Não é opção: preço alto da carne obriga baianos a comerem mais frango, porco e ovo

bahia
28.05.2021, 05:15:00

Não é opção: preço alto da carne obriga baianos a comerem mais frango, porco e ovo

Consumo de carne vermelha foi o menor em 25 anos em todo o país

A carne está cada vez menos presente na mesa dos brasileiros. É isso que mostram os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A média de consumo hoje desta proteína é de 26,4 kg ao ano, o que representa uma queda de quase 14% em relação a 2019. Este é o menor nível em 25 anos, desde 1996, início da série histórica da Conab. Os dados do IBGE mostram que a Bahia não fica de fora desse cenário e que, no estado, o consumo já vem diminuindo há mais tempo. Entre 2008 e 2018, a queda foi de 4,4 kg na quantidade anual por cada baiano, passando de 25,7 kg para 21,3 kg. 

O que explica esse fenômeno são os altos preços. Ainda de acordo com o IBGE, o valor das carnes em geral subiu 35% no país nos últimos 12 meses até abril, mais que cinco vezes o próprio IPCA no mesmo período. No caso da arroba do boi, o preço subiu mais de 50% em comparação com 2020, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). 

Em 1858, o preço da carne foi uma das razões que motivou um motim aqui na Bahia contra o elevado custo de vida. Uma multidão enfurecida arremessou pedras contra edifícios públicos e gritou pelas ruas palavras de ordem: “carne sem osso, farinha sem caroço”, expondo para os governantes a insatisfação com a carne, de preço elevado e baixa qualidade, e com a farinha, mal processada. O recado das ruas provocou debates no legislativo e apenas isso, mas a carne continuou por muito tempo com osso e a farinha com caroço.

Hoje, por enquanto, os altos preços das carnes, que se somaram ao impacto da pandemia no bolso da população, fazem com que o alimento dê lugar ao frango, à carne de porco e ao ovo, por exemplo. Só nos primeiros quatro meses de 2021, o consumo per capita de carne bovina já caiu mais de 4% em relação a 2020, estima a Conab. Por outro lado, o consumo de ovos no Brasil chegou ao maior nível em 20 anos. Mas, até mesmo alguns produtos usados como segunda opção estão mais caros. Vilão dos preços das aves e suínos, o milho dobrou de preço no último ano e é o mais importante componente da ração.

A secretária administrativa e também dona de casa Lúcia Faria, de 52 anos, já percebeu o aumento dos preços e precisou fazer mudanças nas compras. “Desde o ano passado, o preço da carne subiu bastante, aí eu diminuí o consumo. Já não consumia tanto, porque já estava bem caro, mas agora cortei ainda mais. Só que a carne de porco e o frango também subiram de dois meses para cá, talvez até pela procura maior. Eu comprava a bandeja de peito de frango de 1 kg por 12 ou 13 reais e, agora, estou vendo por 16, até 19 reais”, conta ela.

Lúcia explica como vem se virando para não deixar faltar comida na mesa. “Procuro comprar carne moída, porque eu escolho o tipo que está mais em conta, geralmente capote e acém, e peço para moer. Assim rende mais, dá para fazer empadão, macarrão, a gente vai fazendo mágica mesmo. Se eu comprar 3 kg de carne moída, consigo alternar com frango e dá para o mês todo. O peixe eu não procuro muito, porque não é tão barato e o problema é que não rende”, completa. 

Cenário na Bahia

A gerente de uma das unidades do Frigorífico do Mané, Flávia Costa, afirma que as lojas já sentiram a queda no consumo. “Desde o início da pandemia, a gente vem percebendo uma baixa nas vendas. A gente está sofrendo para tentar manter o preço, quando é possível, fazemos algumas promoções, mas não tem muito jeito, o preço está elevado e o pessoal está comprando menos. Era um movimento que já vinha acontecendo porque a economia já não estava boa, mas a pandemia agravou tudo”, coloca.

“Outra coisa importante é que, quando o auxílio emergencial diminuiu, o consumo também caiu ainda mais. As pessoas migraram da carne de primeira para a de segunda, mas até o consumo da de segunda caiu. Por outro lado, a venda das aves aumentou um pouco, está um valor mais em conta e rende mais”, acrescenta a gerente.

Para o presidente do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Estado da Bahia (Sincar), Júlio César Farias, a explicação está nos altos índices de exportação da carne bovina. Com isso, os frigoríficos locais estão tendo muita dificuldade para competir com o mercado nacional e tendo que enfrentar a diminuição da oferta de animais para abate. 

“Os frigoríficos do mercado interno estão sem condições de competir. Aqui na Bahia, uns três frigoríficos já fecharam do ano passado para cá. Goiás está fechando frigorífico, Tocantins também. Não sabemos o que vai acontecer de agora em diante. O consumidor está sem condições de consumo por conta da pandemia, muita gente desempregada ou com redução de salário”, diz ele. 

Farias conta que a quantidade de abates na Bahia já caiu cerca de 30%. “A carne está escassa por aqui. Os frigoríficos deixaram de desossar. Na Bahia, estamos com o mercado de boi com osso. A arroba do boi está cara. Hoje, o boi está rodando em Salvador a 300 reais. No ano passado, estava em torno de 220”. 

Mas por que os preços estão elevados?

Quem explica é o economista Rafael Sales, da empresa de consultoria econômica Arazul Research. De acordo com ele, o IPCA de abril tem mostrado uma subida de preços. No acumulado dos últimos 12 meses, o índice atingiu 6,76% e um dos elementos afetados por essa subida é o item de alimentos e bebidas. 

“Isso acontece porque está havendo uma demanda crescente por alimentos no mundo todo por conta da pandemia, porque os países vêm injetando dinheiro na população e ela converte isso em alimento, que é item essencial. E a nossa taxa de câmbio está depreciada, então, para o consumidor externo, a carne brasileira está mais barata, aumentando a exportação”, explica.

“A procura pela nossa carne lá fora está ainda maior e os produtores estão preferindo exportar e receber em dólar, já que o real foi uma das moedas que mais desvalorizou no ano passado. Enquanto não tivermos uma apreciação maior da taxa de câmbio, a tendência é que a procura internacional continue alta, a exportação de carne continue se elevando e os preços internos continuem altos”, acrescenta Sales. 

Mas, de acordo com o consultor econômico, a expectativa é de melhora nos preços. “Acreditamos que, até dezembro, a taxa de câmbio aprecie e o preço normalize, até porque o brasileiro começa a procurar substitutos, como o frango, o ovo e a soja. A partir do momento que a demanda não pagar o preço desejado, o mercado vai normalizar os valores”, finaliza. 

Como substituir a carne?

A presidente da Associação das Donas de Casa, Selma Magnavita, afirma que quem compra e prepara alimentos está precisando de reinventar por conta dos altos preços. “Essa situação é boa para o produtor, mas ruim para o consumidor. Ninguém mais está comprando carne na proporção que comprava antes. Ou diminui a quantidade na hora de comprar ou diminui a quantidade de idas ao mercado. A carne é a que mais rende, mas está muito cara mesmo”, pontua. 
 
“Para driblar esses preços a gente tem que usar a criatividade. Pode buscar as carnes de segunda, ou o frango. Mas o frango também tem apresentado alta no preço. Aí outra alternativa é buscar os legumes mais baratos, o feijão e o pirão. Mas estamos vendo uma baixa no consumo, justamente por causa do preço, então acredito que com isso, em breve os preços podem cair”, conclui Selma.

Enquanto os preços não caem e a situação econômica continua desfavorável, a nutricionista Thaiane Barbosa, associada ao Sesi e ao centro de saúde e bem estar Instituto Viver, ensina como substituir a carne de maneira saudável. “A carne é uma excelente fonte de proteína, uma fonte de ferro importante. Quando o consumo desse alimento for reduzido, é preciso suprir essas outras necessidades nutricionais”, ressalta. 

“A carne vermelha pode ser substituída sem problemas pelas outras carnes de origem animal, como o frango, a carne de porco, o peixe e, além do próprio ovo. Todos esses alimentos são compatíveis tanto em relação aos macronutrientes quanto em relação aos micronutrientes. Também tem as opções de origem vegetal, das leguminosas. São elas: feijão, ervilha, lentilha e grão de bico. Mas eu ressalto que, quando o alimento de origem animal é substituído por um de origem vegetal, é necessário associar isso à uma fonte de vitamina C, para evitar a queda de absorção de ferro. Essa vitamina pode ser consumida através das frutas, como laranja, acerola e tangerina”, explica Thaiane. 

Pesquisa de preços em Salvador

Carnes de primeira:

  • Filé mignon (Bigdelivery: R$ 64,99) / (Supermercado Compre Bem: R$ 59,90) / (Boi Filé: R$ 53,49)
  • Filé especial (Bigdelivery: R$ 36,99) / (Ventura Carnes: R$ 32,99) / (Boi Filé: R$ 32,99)
  • Maminha (Atacado Novo Mix: R$ 32,99) / (Supermix: R$ 29,99) / (Boi Filé: R$ 32,99)

Carnes de segunda:

  • Acém (Boi Ideia: R$ 17,99) / (Bompreço: R$ 17,99) / (Gbarbosa: R$ 16,91)
  • Capote (Bigdelivery: R$ 27,99) / (Supermix: R$ 24,99) / (Mercadinho Melo: R$ 25,99) 
  • Fraldinha (Bigdelivery 28,99) / (Mix Bahia: R$ 25,99) / (Casa de Carne: R$ 28,12)


*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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