo 18º Batalhão da PM diuturnamente, com o uso de viaturas, que circulam pela região de forma "ostensivas e preventiva".

Ainda na nota, a PM destacou que, além do policiamento habitual feito no Centro, equipes da Companhia de Emprego Tático Operacional (Ceto), "se sobrepõem ao policiamento dos setores, de acordo com a mancha criminal".

"A unidade tem intensificado sua atuação, inclusive com operações, com vistas a coibir ações delituosas de quaisquer naturezas, contando com o reforço e o apoio da Companhia Independente de Policiamento Tático (CIPT) - Rondesp BTS, que realiza constantes ações preventivas na localidade. A região do Campo Grande conta, ainda, com o emprego de policiais em escalas extraordinárias da Operação Centro Histórico de Salvador (CHS)", finaliza.

*Com supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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